Entre a tecnologia e a máquina de escrever, ressurge Rubens Lucchetti, mestre do Pulp Fiction

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 15 de agosto de 2017.

 

– Eu pensei que eu já estivesse esquecido.

Na casa labiríntica de 18 cômodos repletos de livros em Jardinópolis, Rubens F. Lucchetti tem passado as últimas décadas.

Autor de mais de 1,5 mil livros, ícone do Pulp Fiction, mestre do terror, ele não aposentou a máquina de escrever.

Há quase duas décadas sem publicar, porém, achava que seus escritos estavam fadados ao armário.

– Eu escrevia e guardava. Achava que tudo se perderia…

Nos últimos três anos, vendeu mais de três mil exemplares de livros.

Procurado por uma editora, Lucchetti – que esconde seus 87 anos na mente que pulsa à criatividade – voltou a publicar.

Seu retorno estampou as páginas do jornal The New York Times, um dos principais jornais do mundo. Além dos noticiários nacionais.

Começa a entrevista dizendo o quanto a internet faz as vendas físicas caírem, a imprensa agonizar, a vida passar mais acelerada.

Termina confessando que, em partes, se reconciliou com ela. O Facebook é o canal para divulgar seus trabalhos atuais e vender seus livros.

Da máquina de escrever verde e antiga, na mesa do escritório decorado com caveiras e bruxas, é que ainda hoje saem seus textos, porém.

O filho é o responsável por digitar as letras garrafais.

Nesse encontro de passado e presente, Lucchetti faz planos para o futuro.

E, quando já pensava estar no esquecimento, recebe da vida mais um reconhecimento.

– Eu estou realizado. Mas quero viver um pouco mais, para escrever mais coisas.

RubensLucchetti cineasta e roteirista Pulp Fiction

O pai era fotógrafo, mas Lucchetti diz que, por ser muito perfeccionista, nunca conseguiu viver da sua arte.

Foi a influência que teve. E, então, acha que o terror nasceu dentro de si, tanto quanto as palavras. O escritor de mais de 1,5 mil livros estudou até o primário.

Se encantou pelas artes bem cedo. Aos 14 anos, já trabalhava em rádio. E seguiu: jornalismo, desenho, cinema, literatura. Conta que “só não fez teatro”.

Por um tempo, a arte era intercalada com a administração de uma oficina de autopeças. Foi herança do avô, que Lucchetti recebeu a contragosto.

– Meu avô achava que eu tinha que ser comerciante. Eu detestava. E, claro, acabei perdendo a loja. Foi a maior felicidade. Aprendi a me virar.

A essa altura, o conhecimento em cinema era grande. Arrumou um emprego no Cine Centenário, aprendeu mais um tanto e na década de 60 foi se aventurar em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Entre os livros, os artigos de jornais e os roteiros, Lucchetti produziu por três anos os programas de José Mojica Marins, o Zé do caixão.

Em 1969, publicou também a única biografia do apresentador Sílvio Santos, em formato de quadrinhos, que está para ser relançada.

Conta em detalhes da conversa com o dono do SBT, que teve a biografia como insight já nas despedidas.

Rubens Lucchetti cineasta e roteirista Pulp Fiction

Grande parte dos milhares de livros de Lucchetti foram escritos com pseudônimos, com inspiração em escritores e roteiristas estrangeiros da época.

Os personagens inventados habitam a mente do autor. Em alguns momentos, ao mesmo tempo. Em um universo todo dele.

– Muitas vezes, quando acaba um livro, eu sou apavorado pelo personagem. O personagem que morre se queixa comigo. Ele só vai ressuscitar quando alguém estiver lendo o livro. Caso contrário, ele está morto.

Se aposentou em 1982, morando no Rio de Janeiro. Decidiu voltar para a região de Ribeirão Preto.

Escolheu Jardinópolis, o casarão no centro da cidade, porque precisava de espaço.

São quadros, esculturas, uma sala inteirinha de bibelôs que faziam parte da coleção de sua esposa e a parte que, para ele, é principal: 70 mil livros, guardados em estantes espalhadas pelo labirinto da casa.

 – A minha preocupação é saber com quem esse patrimônio vai ficar quando eu me for. Vai se perder?

Rubens Lucchetti cineasta e roteirista Pulp Fiction

Lucchetti preferiu inventar o seu universo, a viver o comum.

– Eu sempre tive horror da realidade. Tenho horror do mundo como está organizado. Quis criar um mundo meu. Ali eu sou como deus: eu crio, eu mato, da minha maneira.

Na pequena Jardinópolis, diz que passa desapercebido. Mal sai de casa. Vive o dia escrevendo, entre seu cenário, que parece ter deixado as páginas de algum livro.

– Escrever é um exercício.

No final do ano, publica o sexto livro da coleção encomendada pela editora Corvo. E prepara uma nova obra.

O tema, como seu dia a dia, mistura presente e passado.

A música eletrônica é a trilha sonora de “Cinco bonecas de olhos vazados”, que se passa em Berlim, tem personagem inspirado na realidade e homenageia ‘O Fantasma da Ópera’.

– A gente sempre fala que o último livro é o melhor. Mas, nesse caso, é mesmo. Estou conseguindo colocar todo meu conhecimento em literatura. É um livro experimental: mistura realidade e fantasia.

O tempo mostra que chegou. Lucchetti reclama que antes escrevia três, quatro livros por semana e hoje o processo é mais demorado.

O tempo é relativo: o autor, aos 87 anos, respira criatividade. E se sente renascer.

– Eu me sinto renascendo. Tive sorte de viver até essa idade. Esses livros se perderiam…

No enredo de suas histórias, ressurge intacto.

 

 

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 Rubens Lucchetti mestre do Pulp Fiction

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