Daniela pesquisa o mercado e a vida

Daniela faz pesquisas de mercado. Entre o vai e vem de gente apressada que passa pelo Calçadão de Ribeirão Preto, ela é a pausa.

Ouve, em média, 50 pessoas por mês. Mas seis anos atrás, quando começou no trabalho, o número era três vezes maior. Já ouviu, então, milhares de vozes.

A ideia é descobrir do que a pessoa gosta, se prefere esse ou aquele produto, como o mercado pode ser melhor.

Daniela faz pesquisas de mercado. Mas, entre o vai e vem de gente apressada, ela é a pausa. E, em tempos de correria desenfreada, pausas são valiosos espaços no tempo.

– Muitas vezes, tudo o que a pessoa quer é ser ouvida.

Ela descobre, então, bem mais do que a marca de refrigerante que o consumidor gosta ou detesta. Empresta seus ouvidos – e seu ombro – para desabafos, dá conselhos, distribui abraços.

– Tem gente que ri, outros choram. As pessoas estão perdendo valores. Não conseguem conversar nem mesmo dentro de casa.

Daniela Benedetti, 45 anos, diz que ama o que faz. Mais que o mercado, ela pesquisa a vida.

Entre o vai e vem apressado há muita gente que precisa ser notada.

– Eu acredito que, ouvindo as pessoas, eu posso ajudar. Posso fazer o bem. As pessoas podem melhorar. Se eu não puder ajudar, ouvir também não vai atrapalhar.

Daniela pesquisa o mercado e a vida Feira do Livro Ribeirão Preto

O principal posto de trabalho de Daniela é a praça XV, que foi tomada por literatura durante a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto.

Ela, então, andava em busca de alguém para pesquisar quando avistou a placa: “Qual a sua História do Dia?”. Se aproximou, perguntou sobre a intervenção e decidiu ficar.

Ela, que tanto escuta, nesse dia iria falar.

A história daquele 23 de maio, porém, não era lá muito alegre.

– Hoje faz 11 anos que eu perdi meu irmão. Foi um tumor na cabeça. Ele era um moço lindo, cheio de amigos.

Na história da sua vida, no entanto, ela encontrou um jeito de sufocar as tristezas.

– Eu queria ter o dom de escrever. Ia dar um belo de um livro.

Daniela nasceu em Ribeirão e passou a infância brincando pelo Centro. Entre os três irmãos, ela era a única menina.

– Meus irmãos são o ar que eu respiro.

Quando o irmão morreu, em 2007, sentiu, então, o pulmão sufocar. O coração apertar.

Conta que pouco tempo depois perdeu o marido, com quem vivia desde os 18 anos, também com câncer. Aos 16, ela havia engravidado do primeiro filho de maneira inesperada.

O relacionamento com o pai do bebê não deu certo. Mas ela havia encontrado no marido o companheiro para prosseguir.

– A gente só se separou porque a doença é cruel.

Foi preciso buscar jeitos de continuar, mesmo faltando o ar. Mesmo faltando o companheiro.

– Tem uma força dentro da gente. É preciso ser forte, porque, senão, a gente não dá conta.

Por essas e outras, a vontade de escrever um livro é tão forte.

– Tem muitas histórias. Cada dia é uma história diferente.

Reconstruiu a vida, encontrou um novo companheiro e ganhou a filha caçula e um neto, no mesmo momento.

– Eles vieram para alegrar a vida.

Na mesma época, seis anos atrás, passou a trabalhar com pesquisa de mercado.

E a pesquisar a vida.

 – Esse contato com as pessoas me faz parar e ver que os meus problemas não são tão pesados assim.

Daniela pesquisa o mercado e a vida Feira do Livro Ribeirão Preto

O procedimento é padrão. Daniela aborda uma pessoa, pergunta se ela topa participar de uma pesquisa, e, aí, é preciso paciência.

– Tem que lidar tanto com o “sim” quanto com o “não”.  Às vezes, eu fico magoada. Tem pessoas mais arredias… Mas também tem aquelas que se sentam e se abrem.

Ela relata que já aconselhou um moço que lhe confessou ter tentado suicídio, buscou ajudar uma jovem grávida e fez uma grande amiga entre as perguntas da pesquisa – e os relatos da vida.

– O contato com as pessoas é o que eu amo!

Acredita que ouvir e ser ouvido é uma ferramenta de mudança.

– As pessoas precisam de contato. Esse negócio de internet está distanciando as pessoas.

Por isso, nunca nega uma conversa.

– Eu mais escuto do que falo.

As amigas falam de tudo: “Você gosta de pegar o problema dos outros”, ela já escutou muitas vezes. E, admite:

– Eu sofro. Acabo pegando o que a pessoa me conta. Mas eu acredito que, assim, posso ajudar.

O horário de trabalho é bem flexível. Ela passa de seis a sete horas na praça.

Já concluiu que, “se não conversasse tanto”, em suas palavras, poderia terminar as pesquisas do dia mais rápido.

– Mas não seria tão gostoso. Não teria graça.

Pesquisar a vida, ela bem sabe, não é tarefa para horas contadas. Vai e vem apressado.

Na Feira Nacional do Livro, Daniela, que está sempre a escutar, contou sua história.

As pessoas, ela bem sabe, precisam ser ouvidas.

 

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