Danusa transforma lixo em ‘joia’

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 24 de abril de 2017. 

 

Danusa ajuda a mudar o mundo, transformando aquilo que ninguém mais quer em objeto de querer.

Começa por aqui, passo a passo, como toda grande mudança deve ser.

A arquiteta vê no lixo um caminho para a conscientização ambiental, uma forma de aproximar pessoas.

Embalagens de cosméticos e produtos de limpeza, latinhas, garrafas pet, pneus se transformam em bijuterias coloridas que a criadora chama de “Joias do Futuro”. E explica:

– É porque esse é o futuro. E, na verdade, ele já é o presente. Quando as pessoas olham uma peça assim elas despertam para a importância do reaproveitamento. E vamos precisar reaproveitar ainda mais, porque não há espaço para tudo o que estamos poluindo.

Pelas mãos de Danusa Teodoro Sampaio, 37 anos, cerca de 1,5 mil produtos jogados no lixo foram transformados em mais de mil brincos e colares, usados por “mulheres reais”, como ela define.

– São mulheres como eu, como você. A mulher brasileira, sem estereótipos.

A ideia é produzir mais a cada dia, alcançar mais e mais pessoas, promover o despertar. Matéria prima não vai faltar. Carência de conscientização o mundo tem de sobra.

– A ideia é difundir a preocupação com o meio ambiente. É possível tirar um produto do lixo e transformá-lo em uma peça. O lixo está aí. E é muito!

Danusa diz que sempre soube que faria Arquitetura, sem qualquer questionamento. O encantamento por construções começou na infância.

Na adolescência, produzia bijuterias usando fios de plásticos descartados de cadeiras de varanda. Aquelas cadeiras coloridas, sabe? Em que os fios são amarrados e formam o assento?

Danusa diz que fazia pequenas bolinhas de biscuit colorido, colocava dentro dos fios e fazia pulseiras. Vendeu até na faculdade, para comprar os livros que precisava.

Se formou arquiteta, fez mestrado em sustentabilidade e começou a trabalhar com paisagismo. Inseria a ideia do reaproveitamento nos jardins, com peças de ferro velho, pneus transformados em horta.

Foi em Ribeirão Preto, onde vive há sete anos, que ideia das joias surgiu.

Talvez plantada pela sementinha das pulseiras feitas de fio de plástico reaproveitado. Certamente, adubada pela ideia de sustentabilidade enraizada em Danusa.

– Eu sempre me perguntei o que as pessoas faziam com o lixo acumulado. Eu via as embalagens tão coloridas dos shampoos e ficava pensando: o que as pessoas fazem com isso?

A maior inspiração veio de um artista turco que faz acessórios e esculturas de garrafa pet.

Cinco anos atrás, Danusa começou a fazer algumas peças.

Passou quatro anos produzindo só para si. Os pedidos de quem conhecia o trabalho começaram a crescer, porém. Há um ano, ela decidiu criar uma marca e comercializar.

Desde então, já expôs em diversos lugares de Ribeirão e, pelo Instagram, recebe mensagens até mesmo de outros países.

  –  O meu foco é a conscientização ambiental. Quando uma pessoa me traz um material ao invés de jogar no lixo ela, conseguiu entender o conceito. E eu sinto que estou no caminho certo.

 

De uma hora e meia a três horas: é o tempo que Danusa leva para confeccionar cada peça. Além do material reaproveitado, utiliza prata para o acabamento dos brincos.

Para que o lixo seja joia, entretanto, é preciso um longo caminho.

A criadora explica que cada material passa por sete processos diferentes que vão da higienização até o polimento, com técnica autoral.

Todas as peças são baseadas em um conceito. As inspirações de Danusa estão na fauna, na flora, na arquitetura, na mulher real.

Está lançando uma coleção inspirada na Serra da Canastra. Mostra o colar de flores feitas com garrafa pet e explica que a ideia veio de um tucano que habita a serra.

– Foram seis meses de estudo!

Para dar conta de tanta arte, Danusa aprende também a reaproveitar o tempo.

Além da produção das joias, ela atua como arquiteta e dá aulas de Arquitetura em uma faculdade. Não reclama. Só agradece.

– Esse sempre foi meu objetivo. Ter um tripé: meu próprio negócio, continuar atuando como arquiteta para não perder a prática e dar aula para transbordar minhas impressões e ter uma troca de conhecimentos com os alunos.

Danusa quer ver o tripé crescer mais e mais.

Sonha com o projeto de transformar lixo em joia alçando voo.

Pensa em uma cooperativa de mulheres no reaproveitamento, em um estúdio onde possa compartilhar o trabalho com outros profissionais, em colocar um tuc-tuc nas ruas, recolhendo o material a ser transformado.

Quanto mais alto o projeto voar, maior será o alcance da ideia.

– Quando eu consigo transbordar minhas ideias para o meu trabalho, as pessoas se aproximam, perguntam como foi feito e, então, eu consigo estabelecer uma conexão com elas.

Danusa é sensibilidade. Fala do projeto com olho brilhando e voz calma. Coloca cada palavra no lugar, sem pressa, com vontade. Frase ou outra se emociona. Faz pausas longas e não segura o choro.

– As pessoas têm um descaso com elas mesmas. Estão desconectadas. Não prestam atenção no que estão fazendo.

Ela se incomoda com o mundo cada vez mais acelerado e cada vez menos humano. Se inquieta com a falta de educação, do olho no olho, da empatia.

Está longe, porém, de ter um discurso pessimista.

Acredita na mudança que ajuda a começar.

– Eu sou muito otimista. Não sei se vou conseguir ver o mundo da maneira como eu acho que ele pode ser. Mas quero muito contribuir e ajudar as pessoas a refletirem.

Quando a pergunta é ‘Como o mundo pode ser?’, ela faz silêncio por quase um minuto. E cai no choro de vez.

Tenta explicar. Elenca a justiça entre as classes sociais, a cooperação entre as pessoas, o egoísmo eliminado, o amor transbordando, o consumo consciente. Ao final, conclui:

– Eu não consigo expressar em palavras como o mundo pode ser melhor. Mas sei que tudo é à base do amor. Podemos ter soluções tão simples, se as pessoas conseguirem se amar…

Segue fazendo a sua parte.

É dentro de cada um que as grandes mudanças começam. Danusa está mais que disposta a mudar.

 

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