História de adoção: O amor de Tatiana e Lucas

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 14 de maio de 2017:  Dia das Mães! 

 

Mãe. Tatiana, quando menina, respondia com essa palavra às perguntas sobre o futuro. “O que você quer ser quando crescer?”. “Mãe”.

Conta que era a única entre as amigas que não colocava faculdade, carreira como primeira resposta. Ter um filho era seu maior objetivo.

E, quando conheceu alguém com o mesmo foco, foi amor certo. Casaram já pensando na família cheia de crianças correndo pela casa e espantando o silêncio para longe.

Logo depois do casamento, há seis anos, começaram a pôr o plano em prática, esperando um positivo que nunca vinha no exame.

Nos primeiros anos, acreditavam no que o médico dizia sobre as influências do psicológico. Depois, decidiram fazer exames que nunca apresentaram qualquer problema como resultado.

Mas o positivo nunca vinha.

Partiram, então, para a inseminação artificial. Foram três procedimentos “dolorosos”, como ela diz. Doía o corpo, doía a alma e, na última tentativa, decidiram que era hora de parar.

Adoção.

Era a opção válida e, para Tatiana, nada mudaria no plano inicial.

– Eu decidi ser mãe de qualquer maneira. Não importava a forma.

Entraram no cadastro à espera de uma criança de até cinco anos, sem deficiências. Poderia até ser um grupo de irmãos, como preencheram na ficha de interesses.

Mas o amor não lê fichas, foram descobrir pouco depois.

O amor de mãe, Tatiana Fagionato logo soube, é analfabeto para as coisas terrenas.

 

Hoje é o primeiro Dia das Mães em que Tatiana, 31 anos, é – enfim – mãe. “O que você quer ser quando crescer?”. Mãe, Tatiana é mãe.

Vai reunir a família e, como é seu primeiro dia de mãe, terá o privilégio de escolher o cardápio. E cardápio de mãe tem o que?

Lucas, nas fotos da família, está sempre sorridente. Exibe, sem economia, os dentinhos entre as bochechas fartas. Abraça a mãe, faz selfie, careta, se exibe para um ensaio.

Hoje é o primeiro Dia das Mães em que Lucas, 6 anos, é – enfim – filho.

“O que você quer ser quando crescer?”, Lucas não tem mais motivos para estar preocupado.

Com comprometimentos neurológicos, ele não se enquadrava nos critérios que Tatiana e o marido colocaram na ficha de interesses para adoção.

Mas abriu esse sorriso entre bochechas na primeira vez em que viu a mãe e pronto.

Foi há cerca de dois anos. Tatiana e o marido esperavam a adoção na fila.

Ela é psicóloga e atende crianças abrigadas. Uma colega de profissão pediu que fosse dar um apoio no atendimento de Lucas.

– Ele era um menino de comportamento difícil, não aceitava o contato de ninguém.

Tatiana diz, porém, que quando abriu a porta da sala, o menino de comportamento difícil abriu um sorriso e correu em sua direção.

 – Eu tive a certeza de que era ele. Ele era o meu filho.

Impossível conter o choro. O dela e o meu, que escrevo.

Em alguns meses, ela e o marido já estavam no processo de adoção do pequeno, ignorando os tantos comentários contrários.

– Até mesmo médicos me diziam que era para a vida toda, que a gente era muito novo, que a gente tinha coragem. Mas por que? Precisa de coragem para amar e receber carinho?

O amor, a essa altura Tatiana já sabia, não lê fichas e é analfabeto para coisas terrenas.

 

Lucas foi para casa no dia 1º de agosto do ano passado. A mãe diz que, quando chegou, o menino dormiu por horas. A preocupação logo foi esclarecida.

– Eu entendi que era aquele sono de paz, de tranquilidade em sentir: agora eu posso dormir sossegado, estou em casa.

A mãe diz que a lista de problemas de saúde do filho era extensa.

O que se sabe é que Lucas tinha uma família negligente, pais usuários de drogas e, com um ano de vida, mesma época em foi levado para o abrigo, teve meningite.

Não se sabe se as sequelas neurológicas foram da doença ou da gestação e parto conturbados.

Lucas, com seis anos, chegou em casa usando fraldas, sem saber falar uma palavra, com traqueostomia, comportamento difícil, considerado surdo, e, nos relatos de Tatiana, sem saber, sequer, brincar.

Hoje, a mãe diz que seu filho é “outro menino”.

 – Ele precisava de estímulo, amor, carinho.

A surdez foi descartada com exames e o pequeno já aprendeu as primeiras palavras. A primeira foi “pai”, a mãe não esconde.

O desfralde foi feito na primeira semana em família. A traqueostomia já está em processo de retirada e o comportamento é de uma criança. Criança que faz manha e dá carinho, faz birra e arranca suspiros.

Lucas, o menino que não aceitava contato de ninguém, frequenta a escola regular e se exibe em fotos abraçando os coleguinhas com aquele sorrisão no rosto.

Tatiana diz que, no condomínio onde moram, o pequeno conhece cada morador e faz questão de visitar aqueles que gosta.

Lucas é filho. Tatiana é mãe. Que encontro!

Hoje – como tem sido em todos os dias dos últimos nove meses – Tatiana e Lucas vão passar o dia juntos, sem economizar sorrisos que, certamente, vão estampar as fotos que eternizam esse primeiro dia de mãe e filho.

– Essa semana foi a primeira festinha das mães na escolinha. Eu nunca senti nada parecido. É o meu filho! É o meu filho que eu amo e não interessa o que ele tem. Eu sou mãe agora. Como eu esperei por isso!

De novo, não dá para conter o nosso choro.

Tatiana ainda acorda a noite para ver se o filho está respirando – e que mãe nunca o fez? Vez que outra, se pergunta se o sonho está mesmo acontecendo.

– Eu fico olhando para ele… a ficha ainda não caiu. É inexplicável!

Se irrita quando alguém fala que Lucas “será grato” a ela e o marido por “tudo que fizeram”.

– Ele vai ser grato? Não! E o que ele faz pela gente? Ele me ensina todos os dias.

Nessa maternidade tão única, as expectativas são igualmente singulares. O que o Lucas vai ser quando crescer?

 – Todo mundo idealiza faculdade, isso e aquilo. Eu quero que meu filho seja feliz. Tudo o que ele não foi nesses seis anos, eu quero que ele seja.

Tatiana é mãe. Mais que isso: é mãe do Lucas. E sabe que todo o antes serviu para trazer o agora.

– Como ele esperou por esse momento, eu também esperei. Eu precisei passar por esse caminho difícil porque eu tinha que ser a mãe do Lucas.

E o que tem no cardápio de uma mãe? Não é preciso responder. O amor que não lê fichas de adoção é o mesmo que não precisa de palavras para existir. E somar.

 

Crédito das fotos: arquivo pessoal

 

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Comentários
  • Marcia Ines V.Pecego Peruchi
    Responder

    Historia emocionante!!! Deve ser divulgada pra encorajar outras pessoas!!
    Tive o prazer de conhece-los pessoalmente!
    Domingo a familia estava na Caminhada e eu pude ver o tanto que o Lucas está lindo e saudavel!!!

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