Aos 67 anos, João acredita em um grande sonho

João tira uma gaita do bolso e depois outras duas. Guarda os instrumentos sempre consigo, no bolso da calça. Quer estar pronto quando chegar o dia de realizar o grande sonho. Depois de 67 anos de luta dolorosa, não perdeu a capacidade de acreditar.

– Nunca ninguém me enxergou, mas um dia eu chego lá. Se Deus quiser.

Difícil é tirar conversa de João Rosa dos Santos, chamado de Tetê da Gaita em São José da Tapera, Alagoas, sua terra.

– Eu gosto mesmo é de tocar!

Ele explica, entre uma canção e outra.

Sentado em um banco do Calçadão de Ribeirão Preto, viaja nos acordes de boleros, forró e Gonzaga. Quando troca a gaita pela conversa, faz brilhar cada palavra.

– Eu espero tudo de bom para mim. Nada de ruim. Porque de sofrimento eu já venho.

João, aos 67 anos, sonha em gravar um CD profissional e, enfim, ser visto.

– Eu nunca deixei a gaita. Tem vez que durmo com ela na cabeceira.

O amor da vida de João começou na infância. Com seis anos a avó deu uma gaita de plástico e o menino saiu a tocar, sem qualquer aula.

A família não tinha dinheiro nem para comer. João conta que por tantas vezes almoçou farinha, água e sal. A gaita, assim, era a mais barata do mercado e a boca ficava cheia de cortes.

  – Minha boca sangrava e eu quebrava a gaita com uma pedra. Mas depois pedia a minha avó que me desse outra.

Foi assim até a matriarca juntar dinheiro para comprar uma gaita de madeira. A boca nunca mais sangrou e o instrumento tocou até despedaçar pelo tempo.

Na sua cidade, João conta que gravou três CDs de maneira independente, estúdio improvisado. Toda semana, toca num programa de rádio. No interior de Alagoas, cidade de 32,4 mil habitantes, o músico é conhecido.

Sonha com mais, porém. Levar o seu som Brasil afora. Quer compartilhar o pouco que a vida trouxe de bom.

Nasceu no Alagoas, foi criado pela mãe e só conheceu o pai aos 18 anos. A mãe doou uma filha ainda bebê, porque não tinha condições de alimentar mais uma boca. João passou a vida a procurar pela irmã perdida.

– Ser criança como eu fui, para sofrer o que eu sofri? Não desejo isso, não.

Se casou e teve oito filhos – continuando a luta.

  – Rapaz, só Deus sabe o que eu sofri para criar todos eles, trabalhando de servente, pedreiro, do que fosse.

João fala todo orgulhoso que conseguiu encaminhar toda a prole. Os filhos estão espalhados Brasil afora. Alguns, em Ribeirão Preto. Motivo de sua visita e da cantoria no banco do Calçadão.

Amanhã, João está de partida para Alagoas. Jura para a filha que volta. Quem sabe para gravar o sonhado CD?

É um homem marcado pela vida. Traz no rosto o sofrimento, que também é marca de sol. Entre toda a dureza de fora, conservou o interior. Se emociona mais de uma vez durante a conversa e não segura o choro.

– Eu dei aos meus filhos tudo o que eu não tive: carinho, atenção, amor. Eu tô achando que quando eu morrer não vou para o inferno, não. Sempre fiz só o bem.

Toca Asa Branca, a pedido da filha. E na mente a gente canta a letra. “Eu perguntei a Deus do céu, ai, por que tamanha judiação?”. Mas João segue firme, está mais atento ao verso que fala da chuva que há de cair de novo, trazendo vida ao sertão.

 – Tem que receber tudo que Deus der à gente de coração: tristeza, alegria, sofrimento. Quando chega a tempestade pode esperar que a bondade vem logo atrás.

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