Com simplicidade e muita luta, Adelino criou nove filhos e é inspiração para os 20 netos

Ontem foi dia de festa na casa do seu Adelino! Os filhos e netos estiveram reunidos, celebrando com churrasco o Dia dos Pais.

A data é uma vez ao ano. Mas as reuniões – que alegria! – são rotineiras por ali.

– Ser pai é ter os filhos tudo perto da gente. Ter prazer em ver os filhos!

Na simplicidade de seu Adelino, mora um coração grandioso. Que guarda sempre por perto os nove filhos e 20 netos.

– Não tem bisneto ainda. Precisa ter! Mas as meninas não dá um netinho para a gente!

Vai negociando o aumento da família, que não comporta “só um bolinho” em seus encontros.

– Sempre tem que fazer uns dois. Qualquer reunião é para umas 50 pessoas!

Ele não reclama, porém. Aos 92 anos, quer mais é agradecer.

– A vida para mim tá muita beleza.

Hoje, Adelino Barbosa dos Santos pode escolher o sapato que quer usar quando sai de casa. Tem uma porção de pares e diz, todo contente, que alguns foram usados uma só vez.

Faz questão de se vestir em traje social – calça, camisa e sapato – ainda que vá ao mercado do bairro.

A primeira vez que pôde usar um par de sapatos já tinha 18 anos.

A família tinha um casamento para ir e os meninos não podiam ir descalços – como era a rotina.

  – Todo mundo tinha sapato, mas eu não. Era difícil. Dinheiro não tinha, não.

Adelino Barbosa dos Santos Ribeirão Preto História do Dia

A vida para Adelino foi brotando devagar. Vivendo na roça, conta que só deu os primeiros passos aos cinco anos. Um problema no fígado foi apontado como a causa.

– A Medicina era muito atrasada naquela ocasião. Eu fui curado com o mato. Os remédios que tem na farmácia, tem no mato.

Começou a andar aos cinco e aos sete teve que ser forte para pegar na enxada. Só deixou o trabalho na roça aos 60 anos, quando se mudou para Ribeirão Preto para estar mais perto dos filhos, que já moravam todos por aqui.

Mesmo assim, continuou lidando com a terra, trabalhando como jardineiro.

Escola só existiu na conversa. Dos 14 filhos, só os três mais novos conseguiram estudar.

– Meu pai falava que a escola só servia para aprender sacanagem.

O trabalho era de sol a sol. Mas nem para a comida o dinheiro dava.

– A gente passava muita falta das coisas. Faltava o alimento. E tinha que lavar a roupa do corpo para vestir de novo.

Nesse contexto de tanta dureza, ele não conheceu o afeto. O pai, seguindo o fluxo da rotina, era mais duro que pedra.

– Ele não queria criança, não. Era ele para lá e criança para cá. Não judiava, mas era bravo.

Adelino se casou aos 32 anos. Conheceu Luzia na roça. Ela era vizinha e sempre passava nos fundos da casa dele, para a troca de olhares. Em seis meses de namoro já estavam casados.

A primeira filha, Cidinha, nasceu logo em seguida: conta dos nove meses de gestação. E depois foi nascendo um guri por ano, até completarem 10 filhos (um morreu ainda criança).

Adelino, que nunca teve afeto de pai, decidiu ser diferente. Quebrar o fluxo da dureza.

Adelino Barbosa dos Santos Ribeirão Preto História do Dia

– Meu pai sempre fazia a gente dormir. Ele pegava os pequenos no colo e saía andando pelo terreiro. Os que já eram maiorzinhos, agarravam nas barras da calça dele e iam andando juntos. Depois, a gente fingia que tava dormindo para ele pegar a gente no colo e levar para a cama.

A lembrança é compartilhada entre Cidinha, 60 anos, a primeira filha, e Lurdinha, 54. As duas e a neta Thaís, que indicou a história do avô como homenagem para o Dia dos Pais, acompanham a entrevista. Entre as falas do patriarca, vão acrescentando as boas recordações que têm com ele.

– Eu passeava muito com ele. Ele ia na cidade visitar a família e sempre me levava junto. Uma vez, me comprou um doce que vinha com um apito e fiquei apitando na cabeça dele. Ele sempre levava água no quarto, quando a gente pedia. A gente gritava: “Pai, traz água”. E ele sempre levava, não importava onde estivesse.

Adelino deu as filhas o carinho que não aprendeu a cultivar, semente por semente. Fez nascer por conta própria.

– Eu procurei ter outra natureza com meus filhos. Ter paciência.

Conta que uma única vez perdeu a calma e deu uns tapas em dois filhos, que brigaram entre si. O arrependimento corroeu.

– Depois pensei melhor: coitadinhos. Tem que ter paciência com eles.

Na época em que os filhos nasceram, a situação financeira da família estava mais estabilizada. Adelino morava e trabalhava em uma grande fazenda. Das 6h às 17h30 cuidava das terras do patrão. Quando chegava em casa, cuidava da sua horta. Luzia tomava conta dos filhos e da casa.

– A gente tinha porco, galinha, muitos legumes e verduras. Era uma época de muita fartura!

É Lurdinha quem conta. Todos os filhos foram para a escola. Os mais velhos, a custo de muita distância e saudade.

Na fazenda, só havia escola para os anos iniciais. Quando Cidinha estava com nove anos foi morar na casa da patroa, na cidade, para poder estudar. Tão pequenina, trabalhava olhando as crianças da família e fazendo serviços domésticos.

– A gente ficava meses sem ver meus pais. Era muito difícil.

Os filhos foram deixando a fazenda um a um, conforme iam crescendo. Quando ficou só a caçula, a casa ficou vazia demais para os pais, tão acostumados com ninho cheio.

– A gente veio para Ribeirão em 13 de abril de 1986. Meus filhos estavam longe. Tinha que vir!

Sabe a data exata da partida. Os filhos participaram, juntando um pouco de dinheiro para comprar a casa onde o casal vive hoje, no Parque Ribeirão, zona Norte da cidade.

A família estava completa e unida de novo. Os domingos seriam sempre de encontro!

Adelino Barbosa dos Santos Ribeirão Preto História do Dia

Quem chega à casa de Adelino, precisa ser cuidadoso. Antes de ir logo correndo para abraçar o “paizão”, precisa negociar com “Negão”.

O cachorro vira latas de pelagem brilhante é agora mais um “filho” na família. Talvez o mais ciumento de todos. Fica ao lado do dono até mesmo na hora da foto. Enquanto as filhas abraçam o pai, ele pula no colo impaciente.

O coração de Adelino sempre tem uma sobrinha de espaço – até o cachorro bem sabe.

Há cerca de um ano e meio, Adelino teve algumas complicações de saúde. Ficou um tanto debilitado. Os filhos, então, tomaram a decisão. Todos os dias, alguém dorme com os pais e Cidinha passa o dia com eles.

Difícil, porém, é acompanhar o ritmo do homem. Acostumado com a roça, ele acorda às 4h da madrugada todos os dias, passa um café e toma com bolo ou pão. Depois, até volta a dormir até umas 9h. Mas é preciso esse acordar rotineiro.

– Já aconteceu com todas nós. A gente só percebe que ele acordou quando ele já está voltando para a cama!

Lurdinha cai na risada! Para ela, cuidar do pai é continuar um ciclo de amor.

– Tudo o que ele fez por nós! É uma forma de me retribuir. Eu me separei quando meu filho era pequeno. Meu pai ia comigo até mesmo dar as vacinas nos meus filhos. Foi pai para mim e para eles.

Quando a entrevista já está quase se encerrando, as filhas lembram de contar a interessante curiosidade.

– A gente brinca que meu pai tem sete vidas, porque ele já passou por muitos acidentes feios e sobreviveu!

Foram atropelamentos, acidente entre carro e caminhão, raio na fazenda: um tantão de sustos.

Todos mais querem, entretanto, é que Adelino tenha ainda umas quatro ou cinco vidas a usar. Muitos e muitos domingos a celebrar.

– Eu me sinto feliz: Graças a Deus! A vida é boa! Se a gente tem saúde para se virar sozinho, ela é boa!

Na simplicidade de Adelino mora uma história grandiosa!

 

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Todos os 5 comentários
  • Paola Sasaki
    Responder

    Meu Deus, estou muito emocionada, eu estava super ansiosa pra esse história sair e eu poder ler logo. Que maravilhoso, meu vozinho merece isso é muito mais. Obrigada por terem dado essa oportunidade. Que esse paizão de todos nós ainda tenha muita saúde para estar conosco muuuitos anos. O amor é tão grande que eu escolhi me casar no mesmo dia que eles se casaram, pq pra mim eles são grandes exemplos de amor verdadeiro. Eu amo demais. ???? ass. Paola uma das 20 netas hehehe

  • Thais sasaki
    Responder

    Meu avô !!! Nosso grande exemplo ! Obrigada Dani por traduzir uma vida em palavras tão lindas!!

  • Dora kommerij
    Responder

    Que Linda historia, com garra contruiu uma familia Forte e unida… adoro voces… feliz dia dos pais… esse é um exemplar raro nos dias atuais…

  • Jessieli Alves
    Responder

    Que história linda, fico muito emocionada em ler essa história.
    Agradeço meu avô Adelino por da uma nós uma linda família que amo muito.
    Uma dos 20 netos ???
    #FamiliaAmorMaior #VôLindo #MeuOrgulho

  • Regina
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    Parabéns para Sr. Adelino que Deus lhe dê muita saúde.?????

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