Cegueira aos 37 anos não impediu Pedro de aprender a tocar guitarra e criar filha

A história de Pedro foi narrada. Para ouvi-la clique no play abaixo. 

 

No vai e vem apressado do Calçadão, a guitarra de Pedro faz os passos desacelerarem e congela o olhar.

“Pedro Afonso, raízes do asfalto, guitarrista cego”, diz a plaquinha à sua frente.

Sem a visão, ele sola nas cordas, acompanhando a música que toca no radinho. Só aí, já mora muita história.

Conversando com Pedro Afonso Graciotti a gente descobre, entretanto, que há muito mais a se contar.

Antes de perder a visão, ele vivia a pressa das pistas, como corredor profissional. Cresceu em Santos, entre muito surf e pouca preocupação com a alta miopia diagnosticada na infância.

A doença é apontada como uma das principais causas da cegueira no Brasil. Os médicos avisavam que esportes de impacto poderiam acelerar a degeneração causada pelo descolamento da retina.

– A gente sempre acha que vai não acontecer. Não com a gente.

Aos 37 anos, ele – atleta profissional, três casamentos, 5 filhos – ficou cego. E, então, foi preciso começar do zero.

– Acordar e não ter o que fazer, não se sentir útil, é o pior tipo de morte. A vida precisa ter sentido.

Encontrar novo sentido foi processo de muitas etapas.

Pedro, cego e guitarrista, se casou pela quarta vez com uma mulher que também tem deficiência visual. Os dois tiveram uma filha e criam a pequena sozinhos.

A música surgiu quando a revolta parecia tomar conta do coração. Os acordes, então, conseguiram ser mais fortes do que as dores.

Tocando guitarra, ele retomou as forças.

– Meu professor gravou até um CD comigo! Eu me senti o Pepeu Gomes. Pensei em pintar o cabelo em sete cores. A gente precisa ter um motivo para acordar e sair da cama!

A guitarra que faz os passos desacelerarem e os olhos congelarem sustenta sua nova vida. No bolso e na alma.

Pedro Afonso Graciotti guitarrista cego Ribeirão Preto História do Dia

A pergunta – que já havia sido feita dezenas de vezes – dessa vez partiu da irmã: “O que a gente precisa fazer para ele voltar a enxergar?”.

O médico, já cansado de responder, partiu para a conduta do choque: “É caso encerrado: ele não vai voltar a enxergar!”. E deu duas opções, que ainda hoje, cerca de 13 anos depois, reverberam na cabeça de Pedro:

– Ele disse que eu poderia ir para casa, chorar, xingar Deus e tentar me matar. Ou procurar uma associação de cegos para aprender a viver melhor.

Escolheu a segunda, mas não sem revolta.

Decidiu se separar da esposa, que não tinha deficiência visual, por entender que ela iria sofrer se o casamento continuasse.

– A primeira coisa que você se sente é um estorvo, um lixo. Você não é, mas pode virar.

E deixou a cidade de Registro, onde vivia, para morar na Associação dos Cegos de Ribeirão Preto.

Pedro conta que era corredor profissional, com patrocínio grande e coleção de boas colocações. Começou a correr na adolescência e viajou Brasil afora pelo esporte.

Foi preciso deixar tudo no ontem.

– A melhor escolha que eu fiz na vida foi morar na associação, com outros cegos. Foi onde aprendi a me virar: pegar ônibus, atravessar a rua.

Pedro Afonso Graciotti guitarrista cego Ribeirão Preto História do Dia

O aprendizado não levou tanto tempo. Tempo maior dura o preconceito.

A grande dificuldade de Pedro sempre esteve nas reações regadas a pré-conceitos.

– Sabe quando você se sente capaz e as portas todas se fecham? A pessoa diz: “Você não pode fazer isso, porque não enxerga”. Ela me culpa pela ignorância que ela tem. Não sou eu que não sei fazer. É ela que não sabe que eu sei fazer.

Conheceu a esposa em uma sala de bate papo pela internet, cerca de oito anos atrás. Grande passo no processo de dar novos sentidos à vida.

– Sim! Cego também usa a internet! Por que não?

Para que o namoro fosse para frente, foi preciso enfrentar, além do preconceito, a família da jovem, que não queria que ela saísse de casa. Principalmente, para se casar com alguém com deficiência visual.

– Eu praticamente a roubei!

Em toda história que Pedro conta há uma pitada de alegria.

Os dois estão casados há cinco anos.  E há dois e meio nasceu a pequena que fez Pedro questionar novamente seus limites.

– A preocupação foi grande. Mas o tempo me mostrou que não era um bicho de sete cabeças. A gente nunca falou para a nossa filha que somos cegos, mas ela sabe. Ela nos orienta, pega a bengala para a mãe. Ganhou alguns livrinhos e pega na nossa mão para que a gente sinta as páginas. Como? Eu não sei!

A dificuldade de arrumar emprego fez com que, quatro anos atrás, o comportamento fosse tomado por agressividade. A esposa é psicóloga, mas também não consegue trabalhar na área. Para Pedro, o único motivo é o preconceito.

– As pessoas me davam “bom dia” e eu já perguntava “bom dia por que?”. Eu me sentia inútil. Não queria levantar da cama, porque não tinha motivos.

A associação sugeriu, então, que Pedro tivesse acompanhamento com uma terapeuta ocupacional.

A primeira sessão foi marcada por alfinetadas.

– Eu já cheguei avisando: ‘Não vou vir aqui montar caixinhas’. Mas ela entendeu que minha agressividade não era com ela, mas com a situação. E me perguntou: “O que você quer fazer?”.

A primeira ideia foi tocar viola caipira, mas logo o professor indicado viu que Pedro era mais rock´n roll do que moda sertaneja.

A amizade com o professor de guitarra ficou tão forte que a gravação do CD foi surpresa. Ele pedia que Pedro tocasse, enquanto colocava para gravar.

No final, entregou o presente que hoje o aluno vende durante suas apresentações no Calçadão de Ribeirão Preto e de outras cidades.

– A música me ajudou de várias formas. Deu norte para a minha vida.

O plano de tocar guitarra como profissão surgiu no Calçadão de Ribeirão Preto. A esposa estava grávida e as dificuldades de Pedro para conseguir emprego continuavam as mesmas.

Ele andava pelo calçadão quando escutou o som de uma sanfona. Trombou na moça que tocava e foi logo se desculpando: “Eu tenho deficiência visual”.

A moça respondeu que também tinha e os dois engataram uma conversa!

– Quando cheguei em casa, vi a guitarra, a caixa de som, as contas chegando e pensei: Por que não?

Há cerca de três anos, então, Pedro toca guitarra nos calçadões. Começou em Sertãozinho, onde vivia na época. Depois da reconciliação com a família da esposa, passaram a morar em Presidente Prudente, cidade dela.

E, então, todos os dias, Pedro segue a rotina:

– Eu levo minha filha na creche e vou para o Calçadão de Prudente. Ali, conheço muita gente. Cada pessoa tem suas histórias! O dia a dia não deixa a gente se interessar pela história do outro. Mas a música mexe com todo mundo.

Quando vem com a esposa passear em Ribeirão Preto, traz a guitarra, a caixa de som e leva sua música – e sua garra – ao calçadão da cidade.

Foi assim que nos conhecemos, em um sábado de muito vai e vem.

Pedro, 51 anos, confessa: antes de ficar cego, não se atentava com a necessidade de entender o outro.

– O meu botão do “foda-se” ficava ligado 24 horas por dia. A gente só cria consciência quando passa pela situação. Precisamos viver para valorizar.

Hoje, briga para fazer as pessoas entenderem:

– Eu não sou melhor e nem pior do que ninguém.

Ele e a esposa moravam no quarto andar de um prédio. E tiveram que brigar para as pessoas entenderem que não havia nada de mal nisso.

– Eles quiseram despejar a gente, porque cego não pode morar no quarto andar. Mas por que?

Todas as vezes que alguém lhe diz “coitado”, rebate com questionamentos:

– Por que coitado? As pessoas chegam a ser cruéis com o que falam!

Garante que se soubesse antes para onde a vida iria lhe levar, repetira os mesmos atos, sem desvios.

– Essa é a minha história. É preciso viver para saber que é realmente aquilo. Não quero uma transferência de história.

Depois que ficou cego, diz que desenvolveu outro novo gosto. Coloca vídeos com palestras de filósofos no Youtube e escuta a narrativa de livros por um aplicativo no computador.

– Isso tudo me faz pensar. Abre os horizontes.

Aprendeu a entender a vida além do que os olhos podem mostrar.

“Pedro, raízes do asfalto, guitarrista cego”: quanta história mora nos acordes que congelam os passos do Calçadão!

 

 

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Comentários
  • Clélia Tescaro
    Responder

    Esse é o meu irmão. A história ficou muito bonita e verdadeira em casa fase. Perfeito.

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