Daniel faz poesia com palavras sorteadas no baleiro da vida

Machucado. Sol. Futuro.

Com as três palavras sorteadas de um baleiro e da minha imaginação, Daniel faz poesia.

São cinco minutos para a arte estar pronta. Escreve o esboço em uma caderneta e depois bate à máquina de escrever Olivetti, no verso de um guardanapo colorido.

Daniel Viana projeto Balavra - Feira do Livro Ribeirão Preto

Em cinco minutos, Daniel Viana transforma em poema palavras, até então, perdidas.

Ele espera sentado em uma mesa de madeira, coberta com toalha colorida, ao lado da cadeira vazia.

É o vazio que traz o conteúdo.

– A cadeira vazia é democrática. Ela não escolhe raça, idade, lugar. Ao mesmo tempo em que senta um idoso, senta uma criança, um morador de rua.

Há quatro anos, desde que se entendeu poeta, Daniel escolheu as ruas de São Paulo como escritório de criação.

Desde então, publicou quatro livros com a poesia que nasce de quem passa.

– Eu me considero um poeta de rua. Não que eu me sinta especial ou diferente por isso. Mas é na rua que eu me encaixo. A rua me oferece uma troca de conhecimentos muito grande.

O menino que deixou Poços de Caldas para fazer arte, sem saber muito bem como, descobriu que a poesia realiza sonhos.

Os seus e os de quem ganha um estímulo para seguir passando, a partir de um poema feito em cinco minutos.

Nessa semana, Daniel montou sua mesa na 17ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, com o projeto Bala_vras. Não passava um só minuto sem responder às perguntas curiosas? “Mas o que você faz com essas palavras no baleiro?”.

Com palavras sorteadas de um baleiro e da imaginação de quem passa, Daniel transforma em poesia a rotina que até então era só vai e vem.


 

Uma professora fez Daniel perceber que podia navegar pelo mundo das palavras com o barco que melhor lhe coubesse.

Aos seis anos, ele aparece em uma foto de família recitando poesia. Diz, então, que a oralidade poética veio muito cedo. Decorava rimas, improvisava, declamava poemas.

Quando tinha entre 13 e 14 anos, na sétima série, a professora lhe puxou pela mão.

– Ela percebeu que eu me expressava através das palavras e me deixava livre para transformar redação em poesia. Isso me aproximou da leitura. Em bairro periférico, escola pública, vem do professor o estímulo. Uma professora foi a figura que transformou a minha história.

Desse dia passaram-se mais de dez anos até que Daniel, de fato, se assumisse poeta.

No meio do percurso, ele deixou a escola. Diz que uma soma de fatores determinaram a escolha. As condições financeiras da família estão neles. Mas o preconceito foi que deu o veredito.

– Ser jovem, gay, no interior e na escola era visto com muita agressividade. Eu não me sentia acolhido ali.

Só voltou a estudar já morando em São Paulo, em contato de novo com a poesia.

Hoje, é aluno de Letras, como bolsista de uma faculdade.

Mais que isso. É o primeiro da família toda a entrar na universidade.

– Eu espero chegar ao final e cumprir essa história na família!

No barco da poesia, o mar de Daniel não tem fim.

Reconciliação: a palavra que fez Daniel poeta.

Não foi sorteada do baleiro, mas do passado.

O pai abandonou a casa quando o menino tinha cinco anos, deixando os cinco filhos e um hiato aberto. Só voltou 10 anos depois.

Para se reconciliar com a família, ele escrevia um bilhete todos os dias e pregava na geladeira.

– Descobrir que meu pai escrevia me afastou da realidade de que eu também escrevia. Sabe o espelho? Eu não queria aquele espelho.

Pouco tempo depois de voltar para casa, o pai morreu.

E a geladeira deixou de ter bilhetes.

Em 2013, morando em São Paulo, Daniel decidiu que era hora de encarar o  espelho, os bilhetes, o passado.

Reconciliação.

Seu primeiro projeto como poeta foi espelho do pai.

Todos os dias, Daniel escrevia poesia em um guardanapo e deixava em algum lugar da cidade para ser encontrado.

Começava ali sua poesia de rua, com pitadas de sentido ao vai-e-vem congelado da rotina.

– Eu me reconciliei com a minha história. Hoje não vejo mais com o peso que via antes.

No barco da poesia, o mar de Daniel invade a cidade.

Daniel Viana projeto Balavra - Feira do Livro Ribeirão Preto

Desde a reconciliação, Daniel escreve todos os dias.

– Eu acho que a escrita é um exercício. Quando você tem o exercício da escrita e se sente inspirado, o texto vem com mais maturidade.

No projeto “Troco um causo por conto” a cadeira vazia recebia pessoas dispostas a contar um pouquinho das suas histórias.

Daniel transformava em poesia a trajetória  que era muda até então.

– No momento em que todo mundo só quer dizer, quando a gente se coloca para ouvir, a gente enriquece muito mais.

Não cobra pelo seu trabalho. Não quer barreiras tirando o vazio democrático da cadeira.

– Eu não quero dinheiro por essa troca. O que eu ganho é a interação com as pessoas.

Mais que palavras, o que move o poeta de rua são as pessoas.

–  Acreditar nas pessoas! Quando um desconhecido se coloca para ouvir, a pessoa pode contar a história que mora nela. É a verdade daquela história.

Daniel faz poesia em cinco minutos. Ele diz que a rapidez vem do exercício da escrita, das palavras sorteadas como dispositivo, da interação com as pessoas.

Quando começa a escrever, eu vejo vocação. Vocação somada a um tipo de amor que só entende quem encontrou missão no fazer.

– Eu me considero uma pessoa melhor depois que eu me tornei poeta de rua.

A rua é melhor depois que ganhou Daniel. Com palavras sorteadas pela vida que – em fato – é mesmo feita de poesia.

Mar. Força. Poema.

Qual poesia a história de Daniel vai escrever?

 

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