Alomay cruzou a América Latina de carona

Alomay senta em um banquinho, pega o ukulelê decorado com alças cor de rosa e solta a voz. Um vozeirão que sai em cantigas de bolero, reggae, repertório diverso.

A caixinha de sapato em frente vai guardando as contribuições que chegam.

Quem passa, não sabe. Mas em três anos a jovem uruguaia viveu o que, para muita gente, não caberia em toda uma vida.

Ela deixou sua terra em busca de conhecer. Entre estradas, caronas, novos amigos e muito sufoco não perde o foco.

Passou por Venezuela, Equador, Colômbia, Peru, Bolívia, Florianópolis, São Paulo, Belo Horizonte, Manaus, Amazonas.

Passou cinco meses em Ribeirão Preto e, na semana passada, quando se despediu, arrancou choro dos amigos que fez no Calçadão.

O plano é passar uns dias em Ubatuba, o réveillon em Camboriú e conhecer o nordeste, numa viagem que deve durar um ano.

Isso se antes não passar na faculdade de dança pela Unicamp, prova que prestou com o apoio dos amigos brasileiros que já ganham lugar de família.

Alomay Cardani, 27 anos, quer agarrar o mundo com as mãos e, só depois de muito andar, quem sabe escolher um lugar onde, enfim, queira fincar raízes.

– Vida é viver, né? Para mim vida é risco: conhecer países, culturas, comidas, pessoas. Pular de uma cachoeira. Vai fazer o que quieto?

Alomay cruzou a América Latina de carona

Alo é de Colônia do Sacramento, uma pequena cidade turística do Uruguai, que tem ruinhas de paralelepípedo e um pôr do sol que nunca sai da memória.

É disso que ela mais sente falta, aliás. Do sol se pondo sob o mar na sua terra.

Diz que está acostumada com a saudade, porém. Já aos 18 anos, deixou a zona rural onde os pais moravam e se aventurou sozinha por Montevidéu e Punta del Leste.

Formada em dança, chegou a ter uma escola de dança do ventre. Conta, no entanto, que precisava trabalhar em três, quatro turnos, lavando pratos e fazendo faxinas para conseguir se sustentar.

A decisão de partir foi tomada quando fechou as portas da escola por questões financeiras. Alo diz que chegou a ficar seis meses dançando em uma das principais companhias do Uruguai, mas a má remuneração era a mesma.

Decidiu, então, em dezembro de 2014, que iria percorrer o mundo. E saiu por aí de carona. Em alguns trechos, teve a companhia do namorado, mas o relacionamento acabou e ela seguiu sozinha levando só uma mochila e R$ 30.

Para se sustentar, fazia artesanato. Até ganhar um ukulele de um dos amigos que fez. Não sabia tocar e nunca havia cantado, mas aprendeu em poucos meses vendo vídeos na internet.

No calçadão de Ribeirão Preto se apresentava tocando e cantando ou com a dança do ventre. Contou que ganhava, em média, R$ 60 por dia e, então, as próximas viagens serão de ônibus, ao invés de carona.

– Eu trabalho do que eu quero, no horário que eu quero e, se eu ganhar menos, é porque me esforcei menos.

Entre um amigo e outro, foi conhecendo as mães que chama de suas. É na casa delas que tem se hospedado por aqui. E já elegeu o que a cidade tem de melhor.

– São as pessoas! Muito educadas, receptivas, simpáticas. Eu tenho várias mães, que cuidam de mim. Se não fossem elas, poderia estar morando na rua.

Alomay cruzou a América Latina de carona

O percurso de Alo teve dias bons e outros nem tanto.

Ela conta que precisou fugir de carro e caminhão porque os motoristas a assediaram durante a carona.

Para se sentir mais segura, então, muitas vezes se veste como homem.

É preciso ser muito mulher para encarar o mundo: é o que Alo mostra.

– Eu tenho medo e tem que ter medo para ficar esperto. Mas eu não quero deixar de fazer as coisas por medo. Se antes não tinha dinheiro para o ônibus, o jeito era ir de carona.

Já dormiu em posto de gasolina, na rua e, em Florianópolis, conta que conseguiu comprar uma barraca que montava no meio das dunas quando anoitecia.

Por medo, chegava a se amarrar na mochila para dormir certa de que não iria acordar sem nada.

Em contrapartida, passou duas semanas nas Ilhas de Margarita, hospedada em hotel cinco estrelas com o que guardou vendendo artesanato. Conheceu grande parte do Caribe e se encantou por cada lugar dos muito que foi.

– Como em tudo na vida, tem coisas boas e difíceis. Eu estou conhecendo as comidas de cada lugar, as pessoas, aprendendo a falar português com os sotaques de cada lugar que eu vou. Nunca conheceria tanta coisa se não estivesse viajando.

Só topou prestar a prova de dança na Unicamp quando o amigo explicou que ela poderia trancar o curso por alguns meses para continuar suas viagens.

Depois de muito andar, quer escolher um lugar para chamar de seu e abrir uma escola de dança para sustentar as viagens de férias.

Escolheu o Brasil, mas ainda não faz ideia de qual partizinha dele, entre as tantas que são preferidas.

– Cada lugar tem sua beleza…

Garante que ainda tem muito a caminhar!

 

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