Há 10 anos, Mozart resgata livros não devolvidos da Biblioteca Altino Arantes como voluntário

Não importa se é domingo ou feriado. Mozart acorda antes das 8h e às 8h20 está no ponto à espera do ônibus.

Os destinos são muitos, mas o objetivo é um só.

Mudou de endereço, não estava em casa: dia sim, dia também é recebido com uma negativa. Mas volta quantas vezes for preciso.

Se tornou, aliás, especialista em tirar informações de paradeiro com os vizinhos. A causa é nobre e não há como recusar.

Há 10 anos, Mozart Brandespim, 69, resgata livros não devolvidos da Biblioteca Altino Arantes como voluntário.

Traz de volta ao acervo público exemplares que os leitores emprestaram e deixaram de devolver.

Nunca lhe ocorreu fazer a soma exata mas, certamente, já resgatou mais de mil livros.

Usa o transporte coletivo para sua empreitada. Chega a pegar dois ônibus para ir ao local e dois para voltar, já que mora no Jardim Zara, zona norte da cidade.

A única regra é estar em casa até às 12h, para saciar os roncos da barriga e tirar a cesta, que também é prática diária.

– Imagine quantos e quantos livros iam se perder?

Mozart voluntário da Biblioteca Altino Arantes Ribeirão Preto - História do Dia

–  Olha filha, aqui é tchá, tchá, tchá!

Dois minutos de conversa com Mozart são suficientes para um tantão de “tchá, tchá, tchás” entre as palavras.

Assim, de começo, a gente pensa que é parte do seu bom-humor irreverente.

Mas as palavras são feitas de histórias completas.

Mozart conta, todo-todo, que trabalhou como vendedor anos e anos.

– Vendedor é bom de conversa, cheio de tchá, tchá, tchá!

Começou aos 13 e depois dos 30, já como supervisor de vendas, viajava o Brasil trabalhando.

Foi em uma das viagens que o derrame aconteceu. Por sorte, estava em Jaboticabal, perto de Ribeirão Preto, onde mora há mais de 30 anos.

Diz que voltou dirigindo, sem perceber o que estava acontecendo.

– A viagem demora 40 minutos, não é? Demorou duas horas e meia!

Passou um mês no hospital, sete dias na UTI. De alta, não conseguia falar. Foram dois anos balbuciando sons, na tentativa de coordenar de novo a pronúncia.

Bom vendedor não vive de silêncio, ele bem sabe.

Aos poucos, foi se recuperando. Surgiu o “tchá, tchá, tchá”.

Para substituir palavras que ele não consegue se lembrar ou mesmo pronunciar pelas sequelas do derrame, encontrou a onomatopeia que é quase música.

E, com humor e disposição, veio também a ideia do voluntariado.

A paixão pelos livros foi herança do pai jornalista, que colocava o menino para corrigir seus textos.

Para manter a mente ocupada depois do derrame, Mozart buscava livros na biblioteca que fica dentro do prédio da prefeitura de Ribeirão e não demorou a se tornar leitor também da Altino Arantes.

Entre uma conversa e outra, teve a ideia de resgatar os livros que ficavam perdidos.

– O vendedor que eu era, tenho que pensar! Senão, como faz? E o quanto melhorou minha fala!

Ainda insiste em dizer que é o maior privilegiado com o trabalho que faz.

Mozart voluntário da Biblioteca Altino Arantes Ribeirão Preto - História do Dia

Mozart continua o viajante que era. Todos os dias, conhece um pedacinho de Ribeirão Preto em pequenas viagens.

– Até em Bonfim Paulista eu tenho que ir!

O processo tem seus métodos. Nas fichas que ele mesmo fez constam o nome do leitor em dívida, o nome do livro e o endereço.

Mozart passa na biblioteca e o funcionário dos cadastros de livros escreve as demandas de resgate.

Em casa, ele procura as direções do endereço na lista telefônica, já que não tem computador. E anota nas fichas quais ônibus precisa pegar, já que não pôde mais dirigir depois do derrame.

Com tudo em mãos, faz as visitas. Sempre uma por manhã, para não ter corre-corre.

Alguns dos livros resgatados são lidos por ele antes de devolvidos ao acervo

Quando não consegue resgatar o livro na primeira vez, anota os motivos na ficha e continua tentando por mais alguns dias.

Bem por isso, faz questão de trabalhar aos finais de semana e feriados.

– Em dia de semana, a maioria do pessoal tá trabalhando!

A maior tristeza é voltar para casa, mais de uma vez, de mãos vazias.

– Tem uns livros que a gente não acha. Aí é triste.

Foi o avô que escolheu o nome “Mozart”, ele conta.

– Você sabe quem foi Mozart? Meu avô sabia de tudo!

Fala sobre o avô que era músico e o músico que foi Mozart.

– Meu avô disse que além de eu ter o nome mais antigo do mundo, iria aprender música. Sabe o que eu aprendi? Tocar campainha! Mas eu sou viciado em ouvir música!

Cai na risada, como em toda a conversa.

E a gente fica se perguntando: quando ele bate na porta de alguém há outra alternativa se não chamar a entrar, servir um café e bater um papo antes de entregar o livro não devolvido?

Ele diz que já recebeu convites para ser voluntário em instituições de caridade.

– Mas e aqui? Como fica?

Não quer mudar de área.

– Até quando vou continuar? Ah, filha, enquanto eu tiver tchá, tchá, tchá eu continuo!

Termina com o mesmo humor dançante que o levou até ali.

E, antes de ir embora, preenche as fichas com os endereços que vai visitar naquele feriado prolongado de sete de setembro. Há de voltar com os braços cheios!

 

 

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Todos os 5 comentários
  • Iara Correa
    Responder

    Boa noite,
    Há um erro de digitação ou falta de recisão do texto. O Senhor da pauta tira a SESTA pós almoço.
    Att.

  • Octavio Verri Filho
    Responder

    Sem dúvida louvável o importante trabalho voluntário do cidadão MOZART. Cumprimentos.

  • Octavio Verri Filho
    Responder

    Cumprimentos ao cidadão MOZART. Excelente trabalho.

  • Marcus Brandespim
    Responder

    Daniela, foi pesquisando o nome do meu tio que cheguei aqui. Vc conseguiu descrever de forma tão perfeita o modo dele falar, que eu consegui ler seu texto, “ouvindo” na voz do meu tio.
    Parabéns pelo seu trabalho!

    • Melancia Comunicação
      Responder

      Marcos, fico muito feliz em saber! Escrevi essa história com todo meu coração. Uma alegria conhecer seu tio! Grande abraço!

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