Kelsen registrou no punk e na pele a vontade de revolucionar

Começou com chiclete Ping Pong. Kelsen não se interessava em mascar. Tirava as tatuagens temporárias que vinham como brinde e colava pelo corpo.

Depois, na adolescência, um homem todo tatuado passou pela porta da escola Fábio Barreto e instigou tanto a curiosidade da molecada quanto a fúria da diretora, que foi de sala em sala dando o recado.

– Ela fez questão de falar que tatuagem era coisa de bandido, que não era bom.

Em pensamento, Kelsen começava a sua subversão.

– Eu pensava: ‘Ih, pode falar que um dia eu vou ter!’.

O episódio com a diretora foi no começo da década de 80. Em 86, aos 18 anos, Kelsen fez sua primeira tatuagem. Um brasão que, anos depois, foi descobrir ser o símbolo de seu sobrenome.

Kelsen Renato Bianco registrava, naquela primeira tatuagem, a certeza que sempre carregou.

– Eu sempre gostei do diferente.

Começava, na mesma época, seu interesse pelo punk que, assim como a tatuagem, era visto com olhos tortos e rodeado de ideias equivocadas – inclusive pelos próprios integrantes do movimento, como ele conta.

– Muita gente confundia com agressão física. O punk veio para chocar mesmo. Mas a violência está no modo de protestar, na música de peso, nas roupas.

Kelsen é um dos nomes do punk no interior paulista, com a banda Distúrbio Mental, criada em 1993. No palco, ele se transforma. Encarna a personagem Abigail Papillon, que criou há 18 anos.

Enfrentou, desde esse começo, todo tipo de preconceito. Diz que uma vez um motorista jogou o carro em sua direção quando andava na rua.

Tempos sombrios que, ao menos em parte, ficaram no passado.

Hoje, aos 49 anos, Kelsen é conhecido e querido por quem frequenta o Centro de Ribeirão Preto, região onde mora e trabalha, como vendedor de uma loja.

Quem troca um dedinho de prosa, logo entende que aquele careca de corpo todinho tatuado, piercings enormes e objetos de todo tipo pendurados em correntes é gente do bem.

– As pessoas têm que gostar de você como você é. Tive uma participação nisso: fazer as pessoas descobrirem que mesmo tendo tatuagem, piercing, você pode ser uma pessoa normal. Não é isso que muda o caráter de uma pessoa.

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Kelsen, ribeirão-pretano, é o caçula de três irmãos. O pai cresceu na roça, trabalhou no comércio e a mãe era dona de casa.

Até 1986, ninguém na família tinha tatuagem, envolvimento com o punk, pacto com o diferente.

– No começo, eles não aceitavam. Mas aprenderam a aceitar. A gente tem que ter personalidade. Muita gente deixa de ser quem é por família.

Ele sente que, inclusive, teve uma participação na difícil tarefa de ajudar a abrir a mente.

– De certa forma, minha história abriu portas para muita meninada que hoje em dia tem tatoo, piercing. Tem mães que trazem os filhos para fazer.

Quando Kelsen tinha 18 anos, cantar punk e tatuar o corpo era subversão.

– No começo, era protesto contra qualquer tipo de opressão, a favor da liberdade, contra as normas da sociedade.

Hoje, ele enxerga as marcas no corpo como parte de si.

– Na minha cabeça é como se eu tivesse nascido desse jeito, com tudo isso. Não me vejo de outra forma.

Até um certo ponto, ele ainda contava o número de tatuagens. Quando uma começou a se unir com a outra, parou de contar.

Também não sabe quantos objetos carrega na corrente amarrada na cintura. Mas lembra a história de cada um deles: o chaveiro de gatinhos presente de uma senhora, o sininho que alguém perdeu na boate, as chaves, as bonecas.

Só tira os piercings maiores para dormir. Os menores, diz que já não incomodam mais.

Cada registro que carrega no corpo tem um sentido, uma história.

Na cicatriz da perna, tatuou a data do acidente que causou o corte. O apelido que o amigo deu ganhou lugar na sobrancelha. Abigail, nomes das bandas que integrou: está tudo marcado ali, no corpo que fala por si.

A vontade de registrar, porém, vem conforme o humor. Kelsen conta que, em algumas épocas, fazia uma tatuagem nova a cada mês. Agora, está há dois anos sem tatuar.

– É uma arte feita na pele, para marcar um momento.

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Quem vê Kelsen no palco, como Abigail custa a acreditar na timidez que ele exibe no dia-a-dia, no falar baixinho, em tom suave.

Nos vídeos da Distúrbio Mental, Abigail é intensa desde as roupas. Até pirofagia a personagem faz, entre uma música de timbre agudo – quase gritado – e outra.

O nome foi pensado a partir dessa transformação. Kelsen diz que Abigail é em homenagem à sua mãe. Papillon é alusão à metamorfose que o punk faz no Kelsen do dia-a-dia.

– Significa borboleta em francês. É mutação. A lagarta que se torna outro ser. A personagem é essa mutação para mim. No palco, sou um artista.

No dia-a-dia, o ouvido de Kelsen se abre para muitos sons. Rock clássico, Punk Rock, anos 80.

Na noite, não é raro vê-lo caminhando pelos lugares do Centro, tomando um destilado.

Nunca aprendeu a dirigir e não tem carro. Sempre fora da curva?

– É isso.

Olha para o mundo de hoje e, depois de tanto brigar pela liberdade, acha tudo muito estranho.

– Tem tanta informação. Tanto acesso as coisas. Mas parece que, ao invés de progredir, as pessoas estão retrocedendo. Indo para o lado radical.

Diz que seu ateísmo vem do punk.

– O punk faz você questionar a tudo. Ver o contraditório. No final das contas, você acaba não acreditando em nada.

A vida?

– Quanto mais mexe, mais fede e menos você sabe.

Não faz planos para o futuro, não esquenta a cabeça.

Conta que deixou a escola no segundo colegial. E até tentou terminar os estudos, mas um desvio a caminho da matrícula mudou os rumos.

– Eu estava com dinheiro para me matricular, mas vi um disco importado do Sex Pistols. O lado punk falou mais alto. Comprei o disco.

Hoje, não tem mais o disco, que se perdeu entre os muitos empréstimos para os amigos.

Continua, porém, escolhendo o caminho que quer, sem dar lado para as críticas.

Ponto fora da curva? Ou seria o trajeto de uma curva própria?

 

 

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Todos os 8 comentários
  • Josiane
    Responder

    Lembro na minha adolescência que sempre via o Kelsin nos eventos de punk/rock, sempre chamou muita atenção suas tatuagens e piercings. Acho muito bacana aquele que é o que tem vontade de ser… Ah! já tive também a oportunidade de ver a banda distúrbio mental ao vivo e não sabia que ainda estavam na ativa. Parab´éns Kelsin, por ser Kelsin e pelas pessoas envolvidas nesse projeto, muito legal!. Eu aproveito para dar uma dica, aqui em casa o pessoal adora skate, então..uma sugestão seria contar a história do Ruan Felipe (há muitas mate´rias sobre ele na intenet), uma história de superação e se quiserem falar mais sobre o skate, outra sugestão seria o Leonardo Spanghero. Um abç.

    • Daniela Penha
      Responder

      Olá, Josiane! Muito obrigada pelo comentário e pela dica de história! Vamos buscar, sim, histórias com o skate! Grande beijo!

  • Jonathan C Batista
    Responder

    Dani esses dias pensei em te escrever pra indicar a história dele. Fiquei feliz em ver aqui

    • Daniela Penha
      Responder

      Muito obrigada, Jonathan!

  • Erika Tagliacolli
    Responder

    Eu ja vi ele algumas vezes andando ali no centro,muita gente que vê se assusta mas pra mim e normal,ele gosta de ser diferente ,e a mesma coisa que uma pessoa com defeciência todos olha com dó,pena,mas eles que fazem a diferença no mundo,gostei desse documentario.

  • Suzy
    Responder

    O conheço desde a primeira tatoo! São muitas histórias juntos! Sua maior qualidade : Força no querer! Abraços, amigo!

  • Lydia Homs Aleppo
    Responder

    Falar de Kelsen e não associa-lo ao mundo do movimento punk,é mesmo que ocultar a história.
    Sou admiradora dele,é a própria história viva do Rock.
    Vejo ele sempre pelo Centro da cidade.

  • Marcos Costa
    Responder

    Bom dia, poxa que legal esta matéria, sou praticamente da mesma geração que o Kelsen, hoje estou com 48 anos, não estudei com ele, mas me lembro de encontra-lo nas cercanias desta maravilhosa Ribeirão, e me lembro dele exatamente como foi contato aqui, hahaha, lembro dele de cara limpa sem tatuagem, mas logo ele começou a radicalizar, Fantástico.
    Já faz bastante tempo que estou fora de Ribeirão, e foi bem nostálgico, poder acompanhar esta história, pois apesar de conhece-lo, não tinha conhecimento desta trajetória.

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