Dona Odete transformou terreno baldio em ‘recanto’ do bairro Portinari

Abacateiros, cajueiros, amoreiras, pés de jaca e de café. Flores e plantas de todo tipo circulados por caminhos na terra: estrada das boas para a criançada andar de bicicleta! Passarinhos que cantam pela tarde afora e lagartos que se escondem.

O espaçoso terreno em meio ao bairro Cândido Portinari, zona Leste de Ribeirão Preto, tem cara de sítio onde a tarde passa sem o tique-taque do tempo.

Recanto da Vó Odete: foram os vizinhos que batizaram, assim no boca a boca. São 12 anos zelando pelo que é de todos, afinal.

– Aqui eu me sinto em paz!

O espaço só tem esse verde de paz pelas mãos da senhorinha sorridente que, aos 74 anos, garante não ter dores mesmo depois de horas na enxada.

Ouvindo dona Odete contar a gente custa a acreditar.

– Eu tirei uns três caminhões de lixo e entulho daqui. Você não acredita o que era isso!

Limpou e carpiu sozinha o terreno que – estima – tem mais de mil metros quadrados.

O local abandonado – cerca de 50 metros da casa de Odete – era despejo para a falta de cidadania.

– A mulherada vinha com as sacolas de lixo na mão e tacava aí. Cama, vaso sanitário, colchão, fogão velho: tinha de um tudo!

Tirou os entulhos e o lixo, combinou com o lixeiro do bairro uma parceria na coleta. Ela deixava na calçada e ele levava o que era possível. Conta que os entulhos maiores, que o caminhão de lixo não podia levar, ficaram meses à espera da Prefeitura.

Quando concluiu que não teria nem o mínimo apoio do poder público, jogou terra no monte de cacarecos e fez um barranco cheio de flores.

– Tá tudo aí embaixo. É só desenterrar. Mas eu não deixo desenterrar, não.

Relembra os vizinhos que lhe apontavam o dedo: “Essa mulher aí é louca!”, ouviu mais de uma vez. Um deles retornou ao bairro já depois de anos morando longe e se surpreendeu.

– Ele ficou encantado! Disse que me devia desculpas.

Odete Falvo da Silva jardim portinari Ribeirão Preto

Garante que nunca tirou o sorrisão do rosto. Ouvia os insultos e respondia com risada: “Louco é você que não cuida do ambiente!”, chegou a responder.

E continuou o trabalho, que não foi pouco.

Ainda hoje, depois de 12 anos de cuidados, há quem insista em passar por ali e descartar uma embalagem de suco, um vasilhame, uma sacola plástica. Há também os que não respeitam o caminho e arrancam as mudas que ela planta sempre que chove.

Até conversar com o traficante que vendia drogas no bairro ela foi. Sem medo. O motivo? Alguns meninos estavam construindo uma barraca em meio ao terreno, para servir de biqueira.

– Eu pedi numa boa. E ele atendeu.

É preciso persistência: nunca cansar de plantar a semente da conscientização.

Dar um jeito no que parece difícil, afinal, sempre foi rotina para uma Odete que começou a trabalhar aos nove anos e nunca mais parou.

Eu sugiro que ela coloque um banco no “seu recanto”, para sentar e olhar o verde. Ela recusa a ideia mais que depressa:

– Eu gosto é de andar, andar. Alisar as árvores!

Está em movimento!

Odete Falvo da Silva jardim portinari Ribeirão Preto

– Você vai escrever tudo isso aí? Vai ter que resumir!

Odete Falvo da Silva conta que cresceu em Tupã e aos nove anos começou a trabalhar em um hotel com a mãe, que era lavadeira e garçonete. Depois que o pai foi embora, coube a ela cuidar sozinha dos três filhos.

– Eu nem alcançava no balcão. Mas ajudava. Naquela época criança podia trabalhar…

Quando tinha 13 anos, a família se mudou para São Paulo. Odete fala, toda orgulhosa, que não ficou “nem 15 dias” sem emprego na terra da garoa.

– Eu sempre fui muito fucenta.

Seguiu a linha do trem e foi parar na fábrica de alpargatas onde a irmã trabalhava. O tio era dono e, depois de dar uma bronca pela audácia da menina em ir até lá, lhe arrumou um emprego na confecção das sandálias.

Com as mãos miudinhas, Odete fazia os sapatos infantis. Conta que produzia tanto que ajudava a orientar as companheiras de trabalho. Quando o primeiro pagamento saiu, porém, veio junto com a decepção.

– Todo mundo ganhou 5 mil cruzeiros. Só eu que ganhei 3,5 mil. Eu comecei a chorar, chorar e não parava.

Desatou o choro e levou sua insatisfação para a diretoria da fábrica. Foi tão enfática na cobrança dos seus direitos que no mês seguinte recebeu quatro vezes mais.

– Eu cheguei em casa com aquele monte de dinheiro. Nem acreditava! Gritei minha mãe e ia jogando as notas: uma por uma. Foi quando nossa vida melhorou.

Até então, a família dormia no chão e a mãe cozinhava em uma lata. Com o pagamento, compraram camas, colchão, um fogão e um rádio, para alegrar os dias.

Odete ficou cinco anos na fábrica de alpargatas e, quando a empresa fechou, passou a trabalhar em indústria elétrica, produzindo televisões. Diz que era chamada de “rainha da bobina” pela sua destreza em colocar as peças que davam cores à TV.

Quando a empresa mudou de lugar, ela trabalhou em uma grande fábrica de cigarros. E, depois, conseguiu emprego em uma escolinha municipal. Na época em que entrou, não era necessário concurso. Quando a exigência veio, garante que passou em terceiro lugar.

Se aposentou na vaga, antes de vir para Ribeirão.

O casamento com seu Antônio foi em 1973. Eles contam que eram amigos. E não bastou pedir em namoro. “Eu não namoro, não. Só caso”, foi a resposta da jovem Odete.

Se casaram cerca de três meses depois e estão juntos até hoje. É ele quem ajuda nos cuidados com o recanto. Não quer os louros, porém:

– Eu ajudo muito pouco. É ela quem faz tudo. Limpou sozinha mesmo.

Odete Falvo da Silva jardim portinari Ribeirão Preto

Odete e Antônio mudaram de São Paulo para Ribeirão Preto em 2000, acompanhando os filhos que trabalhavam por aqui.

Quando chegaram ao bairro Cândido Portinari, 18 anos atrás, quase não havia casas.

– Na nossa rua eram só seis casas! Não tinha quase nada. Era tanto mato! Muitos terrenos baldios!

Ele conta.

Foram vendo o bairro crescer. E ajudando a torná-lo melhor. A ideia de limpar o terreno surgiu de estalo.

Logo se vê que Odete tem “mão boa” para plantas. Basta olhar para sua calçada e se embrenhar pelo quintal: há flores e plantas para todo lado!

– É só jogar que dá!

Relata que começou um jardim na área externa no prédio onde morava em São Paulo.

– Até hoje tem orquídeas que eu plantei por lá.

Acostumada a viver em meio ao concreto, quando chegou a Ribeirão, em um bairro rodeado de áreas verdes, se encantou.

– Eu nunca mais tive problemas de saúde aqui. Em São Paulo minha pressão subia muito no frio.

Se inquietou quando viu um espaço tão grande usado pelo descaso. E arregaçou as mangas ao invés de esperar.

– Todo dia eu limpava um quadrado e plantava uma mudinha ali. Quando eu vi, aquilo tava muito grande!

Os motivos de tanto empenho?

– Eu não fiz por mim, fiz para as pessoas terem onde tomar uma sombrinha. Para as crianças terem onde brincar, verem como nasce uma flor. Essa foi a intenção.

Todos os dias, vai ao seu recanto. Limpa, planta novas mudas e já tem começado a ampliar o espaço, cuidando de um terreno ao lado que também está ficando abandonado.

As mudas chegam por doações de amigos, vizinhos e “pequenos furtos”.

– Essa daqui eu trouxe um brotinho lá da prefeitura. E essa daqui peguei uma folhinha na rua da Liberdade, em São Paulo. Olha como é linda!

Mostra a árvore já grandinha.

Como não tem água no terreno, leva em balde de casa, para aguar as mudas mais novas.

Passeando pelo “seu recanto” para me mostrar sua obra, fica encantada com cada folha nova que nasce.

– Ô, Tonhão! O limão tá cheinho de flor!

Comemora com seu companheiro Antônio.

No fim da entrevista, me convida para um bolo quentinho de laranja que havia feito só para a minha visita. Me pede que volte sempre:

– A gente gosta de conversar!

São muitos abraços durante todo a conversa.

– A vida? É fazer as coisas que não prejudicam ninguém. Tem que fazer para ajudar, só o que é positivo.

No Recanto da Vô Odete, as portas do carinho estão abertas. Todo mundo está em casa! É só entrar – e cuidar.

 

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Odete Falvo da Silva jardim portinari Ribeirão Preto

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