Cláudio e o Palace: uma história de amor

Cláudio e o Palace têm a história marcada por outubros.

Em outubro de 1926, nasce o grandioso Central Hotel. Encomenda de um importante comerciante do café, na esquina da rua Duque de Caxias com a Álvares Cabral, quarteirão paulista de Ribeirão Preto.

Em outubro de 1955, nasce Cláudio Bauso, arquiteto e defensor do patrimônio, completo apaixonado por cada pedacinho do Central Hotel, que a essa altura já tinha nome de Palace.

Quem poderia saber? Seria também em um outubro que Cláudio ajudaria reviver o prédio abandonado.

Outubro de 2001 – depois de compras, vendas e quase 10 anos desativado – teve início a restauração do Palace. Em outubro de 2011, o Centro Cultural Palace foi inaugurado, com comemoração da cidade e de Cláudio.

Foi em setembro do ano passado que o apaixonado deixou de estar diariamente no patrimônio, por questões políticas.

Para os outubros, reservaram-se os encontros. Embora Cláudio demonstre que o amor entre prédio e arquiteto é infinito.

Cláudio Bauso arquiteto Palace Ribeirão Preto

Espelhos, maçanetas, detalhes da porta, pintura nas paredes, arte nos corrimãos, móveis da década de 20: pelos olhos de Cláudio Bauso cada pedacinho do Centro Cultural Palace é precioso.

– Está vendo esses detalhes da porta? Foram feitos à mão. Por isso cada flor é de um jeito!

E vai tornando contagioso seu encantamento.

– No primeiro olhar, você vê o belo. É preciso um olhar mais atento para perceber os detalhes que formam o belo. É assim que a gente deve olhar para as pessoas: sem superficialidade.

Mal chega ao prédio e já se vê que está em casa. O funcionário da segurança pede uma orientação para ascender as luzes: “Foi um sufoco descobrir onde era! Você é quem conhece!”. A professora de dança pede ajuda para ligar a caixa de som.

Cláudio resolve tudo com tranquilidade. Atuou por 15 anos no Palace. Participou da restauração do prédio e, depois, trabalhou como coordenador de projetos no Centro Cultural.

– Eu fui muito a fundo na pesquisa. Comecei a entender o valor de cada coisa aqui dentro. Não é só o material. É o significado desse patrimônio para a cidade.

Significado que, ele destaca, está nos carnavais que eram realizados em frente ao Palace, nos desfiles do café, nas manifestações políticas que, ainda hoje, encontram seu palco no Quarteirão Paulista do qual o Palace faz parte.

– Não adianta querer marcar em outro lugar porque as pessoas não vão. O lugar é aqui.

O patrimônio, Cláudio enfatiza, é mais que o conjunto arquitetônico a ser preservado.

– Uma arquitetura antiga guarda elementos importantíssimos: vida social, traços de economia, sistema de trabalho, religiões. É um trabalho arqueológico. As respostas dos problemas de hoje estão lá atrás.

Pautou – e pauta – sua trajetória alicerçada nessa certeza.

Cláudio Bauso arquiteto Palace Ribeirão Preto

Cláudio conta que sempre esteve ligado às artes. Quando o curso de Arquitetura da USP São Carlos foi inaugurado, em 1985, ele acabara de terminar o terceiro colegial. Integrou essa primeira turma e ficou na faculdade por 11 anos.

– Eu fiz todas as optativas que pude fazer. Aproveitei o período acadêmico para ampliar o meu conhecimento.

Além da Arquitetura, estudou Engenharia Civil, Engenharia de Materiais, Engenharia Ambiental, Astronomia, Computação.

Em 1997, voltou para Ribeirão, com currículo extenso. Dois anos depois já ocupava a cadeira de Arquitetura no Conselho Municipal de Cultural.

A luta pelo público começou aí e não parou.

Cláudio foi presidente do Conppac (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural), presidente do Conselho de Cultura, delegado municipal e estadual de cultura e atuou, em âmbito nacional, na elaboração das leis da cultura.

À frente do Conppac, foi responsável pelo primeiro tombamento municipal de Ribeirão Preto.

Conta que a preservação do patrimônio municipal foi impulsionada pela demolição ilegal da Cerâmica São Luiz, em 1993, que gerou multas ao supermercado envolvido e uma perda irreparável à história.

– Foi um crime. E teve uma grande mobilização social.

Os tombamentos municipais começaram em 2004, com o Prédio de Câmara e Cadeia, que fica ao lado da prefeitura municipal. Depois, a preservação veio em cascata.

– O Conppac se fortaleceu.

Cláudio Bauso arquiteto Palace Ribeirão Preto

Cláudio é efervescente. As opiniões políticas, pessoais, humanas e filosóficas saltitam em uma mente que não se conforma.

– Nós temos uma origem. E se você nega sua origem, se é privado de saber de onde veio, qual vai ser sua atuação no hoje? Não podemos ser apáticos, indiferentes.

Acredita na sociedade pautada por raízes.

– A desconstrução que a casta política faz traz prejuízos enormes, com uma sociedade que não tem consciência do seu patrimônio, da sua origem, dos seus princípios. É a sensação do ‘eu não pertenço a isso e isso não me pertence’.

Por tanta inquietude, conta que fez desafetos por onde passou. Costumava gritar suas opiniões, apontar o que estava errado.

Hoje, adotou nova postura.

– Percebi que tenho que ter serenidade. Não posso ser mais um intolerante entre tanta intolerância que já tem por aí.

E vai buscando se controlar, mesmo quando vê o desacerto.

Diz que depois que deixou o cargo de coordenador de projetos, tem procurado não voltar mais ao patrimônio que é tão seu. Tão nosso.

E procura não fazer planos para o futuro. Conta que está trabalhando em Cravinhos e conhecendo muita história por lá.

– Eu não confio no amanhã. As coisas materiais podem ser destruídas a qualquer momento. O significado delas é o importante.

Deixa o Palace pela porta de vidro e ferro, cujos detalhes foram feitos à mão e, por isso, cada flor conserva sua individualidade.

Não é preciso olhar atento para perceber: o amor entre o arquiteto e o prédio é infinito.

 

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