Caburé: o boêmio de Ribeirão Preto

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 30 de janeiro de 2018! 

 

Atendendo ao meu pedido, Caburé define o que é um boêmio.

– O boêmio, eu vou te falar: ele está sempre com mulher, mas não é mulherengo. Gosta de estar no meio delas, mas não é de briga, todas respeitam, gostam dele. Normalmente, ele dança bem. Gosta mais do dia do que da noite. Por isso eu sou o Caburé.

O faz com base na própria vida.

Dizem por aí que ele é o último boêmio de Ribeirão Preto.

– Sou mesmo, porque acabou. Morreu todo mundo. Só ficou eu.

Carrega a história de boemia com orgulho no pingente de clave de sol que leva no pescoço, no anel com o mesmo símbolo, chapeuzinho na cabeça, copo de cerveja cheio na mesa.

Era sem álcool. Hoje, aos 70 anos, a saúde exige escolhas. Garante, porém, que tem livre arbítrio.

– Se eu quiser tomar, eu posso. Posso tomar um copinho de vinho, de cerveja. Mas se eu fosse tocar e cantar, eu tomava. Sem música, eu não tomo.

De fato, quando sentou-se para cantar com os músicos atendendo ao pedido para uma “canja”, pediu uma taça de vinho seco, como se esquecesse dos rins paralisados pela diabetes, dos dedos machucados que o impedem de tocar, dos olhos que quase já não veem, do tempo que passou.

Cantou cinco ou seis músicas: boleros, samba, samba canção.

Tomou só um gole da taça.

Quando acabou a cantoria, já depois de duas horas e meia de entrevista, tomou um táxi e foi para casa.

– A voz não tá muito boa para cantar. E o dedo não me deixa tocar. Mas eu vou voltar, muchacha. Vou ficar bom.

João Bosco de Queiroz Caburé Ribeirão Preto - História do Dia

Caburé, ele explica, é nome de uma coruja que dorme durante e dia e sai na noite para caçar.

João Bosco de Queiroz ganhou o apelido ainda menino. Tão cedo quanto ganhou as cordas do violão.

Nasceu em Cuiabá, filho de pai barbeiro, mãe dona de casa e caçula de 10 irmãos.

O pai dividia os turnos entre a barbearia e o clube que abriu na própria casa.

No Clube dos Queiroz tinha baile todo dia, com música feita pelos irmãos de Caburé.

Não foi, então, de causar estranhamento quando ele passou a mão no pandeiro, com cinco anos, e começou a tocar.

No aniversário de seis, ganhou um relógio de ouro do padrinho. Nem chegou a colocar no braço. A joia que queria era outra. Trocou o presente por um cavaco banjo e passou a fazer parte, de vez, dos bailes da família.

Os irmãos colocavam um banquinho para crescer o pequeno músico. Quando Caburé ficava com sono, os maiores lhe davam doses de Cinzano, bebida feita de vinho, ervas e especiarias.

Com oito anos, ele passou a acompanhar calouros na rádio “A voz do Oeste”, no Mato Grosso. E aos 10 veio morar em Ribeirão Preto.

Não foi por vontade própria, como conta. A irmã se casou e veio primeiro. O pai partiu para visitá-la.

– Minha mãe, para não deixar ele vir sozinho, falou: ‘O João Bosco vai junto’.

Quando chegou aqui, o pequeno Caburé chamou a atenção do cunhado pelo jeito comunicativo e esperto de ser.

Ele tinha uma banca na feira e precisava de um ajudante nas vendas. Foi nessa época que Caburé deixou a escola.

– Eu era menino vivo. Meu pai me largou aqui e foi embora. Para me agradar, me comprou uma bicicleta. Ninguém tinha. Só quem tinha bicicleta no Jardim Paulista era eu.

Estava em cima da bicicleta quando, meses depois, ouviu o som de violão.

– Era na rua Cesário Mota com a Henrique Dumont. Tinha um bar, seu Geraldo. E um velho tocando violão. “Abismo de rosas”, ele acabava de tocar. E todo mundo batia palmas.

A memória conserva cada detalha da sua boemia. Cada nota do violão.

Desceu da bicicleta e pediu para tocar uma música.

– O cara era polícia e respondeu: ‘Vai dormir, menino’. Mas o Geraldo falou: ‘Deixa o menino’.

Com o violão no colo, lembrou da bebida que lhe fazia acordar.

– Então, me dá um Cinzano.

E arrancou risos dos grandalhões. Solou uma guarânia e conquistou o bar inteiro.

No outro, dia voltou para mais. E no outro também. E no próximo.

 – Foi aí que eles começaram a me chamar de Caburé. Eu gosto da noite. Sempre gostei.

Nascia ali o tal boêmio.

 

O boêmio é um cara de histórias: Caburé faz perceber. Avisa, porém, que muitas delas não são publicáveis.

– Essas são as melhores!

Diz uma amiga que está na mesa.

Ele escolheu o Bar do Chorinho como palco da entrevista. Domingo, às 12h, com roda de choro como trilha sonora.

– Esse choro é meu! Chama Saudade do Caburé.

Diz quando ouve a música de composição sua que os músicos tocam. Se emociona. E deixa as lágrimas caírem. Não uma única vez, mas várias ao longo da conversa.

– Eu choro de alegria. É a música. Eu cantava e chorava.

Ainda era adolescente quando montou seu primeiro conjunto, The Rebs. Depois dele, integrou o Capri, com amigos que fez na música, e não parou mais.

Conta que, com 18 anos, tirou carta de motorista e passou a viajar para as cidades da região vendendo cigarro, quando não estava tocando com as bandas.

Em uma das primeiras paradas, entrou em um buteco e viu um violão empoeirado pregado na parede: “Posso tocar uma música?”, era sempre o convite.

Passou a tarde por ali. E, quando o dia acabou, pensou que iria embora sem vender um só cigarro.

– O dono me comprou quase o estoque inteiro!

A partir daquele dia, não saía de viagem sem o violão na bagagem. Passou a carregar o companheiro dia e noite.

– Eu só não toquei em velório, filha.

Diz, e vai listando os grandes nomes da música que já acompanhou: Roberto Carlos, Jamelão, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Sílvio Caldas.

No começo da década de 80, sob regime militar, tocou para o então presidente João Figueiredo.

Para contar essa história, porém, é preciso dizer que, no período em que não estava na música, Caburé atuava como policial. Entrou na polícia em 29 de abril de 1970, aos 23 anos, de acordo com a memória intacta.

Como seus acordes eram queridos até no quartel, pegava serviços diurnos, que não atrapalhavam as serenatas noturnas.

Quando o presidente esteve em Ribeirão, então, a chefia não hesitou. Mandou buscar Caburé, que trabalhava na escolta, e pediu que se preparasse.

– Parou a viatura e eles disseram: ‘Monta aqui, cabloco’.

Figueiredo pediu “Chão de Estrelas”, “As rosas não falam” e teve os pedidos atendidos com maestria. Gostou tanto que mandou Caburé tocar em Brasília.

– Eu nunca tinha andado de avião! Fiquei um dia lá e vim embora.

Ganhou uma das suas melhores histórias, cartão de visitas. “Você conhece o Caburé? Já tocou até para presidente!”, é o que dizem por aí.

Nessa época, ele já tinha trocado o Cinzano por Whisky.

João Bosco de Queiroz Caburé Ribeirão Preto - História do Dia

Conta também a história do homem rico que, encantado com sua música, lhe entregou um cheque. Na época, valia milhares de reais.

– Eu pensei: acabou a crise! Saí na rua distribuindo para os moradores de rua. Esse povo tá tudo na rua por mulher. Só que eu pensei que ia ganhar outro, mas não ganhei mais.

Cai na risada!

E das noites tocando na casa noturna da Albertina.

– Ela veio de Bauru, da Casa da Eny. Tinha muito rico em Ribeirão. Ela abriu uma casinha na Ribeirânia, onde é até hoje. Ganhei muito dinheiro.

Fala, em muitos momentos da conversa, do dinheiro que ganhou. E, logo em seguida, explica como perdeu.

– Eu tive muitas muchachas! Dinheiro é para gastar. Não é para ficar guardado. Mas tem que ganhar outro, né?

Caburé diz que teve três boates e perdeu as contas dos bares e casas noturnas que abriu – ou ajudou o proprietário a abrir – em Ribeirão.

A escolha do Bar do Chorinho para a entrevista é explicada aí.

– Aqui era uma mercearia. Surgiu o bar por minha causa. Cheguei aqui num sábado e pedi: posso tocar? Aí toquei. Voltei no outro sábado e fiquei aqui por 10 anos.

Reclama que hoje não tem mais boemia em Ribeirão.

– Tudo acaba, né? Foram os vizinhos… E hoje é muita bagunça. Não é mais aquelas músicas suaves que a gente fazia.

 

Caburé casou três vezes, duas delas com a mesma mulher.

Teve um casal de filhos e hoje mora em uma casa vizinha à da filha, que é quem cuida de tudo o que ele precisa, todos os dias.

– Ela não sai para trabalhar sem passar em casa.

Conta que, dois meses atrás, caiu no banheiro.

Faz uma pausa e pede que o garçom lhe traga um conhaque.

– É para o mestre Zé.

Mestre Zé, ele explica, já morreu. Era um boêmio como ele. E, na sua crença, foi em espírito alertar sua filha sobre o acidente.

– Ela estava em casa e o mestre Zé foi avisar: ‘Seu pai tá caído no banheiro. Não consegue levantar’. Minha filha conseguiu me salvar. Senão, eu tinha morrido. Ela é espírita. Eu não acreditava, mas passei a acreditar.

Durante a entrevista ele relembrou essa história duas vezes. A primeira logo que cheguei, aos amigos que dividiam a mesa. Concluiu dizendo que não tem medo de morrer.

Quando repetiu, falou de novo da morte. Dessa vez, porém, pareceu querer lhe mandar um recado.

– Eu não tenho pressa de morrer, não. Porque eu gosto de viver. Viver é bom.

Quando começou a falar dos problemas de saúde que tem enfrentado, Caburé parou logo no início. Não terminou a lista – que é extensa e lhe deixa debilitado até mesmo na fala.

– Pode parar, né? Não vou falar dessas coisas miúdas.

Emendou, logo aí, a frase que faz a sua boemia valer a pena.

– Mas sou feliz. Sabe por que? Fiz tudo o que eu queria fazer. Tudo na vida. Todo mundo me quer bem. O importante é isso. Não me arrependo de nada.

Quando pergunto se, algum dia, em toda essa vida de música, ele fez aula de violão, me responde que tocou com o “8º maior violinista do país” por 15 anos.

– Fui parceiro dele, saí no jornal.

Acontece que o parceiro – e professor – queria ensaiar mal o sol amanhecia.

– Me acordava oito horas da manhã para ensaiar! Tenha dó!

Caburé é coruja que gosta da noite.

No dia 15 de fevereiro, ele completa 71 anos. Como tem sido há anos, vai comemorar com festa em um tradicional buteco de Ribeirão.

O dono nem costuma abrir de domingo, mas pelo Caburé abre uma exceção.

Vai ter pernil, tutu de feijão, frango caipira, música, cerveja gelada.

– A vida? Ah, isso aqui é uma passagem. Você vê tanto cara chato, metido. Vai visitar um hospital para ele ver o que é bom para a tosse!

Caburé me convidou para a festa antes mesmo de começarmos a entrevista. E eu, já de pronto, respondi que não perco por nada.

A boêmia não tem Caburé de regresso. Mas vive em cada uma de suas palavras.

 

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