Amizade com Sócrates fez mais forte a música de Bueno

A história de Bueno é dividida em antes, durante e depois de Sócrates.

A amizade entre o músico e o jogador de futebol marcou trajetória e hoje, imersa em saudade, embarga a voz. Que logo vira lágrima.

– Essa amizade mudou a minha vida.

Antes de Sócrates, Bueno já fazia música. Mas foi com o amigo que escreveu quase 60 composições.

Antes da amizade, a rotina era dividida entre o trabalho de policial rodoviário e a cantoria na lanchonete Ponto Chique, seu palco por 16 anos.

Com Sócrates, Bueno diz que “virou boêmio”. Espalhou sua música pelos bares da cidade, juntou plateia em shows, gravou CD.

Mudou de religião, conhecendo o espiritismo à convite do Magrão. Até votar em partido que não gostava, Bueno votou. Ufa: não precisou mudar de time, porque sempre foi corintiano.

O talento que Bueno sempre teve se somou ao empurrão de uma grande amizade, regada pelo espírito inquieto e cheio de ideias de Sócrates.

Aos 47 anos, a vida do músico ganhou mais melodia.

 – O resultado do nosso encontro foi a amizade mais linda do mundo. Eu rezo para ele todas as noites. E sinto que ele está sempre por perto.


 

A música se tornou parte de Bueno pelo som alto de uma casa invadindo a calçada na Vila Tibério.

Ele estava indo para a aula de violão clássico quando foi paralisado por aquele som.

– Fiquei parado do lado de fora, ouvindo aquela música que me encantou.

Foi saber que se tratava de Beatles e chegou na aula de violão trocando o clássico pelo rock´n roll.

Comprou uma guitarra e formou a banda The Jetsons, que durou de 1966 a 1969.

Quando os Beatles terminaram, o desânimo tomou conta e The Jetsons não via mais razão para continuar.

– Foi muito triste. Elegemos a Yoko Ono (namorada de John Lennon) como a grande culpada pelo fim dos Beatles.

Hoje, ele consegue rir do que na época não era brincadeira.

Terminado o sonho do rock´n roll, foi buscar outro caminho. Quando tinha entre 20 e 22 anos, entrou para a Polícia Militar Rodoviária, carreira que só terminou com a aposentadoria.

O violão ficou como hobby. Trocou o rock pelo samba e começou a tocar na lanchonete Ponto Chique.

– Foi volta de 1994 que aconteceu o encontro que mudou a minha vida.

Cantor Bueno homenagem ao jogador Sócrates Ribeirão Preto

Era uma noite como todas as outras. Bueno tocava o seu violão na lanchonete quando Sócrates entrou pela porta.

– Imagine você: eu era fã e ele chega no bar onde eu estava tocando!

Passaram a noite fazendo música e no final o jogador questionou: ‘Se eu precisar de um músico, você vai? Você leva o violão?’.

Bueno respondeu que sim, mas foi para casa achando que a ligação do Magrão jamais iria acontecer.

Se enganou.

No dia seguinte, foi escalado para tocar na companhia do ídolo corintiano e, então, a rotina casa-polícia-lanchonete acabou.

– Eu virei um boêmio! Saíamos quase todo dia. Ele era solteiro e adorava a noite.

Pouco depois do encontro, Bueno se aposentou da polícia e pôde, então, dedicar todo tempo à amizade regada à música e boêmia.

Com o apoio de Sócrates, lançou o show “Bueno canta grandes nomes da MPB”, com três apresentações ao ano e lotação de público.

Em 1999, lançaram o CD “Sócrates, Bueno e convidados”, com 10  mil exemplares entregues à amigos e colecionadores do astro.

Na companhia de Sócrates, Bueno jogou futebol com Chico Buarque. Não só uma, mas três vezes. Almoçou com Paulinho da Viola, ouviu as histórias de Toquinho.

Não fosse tudo isso, a presença do seu grande amigo já teria valido a pena.

– Ele era um ser humano de extrema grandeza.

Conta da vez em que foram fazer fotos para o CD e depois da sessão Sócrates passou horas atendendo os corintianos que se aglomeraram em frente ao estúdio.

Da volta para casa depois da bebedeira, com Sócrates na direção. O jogador parava em todos os sinais verdes. Bueno questionou: ‘Mas tá verde, Sócrates!”. Ao que o amigo explicou: “Meu pai me ensinou que os bêbados andam de madrugada e passam no vermelho”.

A gargalhada desse dia dura ainda hoje. Assim como a aflição do dia em que Sócrates foi internado e ligou para Bueno pedindo que ele levasse os jornais diários.

– Todos os dias, eu ia para o hospital ficar com ele. Foi muito gratificante poder ajudar.

Sócrates era apaixonado por música. Bueno, em si, era música.

– Eu achava que não ia acabar nunca. Vivi um sonho.

Cantor Bueno homenagem ao jogador Sócrates Ribeirão Preto

A última vez em que Bueno e Sócrates se falaram foi três meses antes de o amigo “ir embora”, como Bueno se refere à morte.

Sócrates ligou pedindo que Bueno fizesse um pote de gengibre em conserva. Anos antes, ele havia provado a delícia na casa do músico e, de tanto gosto, devorara um pote inteiro.

Sócrates prometeu que buscaria o pote. Nessa época, casado, ele estava morando em São Paulo. Fazia três anos que os amigos não se viam.

Bueno preparou logo o pedido, na esperança de matar a saudade.

– Não deu tempo. O pote ficou aí…

Não é só nessa hora que a voz embargada vira lágrima. Bueno é todo emoção. Mais ainda quando fala de quem foi embora.

Sócrates morreu em 2011. Bueno e sua esposa ainda se recuperavam do que tinha sido a pior perda da vida.

Viu o filho, maestro dos seus shows, o “melhor pianista que conheceu”, “ir embora”, em um acidente de carro, em 2005.

Hoje, já sabendo lidar com a dor, consegue definir o “ir embora” que levou gente querida.

– Eles vão para outro plano. Estão sempre perto da gente. Foi um prazer ter vivido tudo isso. Tanto com meu filho, quanto com Sócrates, ganhei presentes de Deus.

Cantor Bueno homenagem ao jogador Sócrates Ribeirão Preto

Bueno, 69 anos, continua fazendo a música que tanto ama.

– A música é o caminho mais curto entre o céu e a terra.

Compor é a parte que toma a maior parte do seu coração. O estúdio de gravação, onde transforma as músicas que compõe em realidade, é o lugar preferido.

– Meu sonho é ser reconhecido como compositor. Quem sabe ainda vai acontecer!

Toca a música que fez para o netinho pequeno e que fala da sala que vira quintal, das tardes derrotando monstros, de amor.

Toca a música que fez para o neto adolescente, que fala de avô que sente saudade do menino que cresceu, do tempo, de amor.

– Toda música tem um motivo. Outro dia eu acordei, tinha um sol lindo e eu escrevi sobre isso: eu posso ver o sol nascer!

Vez em quando, acha uma letra que fez com o Sócrates e ficou perdida entre uma recordação e outra.

Guarda na mesma sala o quadro que pintou para o amigo e as lembranças do filho. Sente que os dois estão sempre por ali.

A história de Bueno é dividida em antes, durante e depois de Sócrates.

– Quando eu ia pensar na minha vida que eu seria amigo do Sócrates?

Hoje, vivendo depois de tão forte amizade, ele só agradece.

 

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