Lê combateu a depressão com zumba e hoje é professora de dança

A história de Lê se divide em dois grandes capítulos: antes da dança e depois dela.

– A dança me salvou. Eu poderia estar morta.

O sobrenome rítmico já sugeria algo.

– É Lê Gambalonga. As pessoas acham que é artístico, mas não é. É meu nome mesmo!

Foram 36 anos para encontrar a dança que já morava em si. Dançando, ela encontrou a rota para vencer a depressão que já fazia morada havia mais de três anos.

Foi o marido quem incentivou. Viu uma propaganda da aula de zumba na televisão, gravou com uma câmera digital e insistiu para que Lê assistisse: “É zumba! Vamos fazer?”.

A resposta foi “não” mais de uma vez.

– A depressão é uma tristeza que come a gente por dentro. É uma falta de perspectiva. Eu achava que a vida tinha terminado. Que não fazia diferença na vida.

Lê engordou mais de 50 quilos desde que a depressão “pegou de vez”, como diz. Ela já havia tido momentos depressivos, mas foi na gravidez da terceira filha, em 2009, que a doença lhe tirou a vontade de viver.

– Eu sabia os horários em que o ônibus passava na rua em frente de casa, sempre em alta velocidade. Algo dentro de mim dizia: se joga!

Mas o marido não era de desistir fácil. E Lê também não.

A menina que pedia comida na rua com o irmão para ter o que comer e passara toda a adolescência trabalhando na roça já sabia de onde vem a força.

Depois de muitas recusas, ele tomou uma decisão drástica. “Vou deixar a câmera aí para você ver o vídeo. Eu não sei mais o que eu faço!”.

– Eu não me cuidava, penteava os cabelos, depilava. Só comia. Um dia ele me disse: ‘O que eu faço para ter minha esposa de volta?’.

Lê confessa que nesse primeiro momento topou fazer a matrícula na academia pensando no marido, não em si.

– Eu fui, mas não gostei. Na primeira aula, todo mundo ia para a esquerda e eu para direita. Falei para o professor que eu não voltaria mais.

Mas o professor também foi insistente.

– Ele explicou que eu não iria chegar lá e sair dançando. E me propôs: ‘Se dê isso de presente!’.

Lê aceitou o convite. Começou a frequentar as aulas, a gostar, a sentir a mudança.

De 2012 para cá, ela se tornou professora de Zumba e Ritmos, entrou na faculdade de Educação Física, passou de 123 quilos para 63, esbanja saúde na disposição que a faz dar aula todos os dias da semana em três academias e um clube.

Aos 42 anos, não pensa em parar.

– Eu sinto que ainda tenho muita coisa para fazer nessa vida!

Compartilha sua história nas redes sociais e nas aulas. Quer dividir o que faz bem.

– Eu não tive quem fizesse isso por mim. Quero fazer isso por elas, porque sei o quanto esse apoio faz falta. Quando eu entro na academia todos os problemas ficam para trás.

 

Quando Lê ainda era muito pequena, seus pais se separaram. A mãe não conseguia ser presente. Então, aos seis anos, ela e o irmão saíam pelas ruas de Barrinha pedindo comida.

– A gente passou muita fome. Algumas pessoas ajudavam, outras chegavam a soltar cachorro em cima da gente. Nosso pai e nossa mãe foram a rua.

Uma tia dona de hotel sempre entregava um saco com pães duros, que a menina recebia como o mais delicioso presente.

Lê não esconde. Teve dias em que a fome era tanta que ela e o irmão entravam nos mercados e furtavam as mercadorias.

– Era o dia mais feliz da vida. A gente colocava a comida debaixo da blusa e ficava feliz por ter o que comer.

Aos 11 anos, ela passou a trabalhar no corte de cana e colheita de amendoim. Aos 13, “comandou” uma pequena revolução entre a turma de trabalhadores rurais.

Chegaram para colher o amendoim, mas o patrão não havia roçado a plantação.

– Era muito difícil colher amendoim sem roçar. Ele queria que a gente arrancasse o amendoim. Eu consegui levar todo mundo embora. Saímos andando pela pista.

Só frequentava a escola nas semanas de prova.

– Naquele tempo não se reprovava por falta. Mas na segunda série eu reprovei porque não dava tempo de estudar. Me doeu tanto que prometi trabalhar na colheita, mas continuar estudando.

Continuou na roça até terminar o Ensino Médio. Depois, trabalhou como doméstica, garçonete e babá para pagar o curso de auxiliar de enfermagem que conseguiu concluir.

Aos 19 anos, engravidou da primeira filha, namorando com o homem com quem ainda hoje divide a vida. O marido que lhe incentivou a dançar.

Já mãe, conseguiu passar em um concurso para auxiliar de enfermagem em uma unidade de saúde da prefeitura de Pontal.

Ficou no emprego até 2004, quando veio com o marido para Ribeirão Preto. Por aqui, passaram a trabalhar com fotografia. Criaram uma empresa e tudo ia bem.

Em 2006, engravidou do segundo filho. E, com problemas na gestação, precisou ficar de repouso. Explica que, para substituí-la na empresa, o marido fez sociedade com um amigo. Diz que tomaram um golpe do sócio e ficaram sem nada.

– A gente só não passou fome porque meu sogro e minha sogra ajudaram.

Nessa época, Lê teve o primeiro momento de depressão.

– Mas eu não me afundei. Consegui ficar bem.

Retomaram as contas, conseguiram parcerias de fotografia em buffets e as coisas melhoraram de novo.

Em 2009, veio a terceira gravidez. E a depressão que rondava chegou de vez.

– Eu achava que a vida tinha acabado. Me perguntava: o que eu tô fazendo aqui?

 

Lê entende que o caminho para vencer a depressão é longo. Não há solução imediata.

– Nada acontece por milagre ou por acaso. Você tem que ser seu milagre todos os dias.

As primeiras semanas de academia com aula de dança não foram boas. Foi preciso persistir, porém.

– Eu fiquei com a pele e os dentes deteriorados, tinha pressão alta: tudo estava ruim. No primeiro ano de dança eu ainda achava que as pessoas estavam me condenando, me tachando de gorda.

A melhora foi progressiva. E quanto mais conquistava, mais queria conquistar.

– Mudei totalmente a minha alimentação.

Em 2015, quis ir além. Fez o curso e passou a dar aulas.

Hoje, tem aulas todos os dias da semana. Inclusive aos finais de semana.

– Se eu não posso ir, sinto falta. A dança me energiza. Faz meu dia melhor.

Lê criou uma página no Facebook para compartilhar sua história. Quer plantar amor próprio.

– A dança transforma porque ela une as pessoas em um propósito só. Quando você está dançando em grupo, você não é um. Mas um pedaço do todo. Eu sou todas elas dançando. É união, força, amor, vida!

Na academia, deixa todos os problemas guardados. Coloca bom humor em cada fala e faz questão de ser mais que professora.

– Chego sempre antes para conversar com elas. Saber como foi o dia, como estão. O objetivo é que elas se sintam felizes. Eu me dou de presente para elas e elas se dão para mim!

Está cursando Educação Física porque quer agregar mais e mais conhecimentos para compartilhar. Mostra, orgulhosa, seus vídeos dançando. A filha de oito anos está sempre junto. Segue os passos da mãe.

O marido, grande incentivador, também entrou na “dança”. Fez dieta e colocou os exercícios na rotina. Entraram juntos no ritmo do bem-estar.  É ele quem faz as fotos de Lê dançando que estampas essa história!

A tristeza de outrora é passado. Canção que não toca mais. O ritmo – como a vida – é de festa.

– Dançando eu me sinto livre. A mulher mais poderosa do mundo! Me sinto muito feliz e agradeço todos os dias!

Nessa história há muito o que festejar! Solta a música!

 

Crédito das fotos 2, 3 e 4: Jorge Dias

 

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