Inspirada na filha Duda, Selma criou parques ‘inclusivos’ e espalha ideia por Ribeirão

Nesta quinta (21), às 19h, tem bate-papo sobre inclusão na exposição “História do Dia”, no Ribeirão Shopping! Selma Nalini, Sheyla Dutra e Vilmar participam de uma roda de conversas sobre o tema. A sala fica no setor Terra Vermelha, em frente ao quiosque da Havanna! 

 

Vale a pena ler de novo! História publicada em 5 de março de 2017!

 

A primeira vez de Duda no parquinho não teve lá muita alegria. O irmão mais novo brincou e ela ficou só de olho.

Não havia brinquedos que acolhessem Maria Eduarda do jeitinho que ela é.

A mãe se incomodou. Coração de mãe – não é segredo – tem amor igual por cada pequeno.

– A vida das crianças com deficiência é terapia, internação. E o lazer? É brincando que a criança se desenvolve, mas as crianças com deficiência são privadas do lazer! Eu não podia deixar a infância da Duda passar.

Selma Nalini resolveu que era preciso mudar. E arregaçou as mangas.

Foi preciso, aliás, muito arregaçar e um caminho feito de desafios e burocracia.

O projeto Duda Nalini – que não tinha outro nome para existir – foi protocolado em 2016.

Em junho de 2017, Selma, e seus parceiros da iniciativa privada, inauguraram o primeiro parque público acessível de Ribeirão Preto: Uber Sul, localizado na zona Sul.

Em outubro, Dia das Crianças, foi inaugurado o segundo parque, na Lagoinha, zona Leste da cidade.

Nos dois espaços os brinquedos são feitos para crianças com e sem deficiência brincarem juntas, a qualquer dia e hora. Há balanços com colete de segurança, gira-gira com espaço para cadeira de rodas, gangorra com trava e assento diferenciados, painel acessível.

– A ideia é transformar os espaços públicos em acessíveis, e fazer uma cidade inclusiva. Quando uma criança com deficiência brinca junto com uma criança que não tem deficiência, a gente iguala o ser humano.

Além dos dois parques em funcionamento, há projeto para a inauguração de mais três ainda neste ano. E a ideia se espalha e contagia outras iniciativas a nascer.

Agora, Duda pode dividir o brinquedo com o irmão mais velho. Esvoaçar os cabelos pretos no gira-gira e no balanço.

Solidária que é, não quis essa alegria só para si. Os parques que levam seu nome estão sempre cheios de crianças e pais vivendo a alegria – tão única – do brincar.

– Quando você tem um filho, você sonha em ensiná-lo a andar de bicicleta, passear no parque. Aqui, acontece a inclusão. Todo mundo tem seu direito respeitado.

Projeto Duda Nalini Parques Inclusivos Ribeirão Preto

Duda é a primeira filha de Selma Nalini e do marido. Foi esperada e cuidada desde o primeiro ultrassom.

– Eu já soube logo no primeiro ultrassom que ela teria má formação.

A gravidade, os pais só souberam depois do nascimento.

Não havia, no discurso médico, expectativa de vida para Maria Eduarda. Ela nasceu com uma má formação congênita chamada agenesia cerebelar.

O cerebelo é a parte do cérebro responsável por movimentos motores, pela aprendizagem motora, a fala.  Duda, caso raríssimo, não tem o cerebelo.

– Para os médicos, ela não tinha sobrevida.

Em outubro do ano passado, mês em que o segundo parque do projeto Duda Nalini foi inaugurado, a pequena completou 10 anos de vida, desafiando a ciência.

Duda não anda, não fala, usa sonda. Acompanha, porém, a mãe com os olhinhos e fica brava quando a foto demora a terminar. Respira sem aparelhos e sorri quando a mãe pede.

– Ela está muito além das expectativas. É um exemplo de vida para nós.

 

Quando a filha nasceu, Selma, que tinha 23 anos, deixou a faculdade e o estágio de Direito e passou a viver seus dias pela Duda.

Foi assim que, durante as internações constantes da filha, ela conheceu outros pais de crianças com deficiência e suas histórias. E passou a estudar, pesquisar e lutar pelos direitos dessas pessoas.

– Eu via as dificuldades das famílias… Umas não tinham alimentação, outras não tinham transporte ou fralda. Algumas, tinham tudo isso sobrando.

Começou, então, a ajudar essas famílias buscando o que sobrava em uma casa e levando para a outra. Buscando auxiliar, orientar, encaminhar para serviços de assistência.

A falta de lazer, entretanto, continuava a incomodar.

– Fora essa ajuda, eu me preocupava com o lazer. Muitas mães não saíam de casa para evitar os olhares preconceituosos ou porque não tinham aonde ir.

Começou, então, a organizar festas. Alugava salões, montava estrutura de enfermaria, contratava serviços e comemorava, com essas famílias, a festa junina, o Dia das Crianças e outras tantas datas. Chegou a juntar mais de 100 pessoas!

Mesmo assim, porém, não se sentia feliz. Percebia que muitas mães não podiam ir à festa por problemas com transporte ou porque naquele dia a criança não estava bem.

Quando o filho mais novo veio, a certeza de que era preciso mudar ficou mais forte. Coração de mãe despedaça quando a alegria não é a mesma para todos seus pequenos.

– A vontade de garantir a participação das crianças em lazer e cultura ficou muito forte. O João brincava, mas a Duda não.

Projeto Duda Nalini Parques Inclusivos Ribeirão Preto

A implantação do projeto Duda Nalini levou três anos. Selma tinha a ideia, mas precisava de formas para fazê-la virar realidade. Além disso, era preciso ultrapassar as burocracias.

Buscou parcerias com a iniciativa privada e conseguiu as autorizações necessárias da prefeitura, para a reforma do espaço público que, pela lei, já deveria ser acessível.

– O projeto auxilia a prefeitura a cumprir a lei vigente, que diz que 5% de todo equipamento público deve ser acessível.

Selma buscou inspiração na internet, mas não havia projetos similares para se espelhar. Ela acredita que Ribeirão Preto seja, com o projeto Duda Nalini, cidade pioneira em parques públicos totalmente acessíveis.

– Há brinquedos acessíveis dentro de instituições, mas não há um parque inteiro.

A praça Ali Youssef Abou Hamim, na Lagoinha, foi totalmente reformada para abrigar o parque acessível. O parque Uber Sul foi construído já pensando na acessibilidade.

– Valoriza o local, o bairro, a cidade toda. A cidade é para todos. E são espaços abertos, que as famílias podem ir conforme a disponibilidade delas. Se naquele dia a criança não está bem, tudo bem. O parque está sempre lá.

Com a parceria privada, além da construção e manutenção dos parques, o projeto organiza domingos com atividades interativas gratuitas para a criançada.

Projeto Duda Nalini Parques Inclusivos Ribeirão Preto

No ano passado, Selma criou também o Dia de Circo. Em parceria com o Circo dos Sonhos, que passou pela cidade, o projeto Duda Nalini distribuiu ingressos do circo para 263 famílias de crianças e adultos com todo tipo de deficiência.

Uma jovem cega, inclusive, quis ir à sessão. E teve sua vontade, mais que respeitada, comemorada.

– O circo também foi todo acessível. Essas pessoas lutam todos os dias. Precisam de lazer.

O projeto Duda Nalini, Selma explica, não é ONG. É vontade de transformar, e só. E muito!

Tudo é feito através de parcerias. E da vontade – imensa – de Selma.

Ela passa, todos os dias, pelos parques. Checa se a área está limpa, se os brinquedos estão em ordem e pede:

– A população precisa cuidar! É de todos!

Ali, está um pedaço seu. Um pedaço, principalmente, da sua Duda.

– É a realização de um sonho. A Duda, que poderia nem viver, completou 10 anos e está melhorando a acessibilidade da cidade. Ela virou patrimônio da cidade, porque tudo isso que foi construído é público.

O coração da mãe, agora, bate tranquilo.

– Eu tento fazer com que a Duda viva, tenha experiências novas. Se ela for embora hoje, posso dormir tranquila. Fizemos o bem em nome dela e beneficiando toda a cidade.

A primeira vez de Duda no parquinho não teve lá muita alegria.

Mas, agora, isso é coisa do passado bem, bem distante.

 

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