Lar Padre Euclides é morada de Varne, pintor de obras premiadas

O quarto fica nos fundos, rodeado de plantas. Não fosse a porta que virou obra de arte, seria mais um aposento.

Mas as cores chamam os olhos. “Lembra Portinari”, definiu um jovem. No Lar Padre Euclides de Ribeirão Preto vive um artista, logo se conclui.

Não passa desapercebido. No hall de entrada da instituição, as telas dão boas-vindas a quem chega. Além das cores que espalhou pelo seu quarto, compartilha suas pinturas pelo espaço.

Pintar foi a forma que Varne Acosta Abrão encontrou para aliviar o turbilhão que habita a mente. A corrupção, as guerras, a religião, a revolução, o estado, amor: aos 78 anos, a rotina é um constante pensar.

– Não é difícil pensar tanto… O mais difícil é desligar os pensamentos. É uma pequena luta.

Tintas e pincéis são suas armas. Transforma sua luta interna em formas e cores. E avisa: sua arte é “modernista”.

 – Não é uma arte de racionalidade, abafamento, compostura. É escândalo, exposição, instinto. Eu não estou preocupado com a verossimilhança. Se está muito explícito, eu deformo. Cada um tem a sua interpretação.

Viveu na Bahia por mais de 40 anos. E se descobriu artista por lá, encantado pela paisagem da cidade de Valença, tão presente nas suas obras.

– Eu fugi de São Paulo pelo rigor do racionalismo. Tudo é horário, planejado, escravizado. A Bahia é instinto, alegria, natural.

Acredita que já deu vida a mais de mil obras. Pintou para a galeria Prova do Artista, em Salvador, junto a outros grandes nomes. Expôs no Museu de Artes Modernas da Bahia e foi premiado em salões.

Conta que há obras suas espalhadas dentro e fora do Brasil: França, Alemanha, EUA, Inglaterra, Espanha, Portugal.

O quarto rodeado de plantas no Lar Padre Euclides guarda tesouro das artes plásticas.

Varne pintor Lar Padre Euclides Ribeirão Preto História do Dia

Varne diz que até os 40 e poucos anos foi “um cara normal”. A pintura chegou já depois de muita trajetória.

– Mas eu deixei a normalidade. Ainda bem! Somos aquilo que a sociedade faz de nós. Mas o que nós fazemos além daquilo? Eu faço arte. A arte não tem limites.

Nasceu e viveu até os 35 anos em São Paulo. Conta que na adolescência jogou futebol no Corinthians e no Juventus.

– Mas na época, o futebol não tinha esse glamour. Minha mãe me fez sair para trabalhar.

Aos 12 anos, trabalhava na limpeza de uma farmácia, depois se tornou atendente, foi office boy, mensageiro. Mas nunca deixou de estudar. Um dos lugares preferidos era a Biblioteca Mário de Andrade.

– Eu me vanglorio do fato de que, muitas vezes, ao invés de estar desfrutando da alegria, da recreação com os meus amigos, eu estava na biblioteca. Meus pais eram semianalfabetos e nunca abriram um livro. Essa inquietude é uma coisa que nasce com a gente.

Depois do colegial, chegou a fazer dois anos de Química Industrial, mas reprovou no inglês, deixou o curso e hoje entende que “há males que vem para o bem”. Cursou, então, desenho arquitetônico por três anos.

E, logo nessa época, passou a trabalhar com pesquisas de opinião.

– Entrevistei mais de 50 mil pessoas em 30 anos trabalhando com pesquisa. Isso me enriqueceu. Conheci a pobreza, as pessoas.

Fazendo pesquisa surgiu a possibilidade de morar na Bahia. Se mudou em 1973 e se casou no ano seguinte. O casamento durou 12 anos e lhe trouxe três filhos.

Morou em Salvador nos dois primeiros anos em solo baiano e fala, orgulhoso, que passou mais de três décadas vivendo em Valença, município de entrada para Morro de São Paulo.

– O visual de Valença é instigante. São barcos de pesca, cultura africana, vida simples.

A pintura surgiu a partir da década de 80, depois do divórcio.

– Antes, eu tinha que interiorizar minhas expressões. Dar conta de manter a família.

A primeira obra, ele diz, foi uma imagem enorme de Valença. Logo depois, participou de um salão, foi premiado e teve o incentivo que precisava para continuar.

 – A arte é terapia. Liberta de toda a prisão, a tortura que nos foi imposta pelo estado, pela cultura, pela religião. Você é você. Há um encontro com o que nos roubaram.

Varne pintor Lar Padre Euclides Ribeirão Preto História do Dia

Varner veio para Ribeirão Preto em 2014.

Já conhecia a cidade de longa data, por familiares e a filha que vive aqui.

O que lhe trouxe, porém, foi amor: acaba confessando.

– Eu sofro por amor. Me apaixono muito!

Não era preciso dizer. O vigor que coloca em cada palavra releva seu perfil constantemente apaixonado.

Está morando no Lar Padre Euclides desde que chegou e agradece a receptividade e os cuidados que tem por lá.

Revela que o sonho mesmo é viver em um container.

– Um espaço de 2,5 metros por 6. Mas tem que estar plantado em um jardim.

Logo, porém, volta atrás.

– Tenho quase 80 anos… não devo me arriscar tanto… Não tem ninguém para socorrer. Aqui no lar, se eu morro, tem gente para chorar.

Cai na risada. E diz que não tem medo da morte.

 – É tão natural… quero morrer tranquilo, como um passarinho. A morte é uma grande sacada. Às vezes, o fato de existir a morte me faz até acreditar em Deus. A vida é limitada.

Exibe a série “Os excluídos”, que pintou recentemente. Os tons em cinza e preto refletem a angústia que assola o momento atual. E os assombros – como o preconceito – que se repetem desde que há humanidade.

– Não posso dizer que sou feliz. Não dá para ser feliz quando se vive em um mundo de injustiças, crueldade, mentira.

Adverte, porém:

– Também não faço disso paranoia. Sou bem-humorado. É o que me salva.

Termina contando a história da sua paixão atual, cheia de dores e delícias, como é a vida e a arte. E a união tão bela entre arte e vida que ganha as telas pelas mãos do artista.

Varne coloca em cores o turbilhão que habita a mente. O turbilhão que é a vida.

 

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