Carolina, aluna de mecânica, sonha em ter a própria oficina

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 29 de março de 2017!

 

Carolina, aos 23 anos, diz que gosta de quebrar tabus, ir por onde ninguém está indo. Aprendeu cedo a garantir seu espaço entre as limitações que o entorno insiste em colocar.

Negra, criada na periferia, mulher, ela é a única e primeira aluna entre 132 homens da Escola do Mecânico de Ribeirão Preto.

Há quatro meses, faz curso técnico de mecânica de moto. Quando acabar, quer cursar o de carros e continuar se especializando na área. Também planeja aprender a administrar um negócio, lidar com a área de vendas e gestão.

Vai construindo o futuro de sonho em sonho.

Carolina de Oliveira quer ter sua própria oficina. Mas diz que só vai abrir as portas depois de estudar e trabalhar muito, para não ter margem de erro.

Ao entorno – que insiste em colocar limitações –dá seu recado:

– Sou negra, pobre, mulher e ainda escolhi seguir pela área da mecânica. Tenho ideia de tudo isso que carrego. E me orgulho! Se eu cair, levanto e começo de novo.

É ilimitada.

A Carol menina já era apaixonada por motos. O pai e a madrinha sempre andaram sob duas rodas e a pequena se encantou.

Aos 11 anos, foi com o pai para Ubatuba na garupa de uma magrela. Soube ali que não havia mais jeito de desencantar.

– A serra, aquelas árvores… nunca vou esquecer!

Com 19 anos, tirou carta e ganhou a sua própria moto. Garante que, mesmo quando puder comprar outra, vai guardar essa.

– Foi pela minha magrela que quis fazer curso de mecânica. Sou curiosa e não gosto de terceirizar um serviço que posso fazer.

A mãe avisou que iria matricular o irmão e Carol se interessou em fazer também. “Será que aceitam mulheres?”. A dúvida foi sanada com as portas bem abertas da escola.

Com quatro meses de curso, ela já consegue fazer a manutenção da sua moto. Por enquanto, não está dirigindo, porém.

– O documento está atrasado. Sabe como é: fiquei desempregada e não teve como. Mas logo dá certo!

Carol não fala com pesar. Sabe que amanhã vai rir da fase que passou.

Criada na periferia de Ribeirão, Carolina sempre estudou em escola pública. Os pais mudaram para um bairro mais tranquilo recentemente, porque o irmão de Carol está com 16 anos e as preocupações começaram a ser grandes.

Ela diz, porém, que cada um tem que saber de si.

– Tenho amigos de diversos estilos. E tenho minha consciência. Não julgo nada. E sou eu mesma.

Na adolescência, ela fez estágio no Fórum de Ribeirão, como aprendiz.

Deixou o trabalho com vontade de fazer Direito. Conseguiu bolsa para Ciências Contábeis, porém. Era o que dava para pagar e decidiu tentar.

Não é do tipo que faz o que não gosta. Acabou parando depois de dois anos de curso.

Agora, já pensa em voltar. Diz que mecânica tem tudo a ver com Contabilidade.

– Se eu quiser administrar bem meu negócio, tenho que conhecer de contas.

Está cheia de sonhos, que quer fazer virarem planos.

Carol diz que no colegial uma professora pediu que os alunos fizessem uma previsão do que queriam ser aos 25 anos.

– Eu lembro exatamente o que coloquei: queria uma casa, um carro e mudar a cabeça de pelo menos uma pessoa para o bem. Sinto que, agora, na mecânica, posso fazer a diferença.

Na sala de homens não há mais brincadeirinhas. Carol tem seu lugar.

– Todos somos capazes. Eu vou ser mecânica. E aí? Não vão me contratar porque sou mulher? Não faz sentido…

Casar, ter filhos e outras tantas coisas que o entorno insiste em impor para a mulher de 20 anos não fazem parte de Carol. Não agora.

Ela quer estudar, aprender, conquistar, em primeiro lugar, a si mesma.

– Não sei onde esse sonho vai me levar, mas quero me aprofundar.

Continua sonhando.

Quem sabe ter uma Harley Davidson, como a das exposições que seu pai a levava quando pequena? Depois que abrir a oficina, filiais são possíveis. E, quem sabe, criar um novo modelo de moto?

Carol acredita que tudo é possível.

– A moto me traz liberdade. É uma sensação de conquista!

Explica sua paixão. E faz questão de confirmar:

– Eu espero que você tenha visto meu brilho nos olhos falando de tudo isso!

Impossível não ver, Carol. Impossível não se encantar.

 

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