A História do Dia pelos olhos de um personagem

O professor Luiz Cláudio Jubilato teve sua trajetória contada no História do Dia por mim, Daniela Penha. Como resultado do nosso encontro, ele escreveu essa crônica que tenho a imensa honra em compartilhar. É a primeira vez que inverto os papeis: de entrevistadora a personagem. E agradeço muito o carinho com que o professor contou essa parte da minha história! Me sinto lida e traduzida em belas palavras. 

 

Leia AQUI a história do professor!

 

A História do Dia pelos olhos de um personagem

por Luiz Cláudio Jubilato

 

Num dia comum, como tantos outros. Um daqueles em que a realidade evapora com o calor do asfalto. Não há vento. As folhas caem batendo o bico no chão. Abre-se a porta. Minha secretária avisa: há uma moça aqui querendo falar com o senhor. E eu, que sequer sou senhor de mim mesmo, levantei-me para receber a moça de sorriso largo. Boa tarde, professor, sou a Daniela Penha. De repente, não mais que de repente, sacou um bloco e uma caneta. Pelo jeito, deve ser Daniela Pena, brandindo essa caneta na mão. Disse-me que criou um blog, chamado História do Dia e se dedicava a garimpar histórias de pessoas. Pensei: Chegou o meu dia de virar personagem. Então, desatou a me perguntar. Pensei: É Daniela Empenha, empenhada, empenhada que estava em me virar pelo avesso.

Junto com seu sorriso franco, vinha cheia de palavras e interrogações, nenhuma reticência. Não é fácil ficar frente a frente com o narrador da minha própria história. Pensei: um trabalho quase insano esse de peneirar fatos, costurar pessoas, ou melhor, montar o quebra-cabeça que cada um de nós é ou acha que é. Essa loucura de desvendar essa relação tumultuada entre a aparência e a essência.

A mulher de sorriso cativante chega cheia de perguntas, grávida de palavras, ouvidos ávidos e mãos sôfregas. Olha bem de frente para o mim, personagem a ser desvendado, mapeia minha cara, mergulha nos meus olhos, parece querer me virar pelo avesso, pretende que eu conte o incontável, me transforme no seu personagem.

E Daniela perguntou. E perguntou. E perguntou. Chegou a um ponto crucial para ela: Professor, tudo na sua vida tudo vira crônica? Respondi: Vira. Também perguntei. E perguntei. E perguntei. Perguntei o perguntável: Por que ouvia histórias de pessoas que não conhecia? Ela me explicou excitadíssima, como se estivesse pronta para contar o seu maior segredo, comprou a luta de dar voz a pessoas sem voz, seres invisíveis na loucura da vida corrida: o gari, o pipoqueiro, o garçom, o jornaleiro, o porteiro… Pessoas sem nome, cuja identidade se resumia a sua profissão: “O garçom, me traiz uma breja!”.

Tornadas personagens, essas pessoas jamais imaginariam virar palavras, jamais imaginariam que sua invisibilidade para os passantes fosse agora carimbada em letras dentro de um livro. Jamais imaginariam pular de uma página para dizer algo a alguém. Daniela lhes fez descobrir suas histórias, para as quais nem eles próprios davam atenção. Eram complexos seres, na sua simplicidade. Mal sabiam se explicar. Lutou, lutava e lutaria para publicar “A história do dia” que se tornaria “A história de sempre”.

Daniela me disse que eu ficaria surpreso e fiquei, não com eles, mas com ela, sua força, sua clarividência, sua alma de garimpeiro, sua necessidade de construir pessoas através de relatos. Agora estaria eu ali, mero escrevinhador, visto por alguém a quem eu conhecera naquele momento, que mexeu na minha mente e nas minhas vísceras para falar de um assunto de que não gosto muito: falar de mim. Relembrei coisas escondidas em algum lugar da mente, fiz curvas sem medo de cair no abismo das recordações.

Falando, ela sonhava e falava e se expunha e se emocionava e falava e anotava, e como anotava, como me olhava, não o que eu dizia, mas como ela me lia, com seus olhos grudados na caneta e numa folha de papel. E me pedia para parar, anotar algum detalhe que, para mim, era mero detalhe. E eu não conseguia refalar. Saltava daquele momento para outro. Também a conheci entre uma pausa e outra, quando a caneta levantada, esperava para espetar o papel. Não é fácil estar de frente para um personagem concreto e aqui está um fragmento de Daniela, transformada em uma crônica, narradora da sua própria história. Como a li.

Daniela entrou na minha sala mulher grávida de palavras e saiu personagem, narradora de uma parte si mesma, agora também personagem da minha história. Deixou em mim a marca da sua força, sua inteligência e sua capacidade incomum: ouvir. Daniela escreveu, não digitou. Imprimiu sua marca pessoal.

Tudo vira crônica, Daniela, lhe preveni: até a história de um dia que era para ser como qualquer outro, mas não foi, você o fez incomum.

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