Com projeto solidário, Vicente já abrigou mais de três mil pacientes do Hospital das Clínicas

História publicada pela primeira vez em 7 de dezembro de 2017. Vale a pena ler de novo! 

 

Pedro anda por ali como quem conhece bem. Vai ao quintal, volta. Quer brincar na grama.

Há quase quatro anos, a casa de madeira no Jardim Recreio é mesmo um pouco sua.

Quando ele tinha dois anos, a família, que mora no Rio de Janeiro, descobriu a epilepsia. O tratamento no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto é o mais indicado. E, então, é preciso passar semanas fora de casa.

– Se não fosse essa casa, a gente não poderia vir.

É a mãe, Aline, quem diz. E complementa:

– Aqui é tão bom que não dá vontade de ir embora.

Vicente escuta tudo com um sorriso tímido no rosto.

É do tipo que custa a falar sobre si e sobre o bem que faz. Só abre exceções com o objetivo de multiplicar solidariedade.

Chegou dezembro. Época em que Vicente vai para o trabalho com dois uniformes diferentes. Além da roupa branca da enfermagem, leva outra de cor vermelha.

Em um só turno, que começa às 6h30 e vai até às 12h30, ele chega a trocar e destrocar os dois trajes mais de 10 vezes.

A cada criança que chega ao Centro Cirúrgico do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, Vicente deixa o cargo de auxiliar de enfermagem de lado e se transforma em Papai Noel.

A cada pequeno que se prepara para cirurgia ele entrega um presente e mais de um abraço.

Durante todo o mês de dezembro, todos os dias, é assim. E já faz, pelas suas contas, mais de 10 anos.

A equipe de enfermagem do centro cirúrgico passa o ano arrecadando os brinquedos que são entregues no mês de festas.

Se fosse só isso, já estaria muito bom. Vicente seria gente que faz o bem.

Mas quis ir além com a solidariedade.

Quando dezembro chega ele redobra as doses de amor que passa o ano a distribuir.

Há quase quatro anos abriu uma casa de apoio aos pacientes de fora que vem ao Hospital das Clínicas em tratamento.

Estima que já abrigou mais de três mil pessoas, entre crianças e adultos.

Pedro, que anda pela casa que é um pouco sua, é um deles.

Vicente abriga pacientes do Hospital das Clínicas Ribeirão Preto - História do Dia

A ideia de dar abrigo aos pacientes surgiu no dia-a-dia de hospital.

Há 23 anos, Vicente é auxiliar de enfermagem no Hospital das Clínicas. Conta que a profissão nunca havia lhe passado pela cabeça.

A esposa fez o curso e, em 94, quando abriu concurso no HC, Vicente sentiu vontade de tentar.

– Eu fiz, gostei e nunca mais saí.

Desde que entrou, trabalha no centro cirúrgico.

– Você conhece os pacientes, vê a dificuldade que eles tem para fazer o tratamento, se manter em Ribeirão. Vem gente de todos os lugares…

Desde que entrou, Vicente começou a nutrir a vontade de ajudar.

– Eu queria levar todo mundo para casa. Mas não dava…

Pensava, porém, que o plano seria no futuro. Dizia que quando se apontasse teria uma casa de apoio.

– Mas para Deus, o que as pessoas precisam é agora, é hoje.

Vicente frequenta um centro espírita. Em uma das leituras, foi tocado por uma mensagem que dizia sobre a caridade que te pede para sair da zona do conforto.

Conversou com uma amiga que estava junto sobre a vontade de ter uma casa de apoio. E a amiga, de imediato, disse que tinha o lugar.

A casa de madeira do Jardim Recreio estava desocupada. E a amiga aceitou cedê-la, por um valor mensal suficiente para pagar as parcelas do financiamento do imóvel.

– Nós viemos ver a casa no mesmo dia!

Logo, estavam de portas abertas, com acomodações para 16 pessoas. Só no primeiro ano de funcionamento foram 800 hospedados.

Além do trabalho como auxiliar de enfermagem, Vicente faz bicos como Uber para manter as contas da família.

– As pessoas acham que precisa ter muito para ajudar… Não precisa.

A casa é mantida por doações, campanhas e pela colaboração que, muitas vezes, ele coloca do próprio bolso.

Até este ano, os hospedados não pagavam nada pela estadia. Agora, com a crise que fez diminuir as doações, Vicente pede a colaboração de R$ 10. Caso a família não tenha, porém, as portas continuam abertas.

Além da hospedagem, os pacientes e seus familiares encontram na casa os mantimentos básicos para as refeições: arroz, feijão, leite, pão.

Vicente quer ver sua ideia crescer, transformar em ONG, ampliar a casa para abrigar mais gente.

– Você não faz o bem para os outros. É por você mesmo. Me incomodava ver pacientes sem ter onde ficar. Hoje, eu parei de me incomodar porque posso ajudar.

Todos os dias, ele passa pela casa para ver se está tudo bem, resolver um problema, levar um novo abrigado.

– A gente está aqui para aprender. O que Jesus pregou? Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Chegou dezembro! Época em que Vicente fecha com chave de ouro a solidariedade que espalhou durante todo o ano.

Vicente é braços abertos o ano todo.

 

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Comentários
  • Maria Alice Andre
    Responder

    A Vida é assim….enquanto muitos correm atraz do “ter”……pessoas lindas vivem para “ser”!
    Ser a diferença na existencia de pessoas, em suas etapas difíceis da caminhada terrena.
    Amo esse Vicente….e sua familia tão linda!
    Tenho frequentado os setores do HC, pois meus Pais tem necessitado destes auxilios….e tenho conhecido essas pessoas lindas que trabalham por lá!
    Que Jesus fortaleça cada um de vocês!

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