Gika Bacci: conheça a ribeirão-pretana que está no The Voice

Não bastou a cadeira de Lulu Santos virar. Saber que já estava classificada no The Voice só fez o vozeirão da ribeirão-pretana vibrar ainda mais.

“Rolling, rolling, rolling on the river”¸ continuou vociferando com a música de Creedence e, concentrada no som, só viu que todas as cadeiras haviam virado quando abriu os olhos, depois de ir ao máximo no refrão.

Nessa quinta-feira (30), Gika Bacci enfrenta mais uma batalha no programa da Globo. Quer chegar à final, claro. Sua história mostra, porém, que tem um tantão de motivos para comemorar como se já estivesse lá.

A música foi refúgio para uma adolescente cheia de questões a resolver. O bullying na escola, por ser “a gordinha que gostava de rock´n roll”, como conta. O processo de aceitação da orientação sexual que, ela diz, sempre esteve consigo. A síndrome do pânico.

– A gente nasce gay. Desde que eu me entendo, eu gosto de mulher.

Era nos acordes fortes do rock que a menina se fortalecia quando a batida do cotidiano parecia pesada demais. Entre os sonhos que hoje ela nutre, está a criação de uma ONG que ofereça apoio a jovens que tentaram o suicídio.

– Eu sei o que é você pensar que só tem essa saída.

Na adolescência, foram duas tentativas de acabar com a vida. Era cantando que ela encontrava o seu motivo para seguir.

– Quando eu tô em cima do palco, não lembro de mais nada. Nada me atinge. É sagrado. A música pode mudar muita coisa.

Gika Bacci Ribeirão pretana no The Voice

Giovanna Bacci, 29 anos, nasceu em Ribeirão Preto e faz questão de dizer que cresceu nos Campos Elíseos.

– Sou bairrista!

A música não surgiu. Sempre esteve.

A mãe tinha formação em piano e o pai adorava cantar. Apresentaram Janis Joplin, Guns N´ Roses, Queen, U2, Raul Seixas, Elvis Presley: bagagem das boas de se levar.

Gika, então, cresceu buscando o microfone.

Aos 11 anos, ganhou seu primeiro violão, aprendeu a tocar, mas garante que cantava “muito mal”. Nesse primeiro momento, não teve apoio para sua empreitada musical. E, então, teve que ser persistente.

Dizia que ia na casa de uma amiga para ir aos ensaios, cantava escondida mesmo quando não conseguia entrar nos concursos da escola, que hoje rendem bom riso.

O apelido Gika surgiu nessa época, por autonomeação. Gostou do nome, usado por uma colega, e decidiu se apropriar.

Aos 17 anos, foi passar um período nos EUA. Conta que por lá se classificou em segundo lugar em um festival de música. E voltou cheia de fôlego.

Quando o amigo convidou para dar uma palhinha no bar, não economizou em agudos. E conquistou. Passou a fazer parte da banda Soul Bluesy, que ganhou festivais e abriu por dois anos o Sesc in Blues.

– A gente tinha 19 anos e tava abrindo o maior festival de blues de Ribeirão!

Nunca mais deixou os palcos. Divida os turnos, porém. Começou a trabalhar aos 18 anos, como garçonete. E passou por uma lista bem diversa de trampos: vendedora de telefone, caixa de uma grande loja de departamento, professora de inglês.

Entrou na faculdade de Publicidade, mas também prestou História e Teatro. Logo começou a atuar em agências. Era diretora de arte até entrar no The Voice.

– Eu disse para o meu chefe que, se eu passasse, iria me demitir. O The Voice, pela primeira vez na vida, me deu coragem de investir na música. É agora ou nunca!

Logo quando ganhou aquele primeiro violão, aos 11 anos, começou a compor. O CD “Limerence”, lançado há dois anos, é feito dessas canções de outrora.

Agora, um segundo álbum começa a ser produzido, com toda a energia de estar cantando para o Brasil. A ideia é lançar em 2019.

A esposa de Gika foi quem a acompanhou nas audições à cega do The Voice.

Depois do programa, Gika passou a receber mensagens de gente de todo lado, confidenciando seus medos e barreiras. Decidiu, então, participar da parada Gay de Ribeirão Preto e compartilhar sua história.

A primeira tentativa de suicídio foi durante o processo de se aceitar gay e ser aceita.

 – Eu ouvi que o que eu sentia não era amor. Que eu não merecia amar. Todo mundo merece amar, galera. Todo mundo paga suas contas.

Na parada, a mensagem que ela quis compartilhar foi essa:

– Homofobia é coisa séria. Tira vidas. A gente não pode ter vergonha de ser quem a gente é. Eu não tenho.

E vem de tudo isso sua vontade de criar uma ONG que acolha jovens envoltos pela ideia de que a morte é a única saída. Quem sabe apresentar a música como solução, dividindo sua trajetória.

– A música transforma. Quero muito poder mudar alguma vida com a música. Mudar alguma ideia. Eu acredito nesse poder.

Por tanta trajetória, a vitória no The Voice é vontade, mas não define a alegria.

Gika está determinada a levar sua música além. Em Ribeirão, não falta torcida.

Ela já curte a fama de ser reconhecida – mesmo de pijama acabando de acordar. Recebe mensagens, dá entrevistas. Se diverte com as viagens constantes para o Rio e com tudo o que tem vivido por lá.

– Eu conheci a Globo, aprendi o que é um estúdio de TV! É uma escola! O reconhecimento de todo trabalho até aqui.

Escolheu a Ivete como técnica, por ser a única mulher, em primeiro lugar. E por admirá-la como cantora.

– A galera acha que eu sou só rock`n roll, mas eu curto axé! A Ivete canta muito!

Agora, no time do Lulu, a comemoração – e a cantoria – continua.

Nessa quinta-feira (30), Ribeirão Preto cruza os dedos pela sua cantora, que já tem nota máximo nesse rock´n roll.

 

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