De reike à meditação: médica Catalina leva fé e terapias alternativas para hospitais

– Eu era totalmente descrente. Não acreditava nem que eu iria viver.

Catalina tinha entre 25 e 26 anos e recém começara a atuar como médica.

Caminhava pela praça XV, no Centro de Ribeirão Preto, quando teve um sangramento.

A gravidez nas tubas uterinas culminou com uma ruptura e foi preciso que um guarda a levasse no colo por 1,5 quilômetros, até a Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas, instituição onde Catalina já atuava.

– Foi um impacto muito forte saber que eu poderia morrer. E, como médica, eu sabia o que estava acontecendo. Sabia dos riscos de um sangramento abdominal.

Um colega de trabalho passou pelo corredor do hospital e, vendo o pranto dela, decidiu ficar.

– Ele pegou minha mão e disse que iria ficar do meu lado. Foi tão importante. Era a única coisa que poderia me ajudar. Foi um anjo…

Catalina, depois de alguns dias de tratamento, voltou bem para casa.

Não era a mesma, porém. No susto de quase-morte, com a perda do bebê, mudou tudo dentro de si.

– Ver o quanto Deus é importante na vida da gente me transformou. Eu aprendi, no medo de morrer, que eu quero muito viver.

Quase três décadas depois, a psiquiatra Catalina Camas Cabrera se tornaria coordenadora da Rede de Apoio Espiritual de Ribeirão Preto e Região, que hoje envolve cinco hospitais e mais de 150 mensageiros voluntários, representantes de religiões diversas.

O objetivo não é doutrinar, mas levar conforto através da espiritualidade, respeitando as crenças de cada um.  A rede tem foco em pacientes do setor de cuidados paliativos, mas se estende para todos os outros que precisam de apoio, além de familiares e equipe médica.

Catalina ainda promove a inserção de terapias complementares no tratamento de pacientes do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

– Acredito que o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto é o único hospital do Brasil com projeto de terapias complementares definido.

O hospital Beneficência Portuguesa também está começando a implantar as terapias.

Reiki, meditação, acupuntura, musicoterapia, massoterapia, Johrei somam forças com o tratamento protocolar.

 – Tudo isso só traz bons frutos. Traz bem estar do início até o final. Eu posso dizer porque já experimentei todas essas terapias e sei como elas são importantes.

Catalina, 60 anos, que não acreditava nem que iria viver, hoje é uma médica de fé.

Catalina Camas Cabrera psiquiatra Ribeirão Preto - História do Dia Entre um flerte e outro, a Medicina surgiu para Catalina.

Ela diz que nunca teve notas muito altas, mas só foi descobrir anos depois que o déficit de atenção poderia ser uma causa. No colegial, conheceu um moço e começou uma paquera.

Ele queria ser médico e Catalina ficava encantado ao vê-lo falar sobre o que queria fazer.

– Ele apareceu na minha vida para me mostrar o quanto sou apaixonada pela Medicina.

Passou na Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto em 1977, aos 19 anos e, quando veio conhecer as instalações, soube que não iria mais embora.

– Essa coisa de entrar pelo lago e enxergar o hospital lá em cima impressiona! Eu senti que vinha para ficar!

O suspiro de encantamento é o mesmo do primeiro dia.

Decidiu pela Psiquiatria quando começou a fazer terapia com um psiquiatra.

– Eu tinha medo. E ele me dizia: ‘Da loucura todo mundo tem medo’. Descobri que tinha a ver comigo: ouvir as pessoas, entender a natureza delas.

Em 1987, entrou no concurso para médica.  E, de fato, não deixou mais o Hospital das Clínicas de Ribeirão.

– O HC está dentro de mim.

Catalina Camas Cabrera psiquiatra Ribeirão Preto - História do Dia

Conta que, desde o início, sua atuação médica priorizava a humanização.

Atuou no setor de interconsultas (que cuida do hospital como um todo, focando na saúde mental); participou do lançamento do projeto Brincar, que leva alegria para as crianças internadas; ajudou a implantar o Seavidas (Serviço de Atenção à Violência Doméstica e Agressão Sexual); passou a atuar no setor de cuidados paliativos.

– Eu passei a ver o hospital como um todo. O sofrimento dos pacientes, da equipe… as coisas que tocam o paciente tocam a gente. Comecei a perceber a importância de humanizar mais o hospital.

A Rede de Apoio Espiritual foi criada em 2010, vinculada ao setor de cuidados paliativos, que atende pacientes que não têm mais a possibilidade de cura.

Catalina conta que havia muitas reticências na implantação de algo tão profundo.

– Aconteceram abusos, com o uso de religião e até de rituais dentro do hospital. Muitos hospitais haviam fechado as portas.

Começaram organizando uma equipe que pudesse pensar junto.

– Nós queríamos preparar pessoas para prestar apoio espiritual digno. Não são religiosos. São mensageiros. Vão até o paciente com disposição de escutar, conversar ou apenas estar junto. É preciso um perfil de abertura.

Hoje, todos os pacientes que têm interesse recebem apoio espiritual, sejam do setor paliativo ou não.  Além de toda a equipe médica.

Só no Hospital das Clínicas, em 2017, eram 165 voluntários cadastrados. A médica enfatiza que todos são treinados, para que possam entender a questão central do apoio que levam.

 – Não é religião. É apoio espiritual.

Apoio que vem em diversas formas. Os mensageiros visitam os hospitais diariamente, atendendo demandas de pacientes internados ou apenas oferecendo apoio a quem se mostra aberto a receber.

Muitos pacientes, que não têm mais a possibilidade de cura, encontram no apoio espiritual o conforto para a ansiedade, a possibilidade de realizar últimos desejos, a última oração.

Os pacientes que estão em tratamento são fortalecidos pela fé a continuar lutando.

– O paciente sente que pode conduzir aquele momento. Busca assuntos que interessam a ele. Sabe que tem alguém ali, disposto a ouvir.

Catalina Camas Cabrera psiquiatra Ribeirão Preto - História do Dia

Hoje, Catalina acredita em Deus. Um Deus que integra tudo e dá livre arbítrio.

– Eu não acredito em um Deus intervencionista. Nós podemos fazer o que for para evoluir. Nós temos que fazer nosso caminho.

Defende que o médico é, como todos, um ser humano.

– Essa ideia do médico frio é uma barreira. Na formação médica não há preparo para a espiritualidade. Isso está sendo feito agora, aos poucos.

A psiquiatra entende que a cultura do brasileiro pede mais que o tratamento convencional.

– Eu não conheço uma pessoa que tenha se tratado do câncer só com a medicina alopática. As pessoas buscam mudar a energia, a alimentação, as terapias.

Há 15 anos, todos os dias, pela manhã e à noite, ela tira 10 minutos para meditação. Acredita que a prática ajudou no déficit de atenção.

Quer continuar compartilhando o que tanto faz bem.

– Eu tenho muita energia para realizar!

Para Catalina, a vida é assim: feita de pedaços determinantes, como aquele de quando tinha 25, 26 anos e sentiu medo de morrer.

– A vida da gente é feita de histórias lindas. Há muita delicadeza. As coisas estão no sutil.

É uma médica de fé.

Acredita, acima de tudo, na profundidade de cada um. E na sua própria.

 

 

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Todos os 7 comentários
  • Monica
    Responder

    Queria participar como faço para fazer uma consulta com a médica obrigada

  • Bruna xavier
    Responder

    Como faço pra ser voluntária?

  • Maria Lúcia
    Responder

    Quero participar. Como faço pra ter o contato da Dra?

  • Maria Lúcia
    Responder

    Trabalho lindo! Precisamos interagir.

  • Joana Darc Santos
    Responder

    Quero ser voluntaria.

  • Carmen naswaty
    Responder

    Quero conversar com medica,tenho muito a contribuir p esse projeto.Por favor me procure

  • Nádia
    Responder

    Que história linda!!
    E que mulher forte! Minha admiração por vc aumentou ainda mais, Dra Catalina 🙂

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