Amanda é a única mecânica de manutenção aeronáutica no aeroporto de Ribeirão Preto

Amanda diz que sempre gostou de desmontar as coisas para saber o que tinha dentro. Vitrolas e sonatas se perdiam na mão da menina, que tirava todos os parafusos, mas ainda não sabia pôr de volta.

Aos 12 anos, quando já se tornava aprendiz de profissão, teve que deixar seu passatempo preferido pelo preconceito de quem nada entendia sobre “coisas de menina e menino”.

O tio tinha uma oficina mecânica e ela, que acabara de chegar a Ribeirão Preto, encontrava ali a maior diversão.

Passava o dia desmontando carburadores, lavando peças, auxiliando no reparo de veículos. O buchicho não demorou a vir.

– As pessoas faziam piadas, questionavam se eu era menina ou menino. Minha mãe ficava muito triste. E eu acabei deixando a oficina de lado.

Só retomou a vontade de entender a engrenagem das coisas uma década depois, aos 25 anos, casada e com dois filhos.

As pessoas que nada entendiam continuaram a olhar torto quando ela decidiu que seria mecânica de manutenção aeronáutica.

“Mas você vai aguentar trocar a roda de um avião?”

“Mas isso é coisa de homem!”

Dessa vez, porém, Amanda Pazemecxas somou as forças que tinha.

– O mundo ainda é machista. Não adianta termos a demagogia de que está mudando. Mas é preciso se impor sempre. Ter comprometimento com o que você quer fazer, independente do que seja.

Quando ela fez o curso para mecânica, era a única mulher na sala de aula. Hoje, em 2018, é a única mulher a ocupar o cargo entre cerca 60 funcionários de todo aeroporto de Ribeirão Preto.

No Brasil, são 233 mulheres entre 8.092 homens na função: menos de 3% do total, de acordo com dados da Agência Nacional de Aviação.

O único cargo em que há mais mulheres do que homens em todo território nacional é o de comissária (o) de bordo. Entre todos os tipos de piloto e o cargo de mecânico, a diferença de gênero é brutal (veja abaixo).

 

 

Amanda, uma das poucas mecânicas do Brasil, atua como instrutora em uma escola de aviação de Ribeirão Preto desde 2013. Por ano, forma três turmas de 25 alunos: cerca de 375 estudantes desde que começou.

A primeira e única aluna mulher do curso de mecânica se matriculou neste ano.

– Uma das coisas que afasta as mulheres é saber que esse meio é ainda muito masculino. Há também a ideia de que a mulher não pode desenvolver tarefas que envolvam força.

Os uniformes que Amanda usa para trabalhar são feitos para homens. Ela é quem manda na costureira para fazer cintura, ajustar ao corpo. Diz que todos os dias passa maquiagem para ir ao trabalho.

– Eu insisto em ser feminina em um mundo muito masculino.

Quando ficou grávida da terceira filha – que chegou como total surpresa – precisou mandar fazer um macacão jeans.

– Já não tem mulheres na pista! Grávida ainda?

Trabalhou na manutenção até o sétimo mês de gestação. A pequena Helena já nasceu imitando as asas do avião no ar.

Aos 4 anos, faz planos para o futuro. Até dias atrás, Amanda conta, a filha dizia que queria ser mecânica de avião ou aeromoça, como a irmã mais velha.

A mãe fica com o coração apertado. Sabe bem o espinhoso caminho que sua pequena vai trilhar.

– Desde que o mundo é mundo, as pessoas ficam fascinadas com tudo o que voa. Elas não sabem como são difíceis os bastidores!

Amanda Pazemecxas mecânica aeronáutica Ribeirão PretoO primo foi o primeiro a desencorajar, quando Amanda pensou em fazer um curso de mecânica Diesel no Senai, em Ribeirão Preto.

Ela havia tentado cursar a faculdade de filosofia no período em que morou em Franca, mas não demorou a ter certeza de que não era o que gostava.

Se casou com um mecânico aeronáutico, vieram para Ribeirão e a vontade de saber o que tem dentro das coisas continuava.

O primo, que trabalhava no almoxarifado de uma mecânica, foi logo taxando: “De jeito nenhum! Mecânica Diesel é muito pesado!”.

Mas – ainda bem! – nem só de conceitos errados são feitos os homens.

Um senhor, que trabalhava com o marido dela como mecânico aeronáutico, se comoveu com o interesse da jovem mulher. E lhe presenteou com algumas apostilas.

Combustível para a vontade de Amanda decolar.

– Eu soube que tinha um curso de mecânica aeronáutica em Pirassununga (cidade localizada a 100 quilômetros de Ribeirão).

Com dois filhos pequenos, era mais fácil aprender a desmontar um motor do que conciliar o tempo. Mas ela já estava comprometida com seus quereres.

A mãe ajudou e a maratona, que começou em 2002, durou três anos e oito meses. Meio tempo em que Amanda se separou do marido e as coisas complicaram ainda mais.

Desempregada, com duas crianças, ela foi morar na casa da mãe, que ajudou a pagar o que restava do curso até ela conseguir um emprego. Não desmontou carro, mas trabalhou por bastante tempo no administrativo de um auto center.

A busca por um estágio na área de aeronáutica foi intensa desde o começo do curso. Não foram poucas as vezes em que um homem, com qualificação menor do que a dela, conseguia a vaga.

Acredita que mandou mais de 200 e-mails para uma das grandes empresas que, finalmente, lhe ofereceu uma oportunidade de estágio, não remunerado.

Trabalhava das 9h às 17h no auto center, fazia o estágio das 22h às 3h da madrugada no aeroporto e aos sábados ia para o curso em Pirassununga.

– Muitas coisas acontecem para fazer com que você desista. Dá vontade de desistir? Dá! Por isso, é preciso estar comprometido com o que você quer!

Um dia, chegou ao estágio e um homem, que era menos qualificado do que ela em termos de especializações, havia sido contratado para a vaga tão almejada.

– Por eu ser mulher? Não havia outra explicação! Já fazia anos que eu estava naquele sofrimento, me virando em mil para continuar.

Amanda foi vencida – parcialmente – pelo cansaço. Deixou o estágio, mas não o curso. Se formou mecânica, mas não sabia como se inserir no mercado.

Depois de oito meses da decisão de deixar o estágio, já em 2006, formada, recebeu uma ligação de outra grande empresa aérea.

– Me ofereceram uma vaga, mas o salário era metade do que eu ganhava no auto center. Eu não pensei: fui no mesmo dia!

 

Começou como auxiliar de mecânica. Mascarava as dores com remédios, mas não abria mão de fazer os mesmos trabalhos – e até mais – que seus companheiros homens.

– Eu chegava moída. Todos os meus músculos doíam. Mas eu não dizia que não iria fazer. Quando você está em uma área que as pessoas dizem não ser para você, precisa ser uma ótima profissional para ser considerada boa.

Mais uma vez, porém, a decepção chegou com tudo.

Depois de três anos de trabalho, Amanda soube que todos os auxiliares do grupo (que eram homens) haviam recebido aumento salarial. Menos ela.

– Eu fui conversar com meu chefe e ele disse que, então, me daria R$ 100 de aumento. Eu fiquei muito triste. E pedi as contas. Eu sabia que eu tinha meu valor. Não podemos deixar as pessoas nos diminuírem a ponto de nós mesmos pensarmos que não temos valor.

Antes de sair, ainda ouviu de um colega engenheiro: “Mas você vai encerrar sua carreira assim?”. A opinião dele, Amanda soube quase de imediato, estava completamente errada.

Uma grande empresa lhe telefonou no mesmo dia, com uma ótima proposta. Ela poderia, enfim, exercer a profissão para a qual era capacitada como técnica, e não mais auxiliar.

– Nessa empresa eu fui totalmente valorizada. Fui a primeira mulher mecânica nessa empresa e tive toda valorização do mundo.

A base de Ribeirão Preto ficava totalmente nas suas mãos. Tanto que Amanda ia duas vezes ao aeroporto, liberar os voos.

– Já aconteceu de as crianças ficaram doentes, eu levar ao médico, mas precisar interromper a consulta porque tinha que voltar para o aeroporto. Mas foi um momento de muita realização!

Ficou nessa empresa por três anos. E só saiu em 2012, quando os serviços em Ribeirão foram encerrados. Recebeu proposta de prosseguir em outra cidade, mas a mudança – sozinha com seus pequenos – seria enorme.

No mesmo dia em que deixou a empresa, foi contratada para a vaga que ocupa até hoje, há seis anos.

– A rotina é cansativa. Mas quando estou lá embaixo do avião, esqueço toda a canseira. Dizem que querosene de avião vicia. E é verdade.

Amanda Pazemecxas mecânica aeronáutica Ribeirão Preto História do DiaO trabalho de Amanda consiste em revisar todo o avião para que os passageiros voem em segurança. E realizar reparos que vão de pás quebradas, troca de pneus, acertos no motor a rasgos no estofado dos assentos.

Qualquer erro pode se tornar uma tragédia.

– Fico vendo as famílias se despedindo no saguão e aquilo me toca muito. As pessoas só querem ir e vir. Peço a Deus para que aguce os meus sentidos, porque tudo tem que ser perfeito. Não pode ser menos do que isso.

A aeronave que teve oito pás quebradas por um pássaro enorme é sua história de maior tensão. O avião já estava na cabeceira da pista, para decolar, quando o pássaro foi sugado pela turbina. O enorme barulho sinalizou que algo de muito errado havia acontecido.

Foram 21 horas de trabalho em equipe para que o reparo fosse feito. Amanda participou do início ao fim.

 – A empresa de aviação preza pela pontualidade. Mas a manutenção fica alheia a isso. Nós não queremos saber se o voo está atrasado. Nossa pergunta é: Está seguro?

A terceira gravidez de Amanda veio quando os dois primeiros filhos já estavam grandinhos, com 16 e 14 anos, e ela com 37.

– Eu pensava: como vou falar para o meu chefe? Tô perdida! Vão me colocar de canto!

Dessa vez – ainda bem! – não teve decepção. A chefia deixou Amanda trabalhar na pista com barrigão e tudo. Só parou aos sete meses porque o médico entendeu que a força física exigida pelo trabalho poderia complicar o finalzinho da gravidez.

Como tem sido desde que decidiu perseguir o sonho da mecânica, a rotina de Amanda – mãe, mulher, técnica – não tem respiros.

Há cerca de um ano, ela foi escalada para o horário da madrugada. Entra no aeroporto às 22h e sai quando já é dia.

– Tem noites que a Helena pede para eu não ir. Então, eu explico para ela que tenho que consertar a asinha do avião. E ela me diz como: tem que passar durex, depois cola bastão…

Amanda tem um dia de folga na semana toda. Não sabe o que é feriado.

Ainda assim, há um ano, encontrou fôlego para uma nova paixão. Faz sabonetes, hidratantes, cosméticos artesanais em um ateliê improvisado no quintal. Criou até marca e se alegra com as ótimas vendas.

– Eu tenho a sorte de fazer duas coisas que amo!

Vez que outra, sente falta de tempo. Tempo para a família. Para um jantar. Para curtir a primogênita, que vira a casa e a mãe do avesso.

Mas segue, porque sabe que ainda há muito o que conquistar.

 – Em todo o Brasil, não vejo mulheres ocupando cargo de chefia de manutenção. Será que nenhuma mulher é habilitada para isso? O mundo está mudando? Quantos anos mais vai levar para termos uma mulher ocupando esse cargo?

Assim, aos 41 anos, ela se sente realizada, mas sabe que ainda tem um tanto de coisas a realizar.

Algumas semanas atrás, foi chamada pela empresa para ajudar a escolher os croquis dos novos uniformes. Depois de 12 anos atuando como mecânica, ela – e as outras poucas funcionárias da empresa – terá uniformes feitos para mulheres.

A mudança é lenta. Mas Amanda é a contra-mola que resiste.

Segue ocupando seu espaço. Voando alto, como os aviões que coloca no ar.

 

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Comentários
  • Aline Solér
    Responder

    Amanda. Sempre guerreira, Batalhadora, mãe amiga e além de tudo mjnha inspiração. Tenho uma filha de 3 anos e sonho em chegar igual a Amanda. Sempre pensando positivo. Terminando meu curso de uma jornada muito sofrida e com muita garra. Mas nada nesse mundo fara com que desânimo. Amanda sou sua fã. E admiradora..
    Parabéns pelo seu dia. E espero a próxima data ser sua auxiliar…
    Att; Aline Solér..

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