Dona Rosa colheu algodão, cortou cana, foi faxineira. Hoje, é empreendedora e realiza sonhos

Maria Rosa define a riqueza pelo estômago.

– Hoje eu me sinto rica. Para quem passou fome, eu posso ir no mercado e comprar o que eu quiser. Não importa o preço. Se eu estiver com vontade, posso comprar.

A pobreza, por muitos anos, também foi definida pelo roncar do estômago vazio. Pelos pratos e talheres separados. Pela porção de comida requentada, feita sob medida e devorada nos fundos da casa da patroa. Sem direito a repetir.

– A comida marca. Marca mesmo a vida. Eu acho que é por causa da vontade.

Quando conta sua história, Maria Rosa Francisco pontua o tempo pelo prato vazio ou quase.

Os pais moravam na roça e ela começou a colher algodão aos oito anos. Família de 12 filhos e sem comida para alimentar tanta gente.

– Minha mãe fazia um mingau ralo, com água e fubá. A gente jantava às seis horas da tarde e ela mandava a gente ir dormir para não sentir fome.

Quando completou 12 anos, os pais passaram a viver em usina. Rosa, então, cortava cana de sol a sol. Começava ao amanhecer do dia e só parava quando a tarde caía.

– Eu era bóia fria. Você imagina o quanto a gente sofreu?

Aos 18 anos, os pais foram demitidos da usina e, com um pouquinho que conseguiram de acerto, compraram uma casinha em Ribeirão Preto.

Ela, então, passou a trabalhar como doméstica.

– Naquele tempo, 50 anos atrás, empregada doméstica era escrava.

Rosa se lembra que os pratos, talheres e copos usados por ela e pelas demais funcionárias ficavam em um armário dos fundos, na área de serviços.

A patroa ou a responsável pela cozinha é que montavam o prato, com a comida da véspera, um pão duro e uma fruta.

– Mas aquilo para a gente era um banquete. A gente tinha passado muita fome… Quando vinha um copinho de suco, então! Agora, melhorou. A empregada senta na mesa com o patrão.

Hoje, o único motivo pelo qual Rosa passa vontade são os exames de sangue que insistem nos resultados alterados. O colesterol e a diabetes deixam regradas as comidas preferidas.

– Eu gosto de rosca, pão, pudim.

A fome ficou no passado. Há 14 anos vendendo água de coco e caldo de cana em um trailer na esquina do parque Carlos Raya, zona Sul de Ribeirão Preto, Rosa mudou a rota da vida.

– Hoje eu sou uma empreendedora!

Rosa Parque Raya Ribeirão Preto - História do Dia

Rosa já não precisaria, mas vai à garapeira duas, três, quantas vezes precisar em um só dia. Hoje, as netas e os funcionários cuidam do negócio. Mas a dona não tem tempo ruim.

– Se eu estiver aqui e precisar, sirvo cliente, corto coco, faço milho.

Diz que o corpo já não aguenta tanto, cansado pelo trabalho de uma vida.

Mesmo assim, acorda às 6h, cuida da casa, das netas, faz as compras da garapeira, administra o comércio. Obrigações de “aposentada”, em suas palavras.

A caminhada até chegar ao seu próprio negócio foi longa.

Trabalhou mais de 30 anos como empregada doméstica. Dobrava os turnos como cozinheira de um restaurante à noite e os serviços de faxina logo pela manhã. Quase não dormia.

O motivo de tanto trabalho eram as bocas famintas que tinha para alimentar.

Teve três casamentos.

O primeiro, aos 19 anos, foi feito de tristeza. O marido bebida tanto que perdeu o cargo conquistado no Exército. Os sete anos em que viveram juntos foram feitos de agressões.

– Ele bebia e ficava violento. Me batia… fui aguentando e sofrendo. Sofri, sofri, sofri.

Mas um dia, resolveu dar um basta. Se separou com duas filhas pequenas.

– Minha mãe dizia para eu dar as meninas, porque as condições eram muito difíceis… Mas eu criei minhas filhas.

Conheceu, então, seu segundo marido, que tinha sido abandonado pela esposa com três filhos pequenos. E decidiram unir as dificuldades.

– Ele falou que onde comia um, comiam 10. E decidimos juntar as crianças.

O casal e os cinco filhos viviam em uma casa de três cômodos, dividindo o mesmo quarto. Logo, Rosa engravidou da sexta criança.

– Não tinha banheiro. Era fossa. E para dar banho nas crianças, tinha que ser no tanque. A gente tomava na bacia. Naquela época, ninguém orientava a gente sobre anticoncepcional, essas coisas… hoje, eu falo para as minhas netas: tem que estudar!

O marido era tratorista e Rosa precisava fazer um turno de trabalho virar dois.

– Fomos criando todos eles.

Rosa Parque Raya Ribeirão Preto - História do Dia

Depois de 22 anos casados, ela ficou viúva.

– Foi logo quando a caçula ficou noiva. Por volta de 1995.

Mais uma vez, teve que aprender a prosseguir. Os filhos já estavam criados, mas as netas ainda não. Criou três netas, que hoje têm 18, 15 e 14 anos, e são sua paixão. De fala firme, Rosa só se emociona quando fala das suas meninas.

Foi por elas que continuou lutando com a vida depois da morte do marido.

Cerca de dois anos depois, conheceu o esposo atual em um baile.

– Deu certo!

Estão juntos até hoje, dividindo os louros do próprio negócio.

Rosa conta que quando parou sua perua na esquina do parque Raya pela primeira vez, em 2004, o bairro era só mato.

 – Tinha tantas árvores que era cheio de macacos.

A ideia foi do companheiro: “Por que a gente não compra uma perua para vender caldo de cana?”. Ela embarcou.

Parou o trabalho como doméstica que, aos 54 anos, ainda fazia. E passou a dirigir pela cidade vendendo caldo de cana.

O plano só foi possível, entretanto, graças a um grande sonho realizado anos antes.

– Eu sempre tive vontade de aprender a dirigir!

Colocava as netas na perua, deixava duas na escola e uma, muito pequenina, a acompanha. E vendia caldo no Centro, na via Norte, no Shopping.

– Era muito ruim. Não vendia mais de R$ 10 por dia…

Uma nuvenzinha saltou dos pensamentos quando viu a notícia da televisão. Tem o costume de assistir aos jornais todos os dias, religiosamente. E ficou atenta quando o apresentador anunciou o lançamento do Parque Raya.

– Naquele dia, nós levantamos cedinho, paramos na esquina do parque e vendemos tudo o que tínhamos de coco. Pegamos mais, e vendemos tudo de novo. É aqui que nós vamos ficar!

Nunca mais saíram. E, finalmente, viram mais do que o bairro crescer.

– Tudo o que nós temos veio do coco e da cana. As coisas foram melhorando.

Rosa Parque Raya Ribeirão Preto - História do Dia

No começo, Rosa vendia de 30 a 60 cocos em um domingo. Hoje, diz que chega a vender 700 cocos em um domingão acalorado.

Quem passa com frequência pelo parque, já a conhece. Tem gente que para no trailer – que tomou o lugar da perua – só para bater papo. Criançada que cresceu por ali. Amigos que a rotina fez.

– O prédio aqui em frente parava no terceiro andar. Tinha dia que passavam só três, quatro carros na rua! Olha como está hoje!

Rosa conquistou casa própria, carro. Em 2015, realizou o sonho de conhecer o mar. No réveillon de 2016, andou pela primeira vez de avião. Mas avisa:

– Não achei graça! Sou mais pé no chão. Gosto de firmeza.

Firmeza que é presente na criação das três netas. Leva suas meninas sempre consigo e o grande sonho da vida é ver as três formadas.

– Só depende delas. Eu falo para elas: enquanto eu puder, vou fazer de tudo!

O coração hoje, aos 68 anos, está cheio de alegria. O passado ficou no seu devido lugar. Se transformou em história de luta.

– Eu me sinto bem. E me sinto forte. Forte de aguentar tudo o que eu aguentei. Acho que essa força minha vem de Deus. Só peço a ele todos os dias para continuar me ajudando.

Aprendeu a curar as feridas que a tristeza causou, ao invés de se amargurar. E, então, vê a vida com olhos de bondade.

– A vida? É boa! Apesar de tudo ela é boa. Eu consegui tudo… eu me sinto rica. Porque vou ao mercado e posso comer tudo o que quiser. Quer dizer, hoje eu não posso, né? Mas é pela saúde!

Rosa define a riqueza pelo estômago. Hoje, ele está sempre cheio. A dignidade para vencer é o seu maior alimento.

 

 

Assine História do Dia por R$ 13 ao mês ou faça uma doação de qualquer valor AQUI!

Nos ajude a continuar contando histórias!

Comentários
  • Ana Luiza Rizzi
    Responder

    Que bela reportagem. Descreveu ao certo a figura de Dona Rosa!! Parabéns.
    Louros à jornalista pela sensibilidade…

Deixe um comentário

Pesquisar