As vitórias de Lais Souza

Lais Souza ganhou o mundo rodopiando pelos ares entre uma barra e outra, um salto de tirar suspiros, dois giros de levitar.

Foram duas décadas de uma carreira que começou menina. Quando tinha de três para quatro anos, pediu para a mãe o teste de admissão na ginástica artística.

Começou a treinar na Cava do Bosque e, até os 25 anos, não parou.

Conquistou medalhas, competiu em duas Olimpíadas, encantou um Brasil que torcia pelas “suas meninas”.

Tudo o que se lembra do acidente é que virou para trás e disse que a amiga descesse devagar. Treinava para competir nos Jogos de Inverno. Não se lembra da dor.

No hospital, pediu que a mãe lhe desse o celular. Não conseguiu segurar o aparelho uma, duas vezes. Soube que havia perdido os movimentos do pescoço para baixo, por uma lesão na coluna.

Lais Souza continua a ganhar o mundo. Redefiniu, porém, os sentidos de vitória.

A fisioterapia tem música de fundo. Sertanejo, funk com direito a Pablo Vittar e Anitta. Lais cantarola o tempo todo. Distribuiu e arrancas risadas.

De mim, foi a primeira coisa que arrancou, já nas boas vindas: “Pode chegar perto que eu não mordo”, disse, quebrando meu gelo.

Ela só ficou sentada nos últimos 10 minutos da nossa conversa. Passou quase duas horas de pé, se equilibrando com o apoio da órtese.

Já consegue fazer movimentos com os ombros e o tronco e, a cada quando, posta um vídeo nas redes sociais com mais algum progresso.

Acredita que vai, sim, continuar a progredir. Pequenos movimentos representam grandes saltos para a ginasta.

– Eu quero retomar 100% dos movimentos. Mas se eu ganhasse qualquer movimento de volta, já ficaria muito feliz.

Continua ganhando o mundo. O seu mundo, que é feito de conquistas diárias e – muita – força. Talvez, uma força maior do que toda aquela que somava nas sete horas de treino diário como ginasta.

A ribeirão-pretana está de volta ao lar.

Laís Souza ginasta - História do Dia

Com 10 anos, Lais saiu de casa – e de Ribeirão – para ser ginasta. Aos 12, conquistou vaga na Seleção Brasileira de Ginástica Olímpica. Aos 15 competiu nos Jogos Olímpicos de Athenas e quatro anos depois estava em Pequim.

– Depois que eu entrei na seleção, passei a ver a ginástica realmente como trabalho. Eu ficava muito focada em cada campeonato que vinha. Competia e, no próximo, queria estar melhor.

A rotina era feita de foco.

– Já sou competitiva. Quando consegui chegar nos Jogos Olímpicos, fiquei mais ainda.

Chegou a competir com fratura no pé e, em 2012, foi cortada das Olimpíadas de Londres por uma fratura na mão.

Os dias eram de treino praticamente em tempo integral. Tirava uma brecha para ir a shows, apaixonada por música que é. Tatuou uma clave de sol no dedo da mão.

Conta que foi na sua primeira chopada universitária recentemente, apesar de já ter feito faculdade de Educação Física.

A vida de ginasta não permitia certas coisas que, hoje, Lais pode fazer.

– Na ginástica, nosso pecado era comer. Pensando por esse lado, hoje eu tô melhor.

Mais uma vez, me arranca risadas.

Laís Souza ginasta - História do Dia

Lais passou dois dias em coma induzido depois do acidente, seis meses na UTI e mais seis meses indo e voltando de casa para o hospital, em Miami, todos os dias.

– Revolta? Não. Não houve revolta. Era difícil entender e engolir. Mas foi acontecendo com o tempo.

Nesse período, tomou a decisão de buscar, sempre, entender.

– Eu precisava entender essa nova Lais. A Lais de antes era 100% movimentos. A Lais de agora é zero movimentos. Eu tive que trabalhar muito o psicológico para entender essa nova Lais e me adaptar.

A menina que saiu de casa aos 10 anos precisou voltar.

– Sempre fui muito independente. Colocar fralda, depender da minha mãe: depois do acidente, a sensação é de que voltei a ser criança. Mas criança com problemas de adulto.

Vem reconquistando a liberdade. E diz que, ter cuidadores, é uma forma de reconquista.

– Mãe quer cuidar demais! Os meninos me dão liberdade.

Durante o dia, ela tem a companhia um cuidador à noite de outro, que ela tem uma lista de apelidos carinhosos – e nem tanto – para chamar. E que ganham lugar de amigos.

São eles que, todos os dias, tiram Lais da cama, escovam seus dentes, dão o banho, arrumam o cabelo, passam maquiagem, fazem o que ela sempre fez questão de fazer.

Durante as fotos para a entrevista, Willian dá pitacos: “Solta o cabelo! Fica melhor” e passa a escova nos fios soltos da ginasta.

– A vaidade continua igual. Mulher, né? Mulher é vaidosa. Eu não faço do meu jeito, mas eu faço as pessoas fazerem. A pior parte é o cabelo! Homem não sabe arrumar o cabelo!

Esse bom-humor, ela diz, é herança de família.

Laís Souza ginasta - História do Dia

No começo do ano, Lais começou a dar palestras Brasil afora.

– Eu nem sabia que um dia iria dar certo, porque eu acho que eu falo muito mal. Mas deu!

Procura, porém, não passar muitos dias fora. Estudando Psicologia em uma faculdade de Ribeirão, não pode perder as aulas e as sessões de fisioterapia, quatro vezes por semana.

Conta que na faculdade fez amigos. Aqueles que a levaram na sua primeira chopada. Sobre relacionamentos, explica que parece “não ter espaço” no momento, mas que também não está fechada.

Acredita em Deus.

– É bom ter alguma coisa para se agarrar. Deus é uma energia tão grande, tem tantos anos que Ele vem sendo falado, que não tem como não acreditar.

Não culpa nem a Ele nem a ninguém pelo seu acidente.

– Só acho que tinha que acontecer. Dizem que não cai uma folha da árvore sem que tenha uma razão… não me culpo e nem a ninguém. Já é difícil. Se eu ficar dificultando mais, vai ser pior.

Quer voltar para o esporte e já pesquisou sobre a bocha adaptada. Pensa em atuar como psicóloga e abrir uma instituição para pessoas com deficiência.

– Não há recursos públicos e também vejo muita coisa errada na forma de cuidar. A experiência que tenho é pouca, mas tenho vontade de passar para frente.

Tem um carinho grande pela Ribeirão que a recebe de braços apertos.

Mas continua, da sua forma, a voar. Somando novas vitórias e aprendendo novas formas de saltar. Lais continua ganhando o mundo.

 

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Comentários
  • Rodrigo Viudes
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    Belo texto, como de costume. E que bom testemunhar esse renovo na vida de Laís. Ela ainda vai voar longe!

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