Amigas se unem para resgatar história de escola Madre Mazzarello em livro

A internet possibilitou o primeiro reencontro.

Uma amiga encontrou o perfil das outras nas redes sociais e começaram a buscar mais conhecidas. Logo, eram em 100 mulheres no Face e mais 100 no Whatsapp.

Mas o on-line não mata a saudade tanto quanto um abraço. E surgiu a ideia de um “grande encontro” presencial, em agosto de 2016.

Naquele dia, foram tantas memórias resgatadas que um grupo de amigas quis ir além. Por que não escrever um livro sobre a escola que marcara tanto aquelas vidas?

Havia, ainda, um suspense para enredar a trama: O que teria levado o Patronato e Ginásio Industrial Madre Mazzarello de Ribeirão Preto, que chegou a acolher 650 alunos no Campos Elíseos, a fechar as portas?

Regina Maria Siqueira Pitta Marques se lembra da tristeza que sentiu quando o anúncio do fechamento chegou às famílias. Ela passou oito anos na escola. E foi quem, com a colaboração de oito amigas, ficou com a responsabilidade de resgatar essa história.

O caminho não foi fácil. Não havia registros sobre a instituição em lugar algum. Apenas pequenas menções em um ou outro documento público. Elas dizem que nem mesmo os historiadores da cidade tinham informações sobre a instituição.

Para piorar, as amigas não conseguiram acesso ao Arquivo Público de Ribeirão Preto, fechado nas três tentativas que fizeram. Foram, então, buscar informações em São Paulo, em uma das unidades de Inspetoria das Salesianas no Brasil.

Levantaram as certidões do local e colheram entrevistas com ex-professores, madres, ex-funcionários e, principalmente, ex-alunos da escola. Encontrar os ex-alunos não foi tão difícil, pela proximidade que as madres criavam, como conta Regina:

– Elas nos chamavam por nome e sobrenome. Não éramos mais um número na matrícula. Isso fez com que a gente se lembrasse dos nomes dos alunos.

Depois de um ano de produção, o livro “As senhoras que usavam modestino” saiu, recheado de fotos e de memórias. E será lançado no próximo dia 19, no prédio da antiga escola, onde hoje é o Moura Lacerda.

– Nós queremos que as pessoas saibam que nossa escola existiu e o quanto ela foi importante para todos nós!

É Regina quem diz, como porta-voz de toda a turma.

Patronato e Ginásio Industrial Madre Mazzarello de Ribeirão Preto

O Patronato e Ginásio Industrial Madre Mazzarello foi criado pelas irmãs Salesinas por volta de 1938, como descobriu a pesquisa feita por Regina e suas amigas, que foram alunas da escola na década de 60.

O nome patronato vem porque as madres abrigavam ali meninas que não tinham famílias ou vítimas de problemas familiares.

Regina, 63 anos, e Lúcia Helena Brochetto Gavaldão, 62, uma das colaboradoras, contam que na época o Campos Elíseos era um bairro de muitos comerciantes. E os filhos deles estudavam na escola.

O pagamento era social: cada família contribuía com a quantia que pudesse.

As duas estudaram no colégio por oito anos. E guardam com detalhes as festividades, as travessuras, o medo do professor de matemática – único homem no cenário feito de madres e alunas meninas – e, claro, a rigidez das coordenadoras.

– Mas, naquela época, era assim. As madres eram tão rígidas quanto os nossos pais, em casa. É um livro de costumes também.

As amigas vestiram a função de pesquisadoras e foram à fundo para descobrir sobre a fundação da escola, suas raízes e bases.

– Há conversas de que a Sinhá Junqueira fundou. Mas nós descobrimos que não é isso. Foram as irmãs. E a Sinhá deveria ser uma patronesse.

Lúcia foi escalada para entrevistar o professor de matemática e, como a menina de outrora, teve medo do que iria encontrar.

O motivo é uma travessura daquela época. As meninas ficavam apavoradas com a postura brava e imponente do professor: homem alto e sempre sério. E decidiram pregar-lhe uma peça.

– Eu perguntei para ele como estava a temperatura lá em cima. Que vergonha! Fui suspensa por um dia!

Hoje, porém, a vergonha foi revertida em boas risadas. Na entrevista com o temeroso professor, descobriram que o homem é, na verdade, bem-humorado e simpático.

– As irmãs pediam que ele tivesse aquela postura rígida!

Regina conta.

Patronato e Ginásio Industrial Madre Mazzarello de Ribeirão Preto

Buscaram falar também com as meninas que moravam na escola, pelo patronato. E colheram relatos de muita tristeza.

Nos corredores do colégio, havia histórias de todo tipo.

Como aquele da manhã em que as freiras precisavam de dinheiro para pagar algumas contas da instituição e pediram que as alunas rezassem fervorosamente.

– Logo depois, apareceu alguém para doar a quantia exata que elas precisavam!

Lúcia Helena relembra.

E as duas caem na risada contando do dia em que uma aluna, na efervescência da década de 60, pendurou um sutiã enorme no pátio. E das vezes em que as amigas invadiam o pomar para furtar frutas e saíam perseguidas pelo cachorro.

E invadir a clausura onde as madres dormiam, então? Era uma grande aventura!

– É a vida da gente! Estamos deixando algo para os nossos netos e filhos. Perpetuando a história que, se não fosse registrada, poderia morrer.

O livro é feito de memórias e lembranças. Como são feitas hoje as meninas de outrora.

Patronato e Ginásio Industrial Madre Mazzarello de Ribeirão Preto

Regina e Lúcia deixaram a escola, que já passava por muitos problemas financeiros, no final da década de 60. Em 1970, a instituição fechou as portas por não conseguir manter as contas.

– Nós queremos que as pessoas saibam que nossa escola existiu e tentou sobreviver.

Diz Lúcia Helena.

Ela se formou em Psicologia e atuou como professora, com jovens e adolescentes. Regina fez faculdade de Comunicação Social e trabalhou como professora de música. As duas acreditam que na escola aprenderam mais que a teoria das ciências.

– A maneira de encarar a vida foi o principal legado. Não é questão de religião, mas ali todas nós aprendemos a ter fé.

Nas palavras de Regina. Com complemento de Lúcia:

– Educação emocional: também aprendemos na escola.

Com o livro prontinho, Regina já nem se lembra das madrugadas em claro, escrevendo para não deixar dormir nenhuma boa ideia. O grupo de amigas continua forte nas redes sociais. Hoje, o espaço se tornou apoio, ela relata.

– Nós desabafamos, contamos problemas. Estamos com mais de 60 anos, os filhos criados, as casas mais vazias… Ali, temos umas às outras.

O encontro despretensioso na internet gerou – e continua a gerar – belos frutos.

– Nós tivemos que alinhavar a nossa história. Juntamos os retalhos e costuramos todos eles para fazer isso daqui.

O livro é o simbólico.

– Nós queremos é que a história seja compartilhada! Que as pessoas conheçam!

E o que são os tais modestinos que dão título à obra? Isso eu não conto. Está bem explicadinho na história que as amigas resgataram com tanto amor.

Boa leitura!

 

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Patronato e Ginásio Industrial Madre Mazzarello de Ribeirão Preto

Todos os 5 comentários
  • Lucia Helena
    Responder

    Agradecida, Daniela,
    estou emocionada só de ler???
    Um beijo para você ?
    Lucia Helena

  • Lucia Helena
    Responder

    Obrigada Daniela, ficou muito inspirador ?????

  • Maria Raquel Bo Sprioli de Rezende
    Responder

    Quando Vai ser a noite de autografo?Minha mãe estudou la

    • Lucia Helena B Gavaldao
      Responder

      Olá Raquel, como sua mãe se chama? Fiquei curiosa…o lançamento foi em 19 de maio no Moura Lacerda, mas se sua mãe tiver interesse no livro ligue para mim,
      Lucia Helena cel 16-98123-4158, ou por email:
      luciagavaldao@gmail.com. Um abraço Lucia Helena

  • Octavio Verri Filho
    Responder

    Muito interesse mais esta história e a cumprimento, Daniela Penha, por todos os conteúdos deste website. Parabéns!

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