Cidinha foi torturada pela ditadura militar e dividiu cela com Dilma Rousseff

Era por volta das 18h do dia 24 de setembro de 1969.

Dentro do carro, já depois de levar muitos tapas na cara e empurrões, Cidinha procurava insistentemente um rosto conhecido. Se um companheiro passasse por ali, quem sabe pudesse lhe livrar do destino que, ela tinha certeza, estava a sua espera.

Ninguém passou. Ninguém apareceu.

Naquela noite, Maria Aparecida dos Santos, que na militância era chamada por Vilma e hoje é conhecida como Cidinha, foi torturada até perder os sentidos pela Operação Bandeirantes, a Oban, que viria a ser um dos maiores centros de tortura e assassinatos na ditadura.

Ela teve suas roupas arrancadas, seu corpo apalpado, levou chutes, as mãos foram rasgadas com uma palmatória, passou pela cadeira de choque e só foi jogada em uma sala quando desmaiou. Tudo feito entre gritos, insultos, ameaças, ironias.

Os militares queriam que ela entregasse nomes, confirmasse acontecimentos, delatasse seus “companheiros” de militância.

– Eu queria que a arma que eles usavam para me ameaçar disparasse. Queria morrer porque tinha medo de não aguentar e falar o que eles queriam.

Já depois das horas de tortura física e psicológica, na sala onde a jogaram, escutou um de seus amigos agonizar até silenciar.

– Ele é um dos desaparecidos da Ditadura. Foi morto ali. E eu escutei ele morrer.

E também ouviu quando a filha dele, uma bebê, chorou sem parar, aos gritos de desespero da mãe.

– Depois, levaram as duas para a mesma sala onde eu estava e ela confirmou que eles haviam dado choques na bebê. Um bebê!

Na manhã seguinte, a violência recomeçou com choques, na chamada “cadeira do dragão”. Depois, Cidinha foi colocada no pau de arara, e os choques continuaram.

Na sala, ela via as manchas de sangue do seu companheiro torturado na noite anterior. “Tá vendo esse sangue? Ele quis dar um de valente, igual a você. Quer dar de valente? De herói?”, os torturadores zombavam.

Levavam militantes que já estavam presos para assistir Cidinha sendo torturada.

– Eu queria, de verdade, morrer. Era melhor do que passar por tudo aquilo.

Foram quatro dias de tortura antes de ser levada ao Dops (Departamento de Ordem Política e Social), onde a violência continuou por um mês. Hoje o local abriga o Memorial da Resistência, em São Paulo.

Em 4 de novembro de 1969, data em que Carlos Marighella foi morto, ela foi transferida para o Presídio Tiradentes.

– Eles queriam limpar tudo. Só por isso me mandaram para o presídio.

Passou três anos, três meses e 25 dias no Tiradentes, dividindo cela por um ano com a ex-presidente Dilma Rousseff.

As idas para o Dops eram frequentes. Sempre que saía, sabia que voltaria com novas marcas no corpo. Como quando a militância do seu pai foi descoberta, em dezembro de 1969.

As marcas da tortura e dos anos de encarceramento nunca foram embora. Aos 71 anos, exibe a cicatriz na perna, resultado de um chute que levou de um dos torturadores e que lhe rendeu uma cirurgia. Fala das dores constantes nas costelas e no abdômen, do dedo da mão que nunca mais foi o mesmo, dos problemas de audição, da labirintite.

As maiores marcas não estão no corpo, porém. Por medo da crueldade, ela nunca quis ter filhos.

– O que eu vi eles fazerem com um bebê para obterem informações… Eles poderiam matar uma criança… Eu não sabia como seria o futuro.

As noites de sono passaram a ser picadas e curtas. A porta e o portão de casa estão sempre trancados.

Cidinha, presa política torturada pela ditadura militar, não sabe o que é respirar sem estado de alerta. Fala baixinho, como se um espião estivesse sempre à espreita.

Conjuga os verbos do passado no presente, como se ainda estivesse lá. O tempo passou, mas as memórias não passam. Continuam vivas em detalhes que ela não tem dificuldades em relembrar.

Tem vontade de desenhar a sala da tortura, a cadeira onde o comandante sentava para lhe assistir apanhando, a torre do presídio onde ficou presa.

– Quero aprender desenho para colocar tudo no papel. Exatamente como era. Como está na minha cabeça.

O que não pode ser esquecido, deve ser registrado.

Na sala da casa onde vive, hoje sozinha, papeis e pastas se acumulam. Está resgatando documentos para publicar um livro.

– Às vezes eu nem sei que estou deprimida. Mas a minha voz diminui. Fico com rouquidão. E quem me conhece já sabe que isso é um sinal de que eu não estou bem. Você está percebendo como minha voz está rouca?

Cidinha foi torturada pela Ditadura e ficou presa com Dilma Roussef

Cidinha cresceu envolta em política. Nasceu em uma fazenda em Ituverava em 1947. Depois que o pai entrou para o Partido Comunista, por volta de 1950, as viagens se tornaram constantes.

Ele contava que o convite foi feito por um vizinho baiano, quando a família morava e trabalhava na zona rural de Goiás. Ele já ouvira muito falar sobre a coluna Prestes e toda a movimentação da época. E se interessou quando o vizinho o convidou para uma reunião.

Em pouco tempo, tinha uma forte atuação no partido. E compartilhava tudo o que vivia com a família. Participou da Revolta de Trombas e Formoso, entre grileiros e camponeses, em Goiás.

– Quando ele chegava em casa, contava para gente o que via lá: os grileiros colocavam fogo nas casas, torturavam quem resistia.

Em 1956, a família se mudou para Ribeirão Preto. E Cidinha, com nove anos, começou a frequentar a escola. Até então, era a mãe quem alfabetizava os filhos em casa.

Pelo rádio e no jornal impresso do partido, a menina se informava sobre o mundo. Acompanhou as lutas de libertação na África e na Ásia, a guerra na Guatemala, as revoltas no Paraguai e Venezuela. Em 1959, esteve atenta a cada passo da revolução cubana.

– O engajamento político de uma pessoa não se dá de uma hora para outra. Eu vivia a política o tempo todo.

Sonhou com a lua na corrida espacial entre União Soviética e EUA.

– Quando o homem pisou na lua, eu parei em frente a uma loja de televisão para assistir. Eu vivia olhando para o céu para ver se via um satélite.

Foi nessa época que ela começou a aprender a falar baixo.

Frequentava as palestras do partido, aulas de filosofia, a UGT (União Geral dos Trabalhadores). E, tão pequena, já era tachada de comunista na rua.

– Existia preconceito até dentro da nossa família. Não era com todos os vizinhos que a gente podia conversar.

Lia livros complexos, que relatavam a prisão de comunistas. E viu de perto os nomes do comunismo. Joaquim Câmara Ferreira, grande nome da militância, dormiu em sua casa. Marighella fez visitas a Ribeirão.

– Tudo isso vai formando a gente.

Cidinha não teve um crescer típico. Não seguiu padrões de época.

– Eu não tive tempo de fazer o que as meninas da minha idade faziam: se preparar para o casamento, essas coisas.

Quando decidiu seguir pela política, tinha bagagem de conhecimentos e vivência.

– No momento em que eu deixei tudo pela militância, eu fiz uma opção. Ninguém nessa luta fica pensando ‘eu vou ser isso ou aquilo’. É a vida imediata. Aquilo passa a ser um fim. Mas era algo que a gente achava normal. Como uma rotina. Mas sabendo claramente que a gente tinha que trabalhar, produzir, viver a relação capitalista.

A tensão na casa de Cidinha ficou maior a partir de 1964.

– Nós estávamos acostumados a ter um pouco de liberdade e veio aquele corte. Foi um corte seco.

Em 31 de março, o golpe se instalou. Cidinha já passava as noites acordadas, para acompanhar a movimentação. Aos 17 anos, ela diz que “já estava com a opção política feita”.

– Eu só vou conhecer o que é repressão a partir de 1964.

A militância de Ribeirão Preto era conhecida em todo estado. Ela conta que militantes de São Paulo vinham participar das reuniões daqui.

Dentro do Partido Comunista os ânimos se acirravam, porém. Havia discordância entre os militantes que apoiavam a luta armada e os que não apoiavam. Em 1967, então, houve a ruptura.

Cidinha e seu pai passaram a ser parte da ALN (Ação Libertadora Nacional) e a luta armada entrou na rotina, encabeçados por Marighella e Joaquim Câmara.

Ela relata que participou de ações armadas, inclusive em bancos. Tiraram armas do quartel e da polícia. Entraram no embate de frente.

– Nós fazíamos expropriação em bancos. Não eram assaltos. A ideia era expropriar o dinheiro de quem tinha. Mas nossa intenção nunca foi matar. A vida vinha em primeiro lugar.

Foram dois anos de embates até sua prisão, em 1969.

Tem em detalhes as imagens de sua chegada na Oban. Foi recebida com surpresa pelas dezenas de oficiais que a esperavam no pátio. A militante Vilma era uma das mais procuradas pelo regime militar.

– O jornais pintavam que havia tido um assalto, mas não era a gente que tinha feito. Nesse assalto havia uma mulher que eles falavam ser ‘a loira’ dos assaltos. Eu não era loira ou bonita, como eles esperavam.  Era pequenininha, magra. Eles não acreditavam no que viam.

Cidinha foi torturada pela Ditadura e ficou presa com Dilma Roussef

Cidinha foi presa dentro da casa onde estava hospedada junto a outros companheiros, em São Paulo. Acabara de voltar de Ribeirão Preto. Veio para a cidade dar notícia aos militantes daqui. Pegou o ônibus por volta das 13h e chegou em São Paulo por volta das 18h.

Achou estranho o movimento em volta do edifício. Mas decidiu entrar.

Chegou a descer a escada para a saída. Mas subiu novamente. Quando bateu na porta e um homem estranho abriu, soube que estava em uma emboscada.

– Foi muito rápido. Ele puxou a porta e me pegou pelo braço. Me deu um empurrão tão forte que eu bati no sofá e cai de joelhos. As agressões começaram ali. Muitos tapas na cara e chutes.

Depois, soube que um dos militantes com quem dividia a casa havia sido preso pela manhã. O mesmo que escutou agonizar na primeira noite de violência.

Cidinha tinha 22 anos.

– A tortura é uma coisa pavorosa.

As agressões vinham seguidas de humilhações. O fato de ser mulher acirrava as chacotas e os abusos.

Um dos militares passou a mão em seu corpo, depois de lhe arrancar a roupa à força. O outro zombou quando, depois de horas na cadeira de choque, ela urinou nas pernas.

Quando um dos oficiais lhe acariciou os seios em frente ao comandante, ela direcionou o olhar ao homem. Não queria desafiá-lo, mas questioná-lo:

– Eu queria dizer: ‘Você vai deixar esse cara fazer isso? Vocês são o Exército Brasileiro!’.

O olhar soou como provocação, porém. E a violência foi ainda maior.

Em um dos momentos, eles a colocaram nua, de pé em frente a uma parede e a mandaram levantar os braços. Quando ela se cansava e os braços caíam, o oficial a chutava nas pernas.

– O pior era saber que todos aqueles homens estavam me vendo nua. Eu estava de costas. E eles olhando para mim. Muitos homens assistiam à tortura. Eles sabiam o que estava sendo feito.

No dia em que a levaram para o Dops, carregada, porque já não podia andar, mais zombaria dos militares que a viam passar: “Você trombou com um caminhão? Ou caiu da escada?”.

Uma companheira teve que lhe dar banho por semanas no Dops. Com o corpo todo inchado e ferido, ela não conseguia se mover.

No Dops, a tortura continuou por um mês, em dias alternados. Cidinha repete muitas vezes que não entregou “seus companheiros”, apesar de toda violência sofrida.

– O máximo que eu pude eu não falei. Só falava do que já estava aberto.

Seu pai só foi preso em abril de 1970.

No Presídio Tirantes diz que conheceu “o mundo cão”, vendo a realidade dos presos comuns.

Os presos políticos conseguiam, no entanto, se comunicar com o mundo de fora . Liam, cozinhavam estudavam. Faziam e vendiam trabalhos manuais para ajudar as famílias dos militantes presos, que não tinham condições de viajar para visitá-los.

Ela conta que a ex-presidente Dilma, parceira de cela, também lavou, cozinhou e sofreu como todo mundo.

Quando Cidinha foi solta, em 1973, a ditadura ainda não era passado. Continuava forte.

Cidinha foi torturada pela Ditadura e ficou presa com Dilma Roussef

Cidinha não nega o medo de continuar lutando. Garante, porém, que nunca se deixou paralisar por ele.

– O medo não me impediu de continuar. Eu tomava o máximo cuidado, mas militava.

Nunca parou, aliás.

– Eu sempre lutei pelo que acreditava. Faço isso até hoje.

Depois que deixou o presídio, ficou um tempo na casa dos pais em Ribeirão, viajou para visitar familiares e foi retomando a vida como pôde.

Conseguiu emprego um ano depois, em um consultório médico. Nunca escondeu sua atuação política. Entrou na faculdade de Estudos Sociais e em 1975 trouxe o Movimento Contra a Carestia para Ribeirão Preto, lutando por melhorias sociais.

Nessa época, entrou para o PC do B, partido ao qual foi filiada por oito anos, atuando na política.

Trabalhou como professora, mas diz que não gostou da experiência. Atuou em sindicatos, foi vendedora, se casou.

– Vale a pena lutar? Vale. Eu sei que a história da humanidade não é fácil. A luta dos fracos contra os fortes não é fácil. Mas vale a pena lutar. Por que não?

Olha para o passado com lucidez, não deslumbramento.

– As pessoas acham que a gente foi um espanto. Nós fomos cheios de erros, como todo mundo é. Erramos e continuamos errando ainda hoje. Mas acertamos também. Quem erra é porque está tentando fazer algo ou está fazendo. Você não vai me ver usando a condição de ter passado pela tortura para justificar isso ou aquilo.

Hoje, assiste inconformada a um cenário político de caos. Escuta com dor os clamores pela volta da ditadura.

– As pessoas não podem perceber o que foi a ditadura se não viram, se não viveram aquele tempo. A tortura é pavorosa.

Ela vê – com alarde e perturbação – semelhanças entre 2018 e 1964.

– Muito do que quiseram implantar naquela época eles estão implantando agora.

Não vê o futuro com bons olhos, então.

– As bases em que a sociedade está assentada visa a miséria, cria camadas pobres, que enchem as cadeias. Eu não sou pessimista. Eu uso a razão. Pessimista é aquele que não faz nada, não tenta. O realismo é que te impulsiona a fazer alguma coisa.

Diz que só vai escrever seu livro quando tiver toda a documentação que precisa em mãos, para que não falte pingos nos “is”.

Sabe que a memória, principalmente em tempos de sombra, tem que ser muito bem lembrada.

– Como militante, eu sinto uma tristeza muito grande, profunda em ver como estamos…

Carrega no corpo – e na alma – as marcas que o ódio, mascarado com argumentos políticos, é capaz de fazer. A ditadura é pavorosa: com qual argumento se há de negar?

 

Foto 1: Cidinha hoje, aos 71 anos – História do Dia
Foto 2: Cidinha logo após deixar a prisão, em 15 de dezembro de 1972 – Arquivo pessoal
Foto 3, da esquerda para a direita: Cidinha aos 18 anos, 19 e 16 anos – Arquivo pessoal

 

 

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