Há 41 anos Jorge ‘da Banca’ é parte do Centro de Ribeirão

“Tá diferente, Jorge! Tá sumido!”

Em duas horas e meia, cerca de 30 pessoas passaram pela banca e cumprimentaram o homem que não é mais barbudo. Ele, por sua vez, respondeu a quase todas elas pelo nome.

Nem sabe dizer quantas décadas fazia que não tirava a longa barba branca.

– Muita gente me falava para ser Papai Noel. Mas quem contrata um Papai Noel cadeirante? Ninguém! O sistema é difícil.

A barba é o sinal escancarado das mudanças que moram dentro. Tirou por questões de saúde. Tem feito alguns exames, procurado se cuidar. Não fica mais na banca com a frequência diária que ficava.

O Jorge da banca, sabe? A banca de revista ao lado da rodoviária de Ribeirão Preto! Há 41 anos como dono da banca na esquina da avenida Jerônimo Gonçalves com a rua Santos Dumont, ele é patrimônio da praça Schimidt. Conhecido com ou sem barba.

Aos 64 anos, entretanto, vive uma nova fase. Nova e velha. O espirito contestador sempre foi companheiro. Agora, o peito está cheio de questionamentos. Alguns, feitos entre revolta.

– Como eu me defino? Um cara utópico. Que teve esperança. Acreditou que podia mudar o mundo. Eu penso que não valeu a pena tanta luta. O sistema é tão cruel que você vê moças se jogando de prédios. Hoje eu me sinto mais fraco. Parece que tem menos gente lutando.

Jorge Luiz Anuncio fala alto, dá tapas na mesa como se participasse de uma calorosa discussão. E está sempre a perguntar, como se para garantir que suas palavras estão chegando ao destino dos meus ouvidos, com um “en” estridente:

– Você tá entendendo? Tá entendendo?

Vai da ferrovia que passava pela Vila Tibério ao contexto político que tumultua o país e depois ao investimento bélico no mundo em questões de segundos. Poderia passar horas – quem sabe dias – compartilhando suas opiniões sobre o mundo. É assunto que não se esgota.

Em algumas teclas, no entanto, toca repetidas vezes.

– Por que não tem acessibilidade? Porque o poder público é negligente! Existe lei. Tem que cumprir a lei. Não tem uma academia para a gente, que tem deficiência. A piscina da Cava do Bosque era para a gente usar. Como que usa? Eu fui homenageado no Museu de Arte Moderna. Colocaram um painel meu lá. Mas eu não pude ver meu painel. Se eu for na Prefeitura, como é que eu vou entrar?

Depois de uma vida lutando por acessibilidade, Jorge vive a fase do cansaço. Conta que foi um dos criadores do Clube dos Paraplégicos de Ribeirão Preto, em 1973, ajudou a fundar o time de basquete em cadeira de rodas que integrou por quase trinta anos, brigou por transporte, inclusão.

Quando diz que não sabe se valeu a pena é disso também que ele está falando.

Disso e de mais um tantão de coisas que minam as esperanças.

– O nosso maior problema está no respeito ao próximo. Em aceitar a diferença. A gente precisa, em primeiro lugar, ter educação para respeitar as diferenças e os pontos de vista das pessoas.

Banco do Jorge Centro Ribeirão Preto

A avó dizia para o Jorge ainda criança: ‘Quem trabalha tem direito de comer’. Todo mundo tinha uma função na casa: independente de idade.

A dele era encerar e escovar o chão da casa, puxar água de poço com sarilho e, nas horas de “folga”, trabalhar enrolando pirulitos chamados de “martelinho”. A cada mês trabalhado ganhava um cruzeiro, que recebia como se fosse fortuna.

A paraplegia não era barreira. Nunca foi.

Relata que perdeu o movimento das penas com um ano e 10 meses, pela paralisia infantil.

– Não tinha a gotinha ainda.

Nem gotinha, nem fisioterapia e nem a mínima acessibilidade. Teve sua primeira cadeira de rodas já adulto, jogando basquete. Conseguia se equilibrar com muletas ou, quando não, se arrastava no chão para chegar aos lugares.

Na escola, não participava do recreio porque a dificuldade de chegar até a sala de aula pelas escadas não compensava a descida.

– Tinha os meninos que mexiam com a gente, mas tinha quem defendia. Eu tive um amigo que brigava com todo mundo para me defender.

Cresceu solto.

– Eles diziam que a gente era “menino de rua”, mas não porque morava na rua. A gente ia caçar, nadar no rio, brincar. Furava o corpo pegando mexerica, pegava amora no pé.

Quando terminou o colegial, passou três meses no cursinho e entrou em Matemática no Moura Lacerda. Explica que a faculdade era “avançada” para a época.

– Já tinha rampa, algo que não havia em quase nenhum lugar.

O pai era tecelão e trabalhou na Matarazzo, a mãe era dona de casa e tiveram, além de Jorge, outros três filhos.

Na década de 70, ele conta que a família vivia um aperto financeiro quando surgiu a possibilidade de terem uma banca de jornais. Começaram na rua São Sebastião, Centro de Ribeirão Preto, bem em frente ao Jornal A Cidade.

– As mulheres da minha família foram as primeiras a trabalhar em banca de jornal na cidade.

Em 1977, aos 23 anos, surgiu a possibilidade de expandir os negócios. Em 19 de abril daquele ano – ele diz a data exata – Jorge assumiu oficialmente a banca ao lado da rodoviária.

Antes disso, entretanto, ele conts que trabalhou no mesmo ponto, para um antigo dono. E seus familiares também trabalharam por ali. Viu, assim, a avenida nascer.

– Era deserto. Tinha duas seringueiras exóticas, dois pontos de carroça e atrás do Mercadão vendia-se frutas, verduras. Na avenida havia palmeiras imperiais. Tinha o João do Abacaxi. O Washington da melancia. O trem passava ali atrás. Eu vi nascer a avenida, a rodoviária, tudo por aqui.

Banco do Jorge Centro Ribeirão Preto

– É Jorge Luiz Anuncio, como de jornal.

O homem que nasceu com algo de banca no nome conta que trabalhava mais de 18 horas por dia vendendo jornais e revistas. Abria às 6h30 e ficava até meia noite, de segunda à segunda.

– Hoje não tem iluminação e nem segurança para isso. Nossa cidade era de cultura. Até hoje você vê que somos um povo hospitaleiro. Mas estão acabando com o patrimônio. Nós não cultivamos a história e nossa história é muito bonita.

Conta que passou em concursos públicos na década de 70, mas não quis assumir as vagas.

– O comércio na banca era bom naquele tempo. E eu sempre quis ter uma banca. Tinha facilidade para fazer compras e mais ainda para vender. O pessoal de Ribeirão gastava comigo.

O estilo dos frequentadores mudou com o tempo. Atendia de político a gente simples. A busca pelo jornal mal o dia amanhecia acabou. Hoje, as pessoas buscam entretenimento: revistas, palavras cruzadas, apostilas para concursos. As fichas para orelhão foram substituídas pelo crédito no celular. E ele se surpreende com alguns detalhes inusitados:

– Com tudo o que tem na internet, as revistas eróticas ainda vendem muito!

Durante a ditadura militar viu jornais e revistas serem confiscados das bancas pelos militares.

– De repente, vinha o comunicado falando que a revista tinha sido censurada e eles passavam levando tudo.

Em 1994, presenciou o tornado que destruiu Ribeirão Preto. Conta que muitas árvores foram arrancadas e muitas coisas ficaram amassadas e bagunçadas, mas a banca continuou de pé.

Em 2002, na enchente que afundou a cidade, perdeu tudo.

– Os amigos e a família ajudaram a levantar de novo. Quando terminamos de limpar aqui, depois de umas 22 horas de trabalho, eu até chorei. Mas nós recomeçamos sempre. Precisa ter ânimo para recomeçar.

Na reforma do Pronto Socorro Central ouviu a promessa de que a praça teria um banheiro que ele pudesse utilizar. Na banca não tem estrutura para isso.

– Eu nem bebo água no calor, para não ter que ir ao banheiro. Vou onde?

A promessa ficou só na palavra.

Relata que incentivou todo tipo de artista local.

– Todo mundo que escrevia um livro eu comprava. Lançava um CD, eu comprava. É muita história… Não dá para escrever tudo, Daniela.

Me faz um sobreaviso.

Se casou aos 29 anos com uma amiga da irmã que, segundo ele, se apaixonou pela sua voz. Tiveram três filhos e hoje mimam os netos.

Em meio a história profissional e pessoal, foi escrevendo sua história de resistência.

Diz que sempre participou de grêmios estudantis, entrou para o Partido Comunista Brasileiro (PCB), chamado Partidão, e relembra que conviveu com muitos dos nomes que lutaram contra a ditadura em Ribeirão Preto. Viu jornaleiros amigos serem presos, inclusive.

Foi candidato a vereador em 2012 e eleito suplente com 265 votos. Não chegou a assumir. E não tentou de novo.

– O meu perfil é de reivindicar direitos. Eu acredito que um governo precisa de oposição. Quem veja por outro ângulo, com outros pontos de vista. O povo não sabe a força que tem.

Continua bradando.

Banco do Jorge Centro Ribeirão Preto

O Jorge que tirou a barba não consegue equilibrar a balança do passado entre conquistas e retrocessos. O lado negativo, nos dias atuais, pende mais.

– Eu acho que o preconceito não melhorou em nada. A luta é grande e a gente não tem aliados. Me sinto renegado pela sociedade.

Tentando cuidar da saúde, esbarra na falta de equipamentos públicos.

– Eu deixei de ser atleta, mas tô competindo com a vida, como muita gente. E como faz?

E pensa no todo. Pensa muito.

– Se os governos conseguem acelerar para ter foguetes e armas, por que não ter cultura? Porque não acelerar a cultura, o respeito?

No começo da conversa conta que perdeu a neta de 13 anos atropelada em abril deste 2018. Repete a fatalidade algumas vezes.

– Entrei em depressão. Foi duro. Ela morava com a gente. Essa perda me deixou baqueado.

A perda que estilhaçou o peito também é parte dessa nova fase do Jorge. Quem sabe o peso que ela tem nessa balança que pende para o triste…

– Mas eu continuo esperançoso. Sou um sobrevivente. Um camaleão. Enquanto tiver uma gota, vou continuar lutando. A vida sempre vai sobrepor, tá entendendo?

Afirma que, pela desvalorização da história que vê pela cidade, não se sente patrimônio da praça da qual é parte há mais de quatro décadas.

– Não me sinto mais como patrimônio, mas sinto que contribui. Tenho amigos em todo lugar do mundo, que fiz através do trabalho. Sempre pensei no ser humano como meta.

Esperava o futuro com utopia.

– Eu esperava que o ser humano tomasse consciência de que a vida é cinco minutos. E passasse a respeitar a diferença.

A expectativa não foi alcançada. Ainda? É preciso acreditar no ainda.

– Só o amor me sensibiliza. Eu tenho fé. A possibilidade me ajuda a viver. Albert Einstein falava que a imaginação é mais importante do que o conhecimento.

Entre as muitas pessoas que passam pela banca, algumas param e trocam alguns minutos de prosa com o Jorge. Um fala sobre política e o outro sobre o frio que fazia naquele dia. Há aquela que dá só um abraço. “Tava sumido, Jorginho! Tá bonito”.

Com barba ou sem barba, com discurso inflamado ou palavras brandas, há 41 anos é o Jorge da banca.

 

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Comentários
  • Teresa Iqueda
    Responder

    Muito orgulho desse meu cunhado!

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