EM MEMÓRIA: Há 58 anos, Francesco é um pedacinho da Itália em Ribeirão Preto

Nossa homenagem a Francesco, que fez parte da história de Ribeirão Preto e deixa legado para a eternidade. Ele morreu na noite deste sábado, 9 de setembro. A história dele foi publicada pelo História do Dia em julho. 

 

Passo a passo, Francesco chega ao balcão onde os tomates o esperam. Com a ajuda de uma assistente, coloca dentro do pote de vidro e vai jogando o tempero: alho, óleo, orégano.

Os 93 anos não permitem mais que o cozinheiro abra massas e faça grandes obras na cozinha.

Ainda assim, passo a passo, no seu ritmo, ele faz questão de ajudar a bater a sardella e dar o seu tempero ao tomate seco.

– Esse tomate é feito com a minha mão. Tudo que é feito com a mão, com amor…

Aproxima as mãos da boca, une os dedos e solta um beijo: simboliza a delícia.

Francesco Cammilleri Bella Sicília

Há 58 anos, Francesco Cammilleri traz a Ribeirão Preto um pedacinho de Itália.

Em 1989, quando recebeu o título de cidadão ribeirão-pretano, o jornal Fattos já dizia: “Ribeirão tem muito a agradecer à Francesco”.

Hoje, as homenagens e honrarias que recebeu estão penduradas na parede de entrada da cantina Bella Sicília, junto aos quadros da Itália e as muitas fotos que contam a história do italiano que deixou sua terra esfacelada pela guerra e veio tentar uma vida melhor no Brasil.

Título de comendador, carta do Senado Italiano, diploma de pioneiro no comércio do Centro de Ribeirão são alguns dos títulos que Francesco exibe com tanto orgulho.

Os 93 anos fazem a fala sair baixinha, devagar, difícil de entender à primeira vez.

Mas família sabe bem porque ele registrou em foto sua partida de barco da Itália e cada conquista em solo brasileiro.

– Eu penso que era muito importante para ele dizer à família italiana que estava bem. E deixar registrada para os filhos essa história que deu certo. Olha que cabeça ele tem!

É a esposa, Sílvia Papa Cammilleri quem diz.

 

Na foto da partida a família está toda reunida: 20 italianos e um cachorro, no estilo caloroso de ser, dando adeus a um Francesco de 30 anos e cheio de sonhos.

O pai serviu na Primeira Guerra Mundial e o filho na segunda, como motorista de tanque. A dor foi muita. Guerra é um tema que não se fala na casa dos Cammilleri.

Francesco a deixou em solo italiano, quando subiu no navio Castel Bianco em agosto de 1954 e desembarcou um mês depois, no porto de Santos.

– A única coisa que a guerra trouxe de bom foi a vinda do meu pai para o Brasil. Se não fosse isso, não estaríamos aqui hoje contando essa história. Nada mais.

É o filho Salvatore quem fala.

Francesco Cammilleri Bella Sicília

Para serem aceitos no Brasil, os imigrantes tinham que ter um emprego certo por aqui quando chegassem. Durante a guerra, Francesco fez amizade com os soldados brasileiros, chamados ‘pracinhas’, que arrumaram toda a papelada.

O emprego que constava no papel era falso, mas um dia depois de desembarcar ele já estava trabalhando em uma tradicional cantina italiana de São Paulo.

Na mesma semana, dividia a jornada em dois empregos: Fasano e Casa Italiana. Foram os dois únicos empregos que teve. Não demorou a se tornar dono do próprio negócio.

Em 1957, abriu em São Paulo sua primeira cantina, “Nel Blu Dipinto Di Blu”, em homenagem à música do italiano Domenico Madugno, que acabou fazendo um show particular por ali. Em turnê pelo Brasil, passou pelo Largo do Arouche e foi logo entrando quando viu o nome da cantina.

Nessa parte da história, Francesco reúne as forças na voz e canta um grave “Volare, ô ô. Cantare”, complementando a trilha sonora da Bella Sicilia, que, no rádio, é toda italiana.

Francesco escolheu Ribeirão Preto para construir a vida. Andou por cidades do interior e foi na cidade do café que quis ficar.

No dia 3 de novembro de 1959, abriu as portas de uma sorveteria na esquina da Barão do Amazonas com a General Osório, em frente ao antigo Cinema Centenário.

– O aval veio de Santo Antônio!

O filho Salvatore é quem diz. E conta a história cheia de fé que sempre ouviu o pai contar.

O dono do prédio na Barão não queria alugar o ponto a um italiano recém chegado, que só tinha passaporte.

Francesco já estava indo embora quando deu de cara com a mulher do proprietário subindo as escadas.

Quando saiu da Itália, a mãe entregou uma folhinha de Santo Antônio, garantindo que o santo iria abrir os caminhos por aqui.

A história é que a folhinha voou da carteira que Francesco estava a pôr no bolso e caiu direto no pé da moça.

Quando soube da devoção do italiano, o proprietário se convenceu de que era “boa gente”.

– Foi com aval do santo e o único imóvel alugado do meu pai!

Vinte dias depois de abrir as portas, como comprovam as notas fiscais emolduradas na parede da Bella Sicilia, ele já ampliava seu negócio.

A portinha virou uma esquina toda e, além do sorvete italiano, passou a servir pizzas, chopp, massas: o pedacinho da Itália começava a se formar.

Salvatore conta que, nessa época, o pai dormia dentro da sorveteria.

Francesco complementa. Fecha os olhos e deita o rosto na mão. Segundos depois, abre os olhos e conta: cuidando das máquinas de sorvete, ele quase não dormia.

Depois da cantina, abriu a primeira rotisserie de Ribeirão, já em prédio próprio, em frente à Prefeitura. E, logo após, construiu um edifício na rua São Sebastião, que até hoje leva o nome de seu pai como homenagem: Salvatore Cammilleri.

Há cerca de 25 anos, fincou raízes no prédio da avenida Independência. Há que se dizer que o nome, Bella Sicília, sempre foi o mesmo, desde a primeira portinha.

Mas dali, a cantina não mais saiu.

Francesco Cammilleri Bella Sicília

– Fiori della mia vita!

Francesco repete o elogio cada vez que Sílvia se aproxima.

– É minha esposa!

Faz questão de dizer uma, duas, cinco vezes.

A “flor da sua vida”, traduzindo o italiano, esteve ao seu lado desde o primeiro restaurante ribeirão-pretano.

Se conheceram pela pintura de um tradicional carrossel italiano na parede de uma das cantinas.

– Ele se apaixonou por mim à primeira vista!

À essa altura, não é preciso modéstia. São 57 anos de casados, três filhos e a união de duas famílias italianas em uma só. Uniram os Papa e os Cammilleri em uma Bella Sicília.

A cantina é toda Itália, toda família. Hoje, são os filhos e o cunhado de Francesco, Carlos Alberto, que ficam à frente da administração.

E assim deve ser nos próximos anos.

As fotos que contam história de meio século pelas paredes vão se multiplicando a cada quando.

Entre elas, estão as camisetas dos três times do coração de Francesco: na Itália, é Licata. Em São Paulo, é palestrino – como chama o Palmeiras. Em Ribeirão, botafoguense.

Francesco aprendeu a dividir o coração entre as terras que tanto ama.

O que brilha, porém, é a soma dos pedaços.

É italiano de raiz. Brasileiro de conquistas. Ribeirão-pretano de lar e tradição.

 

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Francesco Cammilleri Bella Sicília

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