Com suas fotos e história, Bianca conscientiza sobre parto humanizado

No pescoço, Bianca carrega uma medalha com desenho de um bebê ainda no útero, em posição de nascer. O carimbo da placenta que acolheu Pedro por 38 semanas e cinco dias virou quadro. Na sua marca de fotógrafa, a maternidade é estampada em cores.

Está tudo ali: pulsando. Como na história que ela conta.

Começou quando a prima, que também é amiga de infância, pediu que ela acompanhasse o parto de seu primeiro filho. Naquele domingo de 2012, o bebê deu sinais de que iria nascer e a família se reuniu.

O primo, aguardando a chegada do filho, entregou uma câmera nas mãos de Bianca e perguntou se ela poderia registrar algumas imagens. Ela aceitou – já avisando que não sabia a qualidade do que iria entregar. Até então não tinha nenhuma atuação na fotografia.

Fez as fotos, inclusive do bebê sendo cuidado no berçário.

– Quando o Tom nasceu, ele foi levado da mãe. Todo mundo curtiu aquele momento de dar banho nele. A família podia vê-lo pelo vidro do berçário. E eu só pensava na mãe, sozinha naquela sala gelada.

 

Bianca Lemos fotógrafa Ribeirão Preto

       Foto feita por Bianca no nascimento do Tom

 

O nascimento, ela relata, foi às 16h. Mas mãe e filho só estiveram juntos às 21h.

– Eu pensei que deveria haver um jeito diferente de recepcionar um bebê, que não fosse naquela sala gelada. Decidi que iria ter um filho, mas não queria que ele nascesse daquele jeito.

Depois daquele dia, duas partes de Bianca passaram a pulsar: a mãe e a fotógrafa.

As fotos ficaram tão boas que a sogra do primo alertou: ‘Se tudo der errado, você pode fazer fotografias’. O parto marcou tanto que ela passou a estudar formas de nascer. As duas partes se entrelaçaram, em um surgir conjunto.

Pouco mais de um ano depois desse descobrir, Bianca ganhou uma máquina do marido e começou a fotografar eventos – não quis esperar tudo dar errado!

– A fotografia me possibilita ser mãe. E ser mãe me ajuda a fotografar. Eu deixo meu filho em casa e vou levar o que eu tenho de melhor para outra família.

Bianca Lemos fotógrafa Ribeirão Preto

Bianca se formou em Jornalismo por volta de 2006, no litoral paulista, onde passou a adolescência com a família. Recém-formada, morou e trabalhou em Brasília por três anos, antes de se mudar para São Paulo. Atuava como assessora de imprensa, com grandes empresas como clientela.

Depois do casamento, em 2013, se mudou para São José dos Campos, cidade onde o marido vivia, e continuou atuando na área. A ideia de ter um filho, entretanto, levantava a questão:

– Eu queria me dedicar a esse filho. E como faria isso trabalhando tanto?

Ela chegou a procurar um curso de estética, contagiada pela ideia de ser sua própria chefe e trabalhar com horários flexíveis.

O parto da prima surgiu como uma rota no caminho. E tudo se deu ao mesmo tempo. No início de 2015, ela e o marido decidiram que era hora de tentar ter um bebê. E Pedro veio logo na primeira tentativa.

Sem saber que estava grávida, Bianca filmou seu primeiro parto, durante um curso em São José dos Campos.

– Eu senti muita cólica e não entendia o porquê. Descobri uma semana depois que eu estava grávida. Era meu corpo sinalizando.

Na gestação, preencheu os dias com trabalho em dobro – na empresa de assessoria durante a semana e como fotógrafa nas folgas. E estudou tudo o que pôde.

– Não adianta querer um parto natural. É preciso se preparar para esse parto. Empoderamento é informação. Eu comprei uma única roupinha para o Pedro. Passei o tempo todo me preparando para ele. Para mim, o menos importante era o enxoval.

Quando o corpo começou a dar sinais de que Pedro iria nascer, ela não teve dificuldades em compreender. Conta que sonhou três vezes com seu filho, anunciando sua chegada para o dia 17 de dezembro.

Começou a sentir contrações leves já no dia 10. E, até o parto, fez faxina, sentiu vontade de comprar toda a comida das prateleiras, participou de uma roda de gratidão com as gestantes com quem dividiu o percurso, dançou até no corredor do supermercado quando as contrações começaram a ficar mais fortes.

– Eu queria sentir meu corpo.

Às 6h do dia anunciado em sonho, 17 de dezembro de 2015, as contrações começaram a ritmar. Bianca teve o acompanhamento de uma doula e o combinado foi que só iriam para o hospital quando a dilatação já estivesse grande.

Cumpriram tão à risca que Pedro quase nasceu na recepção.

– Ele nasceu no dia em que resolveu nascer. O cordão umbilical estava enrolado no pescoço e não teve problema algum. Não tem problema algum. Ele nasceu roxinho, como todo bebê nasce. Nasceu bem!

 

Bianca Lemos fotógrafa Ribeirão Preto

               Nascimento de Pedro e da mãe Bianca

 

Pedro não nasceu sozinho.

– É uma passagem. Morreu a filha e nasceu a mãe, no sentido mais simbólico que você possa entender. Eu virei uma leoa com meu filho. As mulheres se colocam em papel de vítimas e deixam que mãe, tias decidam por elas. Eu não deixei.

O pós-parto real, ela enfatiza, não tem nada de romântico.

– É um processo necessário para descobrir a força que você tem. O mulherão que você é. Demora e tem muitos altos e baixos. A gente aprendeu errando e acertando.

Com as famílias morando em outras cidades, Bianca e o marido enfrentaram em dois a maior parte dos desafios de recepcionar um bebê.

– Foi uma transformação tripla: eu aprendi ser mãe, ele aprendeu a ser pai, o Pedro aprendeu a ser filho. Nos fortalecemos muito.

Quando voltou da licença maternidade, a surpresa que não causou tristeza. A demissão da empresa foi comemorada como o momento para investir na fotografia e, com agenda mais solta, acompanhar Pedro de perto.

O ano de 2015 foi feito de muita fotografia a aprendizado.

– Eu deixei de ser a Bianca para ser a mãe do Pedro. Essa passagem é dura com a mulher. Por mais que se tenha pessoas ao lado, é muito solitário. Algumas coisas só você consegue fazer. Amamentar, por exemplo. É intenso. Você ri e chora ao mesmo tempo.

Em janeiro de 2017, o marido de Bianca foi transferido para Ribeirão Preto. E ela, que já tinha se consolidado profissionalmente em São José, precisou se reinventar por aqui.

– Ribeirão é o paraíso da humanização! Tem muita informação!

Decidiu, então, fazer um curso de doula, para saber como agir no momento de fotografar um parto.

– Ser doula não é só no momento do parto. Você doula a vida!

E continuou seu trabalho, que vê como algo maior.

– É uma missão de vida. Eu não só fotografo. Eu estou ali de corpo e alma. Minha missão é mostrar ao mundo que existe outra forma de receber um bebê, que não em uma sala gelada. Você pode fazer uma cesárea, pode ter um parto hospitalar, mas com calor, do jeito que a mulher desejar.

 

 

Fotos feitas por Bianca

 

Assim como respeitou a hora de nascer, procura respeitar Pedro como o ser completo que ele é. E busca replicar essa ideia com as outras mães.

– Muitas vezes, uma mulher está frustrada com seu parto e encontra o argumento que mais acolhe seu coração: ‘Tinha que ser cesárea’. A gente precisa acolher essa mulher, que não teve seu parto respeitado. Que sonhou com a amamentação e se frustrou. Vamos acolher ou continuar culpando? Isso precisa mudar.

Bianca defende que a mulher escolha o parto de seu filho.

– A humanização não é uma banheira de plástico cheia de água. É respeitar a decisão da mulher. Mas ela precisa ter todas as informações para tomar sua decisão.

O que é ser mãe do Pedro?

– É a melhor coisa da vida. Ele veio para ensinar a gente a ser melhor. Eu sou outra pessoa.

Se emociona ao falar. Teria como ser diferente?

 

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