Adriana dá boas vindas a mais uma Feira do Livro de Ribeirão Preto

A primeira história foi escrita aos nove anos.

Adriana conta que não era de bonecas e outras brincadeiras das crianças com a mesma idade. No lugar, pegava folhas sulfite e colocava em palavras o seu mundo.

Aos 11 anos, ganhou uma máquina de escrever. Aos 15, brigava pela cultura e pelas leis em Brasília, participando de reunião da Subcomissão de Cultura e Educação que discutia a Constituinte.

A Adriana menina foi logo escancarando ao mundo ao que veio:

– Eu só acredito na cultura. Não acredito em uma segunda opção. Nada tem mais força do que a cultura para fazer mudanças.  As pessoas falavam que eu iria mudar de ideia. Mas a ideia é a mesma de quando eu tinha nove anos.

Hoje, aos 45, o currículo fazendo o que ama é tanto que ela precisa explicar:

– Se você for somar os anos que passei atuando em cada coisa, a conta passa da minha idade. É que sempre fiz muitas coisas ao mesmo tempo.

Adriana Silva é jornalista, educadora, escritora, atuou na Secretaria de Cultura de Ribeirão Preto por 11 anos – quatro deles como secretária – hoje atua como consultora, vice-presidente no Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais, acabou de lançar o quarto livro e já se prepara para o quinto.

Quando pergunto se ela dorme, cai na risada.

Nessa semana, porém, entre as tantas atuações, foca as atenções em único lugar.

(E nem por isso terá mais tempo para dormir!)

Desde sábado (3), quando a 17ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto começou, Adriana passa as horas do dia no corre-corre do resolve aqui, recepciona ali, fala com um autor, dá uma entrevista.

Há dois anos, ela é também presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Antes, passou dois anos na vice-presidência e diz que, enquanto funcionária da Secretaria de Cultura, também atuava fazendo a feira dar certo.

Nesta edição, serão 260 atividades gratuitas, mais de 130 autores, show de Chico César e Arnaldo Antunes.

Ela explica que a função de presidente é voluntária.

– É como se a feira fosse a materialidade do meu discurso. Uma coisa é falar. Outra coisa é fazer.

Ver a cultura tomar forma de realidade é o que faz o trabalho – que não é pouco – valer a pena.

Repete a frase que a autora Marina Colasanti falou no segundo dia de feira.

– Quando você faz o que você acredita, fica tudo mais fácil.

Adriana Silva Feira do Livro Ribeirão pretoAdriana cresceu em Bonfim Paulista e diz que o amor à cultura não é herança de família. Conta que a mãe, inclusive, teve dificuldades para entender que a filha preferia escrever à brincar.

Fato é que ela vê na cultura a base de toda construção.

– A cultura é nosso lado mais humano. A educação sem cultura é técnica. Para mim, não faz sentido nenhum dentro de uma hierarquia política que a cultura receba menos investimentos. A cultura cuida do ser humano.

‘Do conhecimento que liberta, ao amor que educa’, é o tema da Feira neste ano.

Em meio ao pouco apoio do poder público, a Fundação do Livro e da Leitura de Ribeirão Preto organizou uma feira com nova proposta, parcerias, olhares.

– Esse ano a feira colocou os pés na formação. Até o ano passado, a feira tinha os dois pés na difusão, divulgar o livro, que também é importante. A formação é uma necessidade. Essa nova fase é resultado de maturidade.

Educação e cultura, a Feira nos diz, devem andar juntas.

– A ideia é jogar luz nesse debate: como a cultura apoia a educação e como são fracas separadas.

A discussão, Adriana bem sabe, deve se arrastar por anos até que haja mudança.

Quem começou a escrever aos nove anos tem pressa de conhecimento. Mas sabe, desde então, que o caminho é longo.

Adriana na abertura da 17ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto

O autor preferido de Adriana é Jostein Gaarder, que escreveu ‘O Mundo de Sofia’, o livro que nos faz questionar a existência e chega a deixar a alma com fome de respostas.

O livro ‘Crime e Castigo’ marcou a vida literária da escritora em ‘antes de depois’ da leitura.

Cada qual ao seu modo, Jostein e Dostoiévski falam do humano, em suas profundidades.

Eis a cultura e sua capacidade de transformação.

– O cultural é nosso lado mais humano. É onde você consegue ser você mesmo.

Hoje é o quarto dia da feira, que vai até domingo (11).

Adriana não está perto de parecer cansada. Corta os corredores do Palace, do Teatro Pedro II, passa pela praça com sorrisão no rosto.

– Aqui é onde eu descanso. É o meu lazer.

Entende que a cultura nos conecta ao que somos.

– Quanto mais globalizado o mundo está, mais você precisa valorizar a sua cultura. Se você é do mundo, você é de lugar nenhum. E é importante que você seja de algum lugar.

Encontrou seu lugar quando colocou as primeiras palavras em sulfite.

Pertence a cultura. Ou a cultura lhe pertence?

 

Programe-se para a feira: http://www.fundacaodolivroeleiturarp.com/
Crédito das fotos: divulgação da Feira do Livro

 

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