‘Biblioteca’ de Verri tem mais de dois mil livros com a história de 135 cidades da região

– Olha, filha, esse é o livro mais caro dessa coleção. Não pelo livro em si. Mas pelas circunstâncias!

A recomendação do médico foi clara: sem dirigir depois da cirurgia de catarata. Verri até avisou aos amigos vendedores que fez pelos sebos de Ribeirão Preto que estaria afastado por uns dias. Mas quando a ligação veio, por volta das 16h daquela tarde, não conseguiu resistir.

Do outro lado da linha, o vendedor avisava: “Dr. Verri, chegou um livro aqui que o senhor vai gostar muito! Precisa vir buscar!”.

Era um bom motivo para arriscar? Ele entendeu que sim.

Pegou a chave do carro, se posicionou em frente ao volante e… POOOOF.

Na primeira ré entrou em cheio no veículo que estava estacionado na rua em frente à garagem. Que confusão! Era vizinho de um lado, dona do carro de outro dizendo que precisava do transporte para trabalhar.

A frase lá do começo passa, então, a fazer sentido. Entre o conserto do carro, o aluguel de um veículo provisório para a moça e, claro, a compra do livro a conta ficou em cerca de R$ 2 mil.

Ali, em meio à confusão da batida, a maior preocupação do colecionador, no entanto, era chegar, enfim, ao seu destino.

– Eu dizia: ‘Olha, nós podemos resolver tudo isso, mas primeiro eu preciso buscar o livro!’

Hoje, já passado o susto, com o livro bem seguro em sua biblioteca, ele folheia as páginas e, ainda encantado, vai mostrando as “iluminuras” feitas pela integrante da família Botelho.

– Eu não vendo esse acervo por dinheiro nenhum. Não adianta você me oferecer nada!

Ratifica o que nem precisaria ser ratificado.

Há 40 anos, Octávio Verri Filho preserva a história de cidades e famílias em livros. O acervo tem cerca de dois mil exemplares, com 135 cidades do interior de São Paulo.

Além da coleção “oficial”, ele ainda guarda livros sobre cidades de todo Brasil, que fogem da região colecionada, mas são também ricos em histórias.

Todo o acervo é catalogado e Verri ainda coloca as sinopses das obras em uma plataforma online que criou: www.plataformaverri.com.br.

É ele quem faz todos os resumos, depois de ler os livros. Conta que levou seis anos para conseguir colocar a plataforma no ar. Aos finais de semana, acordava às 4h da madrugada e só parava por volta das 23h, incansável em seu trabalho de escrever as sinopses e catalogar online.

Já encontrou em Portugal um almanaque sobre a história de Ribeirão Bonito. Mais uma vez, os amigos vendedores é que alertaram.

O vendedor de São Paulo ligou falando sobre a obra rara que encontrara em um sebo do outro lado do oceano, mas não tinha recursos para mandar trazer.

Verri não pensou meia vez. Comprou o livro pela internet e, com a obra em mãos, investigou a história para descobrir como o exemplar publicado em 1907 fora parar tão longe!

– Somos seres racionais. Se você pensar bem, percebe que, na verdade, somos absolutamente nada. Mas, se você tem o fio de sua história, de sua gente, percebe que há uma origem. A sua história é muito mais complexa do que o agora.

Na história de Verri, então, se entrelaçam outras tantas e tantas histórias que ele tem passado as últimas quatro décadas a preservar.

– A minha história? Eu não me arrependo de ter feito absolutamente nada.

Octávio Verri Filho Plataforma Verri Ribeirão Preto História do Dia

A história que Verri conta vai além dos seus 72 anos. Começa lá atrás, quando a família veio da Itália por volta de 1896.

– Tem mais de mil anos! É a história da Itália. Eu sinto que tenho uma origem!

Ele nasceu em Sertãozinho. O pai era comerciante de cereais e a mãe professora. Tiveram cinco filhos.

Octávio diz que era um tanto aéreo com as questões da escola. A família optou por colocá-lo em um colégio interno em Campinas por três anos, já próximo de terminar o colegial.

– Lá a rotina era estudar, estudar, fazer o lanche, rezar, dormir. Eu me foquei.

De volta à Sertãozinho, concluiu o ginásio clássico, como se dividiam as áreas então. E passou em Direito na São Francisco, São Paulo (USP).

Quando prestou o concurso do Ministério Público, em 1973, diz que concorreu com cerca de dois mil candidatos.

– Era a época do milagre brasileiro. Todos os profissionais ganhavam bem, eram valorizados. Ninguém pensava em ser juiz, promotor. Hoje, o número de candidatos em um concurso chega a 20 mil.

Se casou em 1976, com a mulher com quem ainda hoje divide a vida e as aventuras. Se conheceram um barzinho de Ribeirão. Dos três filhos, dois seguiram o Direito do pai.

Começou a colecionar histórias quando atuava na promotoria de Cajuru. Decidiu abrir um jornal quinzenal. Fazia as fotos, colhia os fatos e trazia para imprimir em Ribeirão Preto.

– Eu viajava no final de semana para visitar minha mãe em Sertãozinho e, quando chegava em Cajuru, minha porta estava cheia de bilhetes, fotos de aniversários, de famílias para publicar no jornal.

Montar um jornal, em uma época de pouca tecnologia, era um trabalho árduo e complexo. As fotos eram impressas minuciosamente, utilizando um recurso na madeira.

– Você nem acredita o que era isso!

Chegou a ter 500 assinantes, durante os quatro anos de tiragem. Quando a cidade completou 113 anos, decidiu montar um livro de histórias. Para se inspirar, buscou livros de municípios que tinham feito o mesmo: Patrocínio Paulista, São Simão.

Começava ali, entre 1977 e 1978, sua paixão por colecionar as histórias da região.

– Não parei mais. Comecei a buscar esse tipo de trabalho: teses acadêmicas, memórias, arquitetura, história das famílias, revistas das cidades, biografias, etnias.

Octávio Verri Filho Plataforma Verri Ribeirão Preto História do Dia

Vinte anos depois, aposentado, ele fazia sua primeira exposição em Franca, já com 400 livros no acervo.

A ideia da plataforma surgiu atuando como professor na Unaerp. Compartilhou ensinamentos com os universitários por 14 anos, depois que se aposentou em 1997.

O site ficou pronto em 2006. Mas era preciso abastecer, catalogar os livros – cerca de mil nessa época – com sinopses e informações.

Lançou sua grande obra de reunir todas as obras em 2012, na Feira do Livro de Ribeirão Preto. Pouco depois, criou um Facebook pessoal por onde compartilha quase que diariamente trechos das histórias de Ribeirão e região. No dia da entrevista, 18 de julho, comemorou:

– Hoje atingimos um milhão e 70 mil acessos na plataforma! Colecionar se transforma em uma cachaça. Não tem como parar!

O melhor de todo esse percurso, ele diz, são as relações que nascem e são nutridas pelo mesmo querer.

– O interessante é o contato que se estabelece com pessoas que pensam como você, pessoas quem tem objetivos do bem. Eu lido com pessoas que não pensam só em si mesmas. Pensam para os outros!

Verri conta que chegava a passar uma semana em São Paulo, visitando sebos em busca de livros. Com a internet, os exemplares ficaram mais caros, mas o acesso ficou mais fácil. Ele perde a soma dos estados onde comprou obras. Faz amigos vendedores por todo lado.

Não tem nem ideia do quanto já investiu no seu acervo. Certamente, uma porção de milhares de reais. Como já contou lá no começo, não mede esforços – e confusões – para ter nas mãos uma bela história!

Octávio Verri Filho Plataforma Verri Ribeirão Preto História do Dia

Na ânsia de conhecer as histórias do mundo, ele está sempre a inventar.

Comandou um grupo de cavalaria quando atuava como promotor. Saíam a conhecer e fotografar as belezas da região: Cássia dos Coqueiros, Altinópolis, tudo registrado.

Já morando – e atuando – em Ribeirão Preto, fez o “Caminho da fé” a pé: 22 dias de Tambaú até Aparecida do Norte. Naquela época, a internet não estava ao alcance de um clique na tela do celular. Ele, então, procurava lan houses em cada cidade por onde passava para abastecer o blog que escreveu sobre a jornada.

Gostou tanto de andar que montou o grupo “Peregrinos RP”. Chegaram até Minas caminhando, em quatro anos de atividades. Saíam sempre aos finais de semana.

– Eu me diverti um bocado, viu? Não posso reclamar na vida, não!

As cinco viagens que fez para a Europa tiveram o mesmo ritmo do conhecer.

Na mais recente delas, em abril deste ano, dirigiu 3.347 quilômetros pela Itália.

Cada viagem gera um relatório. A esposa leva uma agenda e cola os tickets e comprovantes de cada lugar por onde o casal passa. Quando voltam para casa, escrevem um “diário” de bordo.

– Eu posso reclamar da vida? Não posso! Tive condições de ser e fazer o que eu quis. Eu só gostaria que todos tivessem as mesmas oportunidades. Infelizmente, não é o que temos.

A primeira netinha de Octávio nasceu há pouco mais de um mês.

Curtindo o papel de avô, ele se preocupa, porém:

– Eu vou pegar só a parte boa da vida dela. Como será quando ela estiver com 17 anos? É nessa idade que as coisas ficam difíceis.

Conta que sofreu um infarto um ano e meio atrás.

– Eu quase fui embora. A morte é a coisa mais simples. Você não acredita como se morre fácil. Isso nos faz dar mais valor à vida.

Entre as preocupações do amanhã, sua biblioteca é uma das grandes.

Sonha em ver o acervo compartilhado e, claro, cuidado. Quem sabe digitalizar todas as obras. E ter os livros físicos acolhidos por uma boa biblioteca municipal.

Não pode parar aí, porém.

– Esse trabalho tem que continuar. Mas quem vai fazer isso? Não quero que esse acervo se dissolva.

Montou o “plano perfeito”. Levaria seus livros para a biblioteca da USP, com o compromisso de continuar cuidando do acervo enquanto viver. Diz que a Universidade não aceitou sua proposta, porém. E se entristece.

– Você quer saber a história da região? Está aqui! Por isso eu não quero que se perca.

Ele, que acredita na história além de uma só existência, não quer pôr fim a sua trajetória. Não quer pôr fim às outras tantas trajetórias que conseguiu entrelaçar.

Segue, então, pensando em soluções. E fazendo o acervo crescer.

Naquela semana, já havia comprado quatro livros que aguardavam leitura e sinopse.

A história – Verri brada! – não pode parar!

 

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Todos os 2 comentários
  • Sandro Lodi Rizzini
    Responder

    No mês de maio, aqui na Itália, em Verona, tive o prazer de me encontrar com Octávio, sua esposa e amigos! Conversamos muito sobre Ribeirão e de alguns amigos comuns (eu saí de Ribeirão para Itália em 1970) !!!!
    Na ocasião tive grande prazer de homenagear Octávio com um livro especial “CEM ANOS DE RIBEIRÃO PRETO- 1956 Primeiro Centenário da Cidade
    Um abraço a todos os Ribeirãopretanos!

  • Octavio Verri Filho
    Responder

    DANIELA: Eu abri o coração, você deu alma às minhas confissões. Que texto maravilhoso. Aos seus registros, nenhum reparo há de se fazer. As palavras fluem fáceis. OBRIGADO.

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