Maria venceu a dureza da vida com leitura

Esta história foi contada na intervenção cultural “Qual a sua História do Dia?”, na Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. 

 

O livro que fez Maria de Fátima se apaixonar pela leitura foi “A Ilha Perdida”, de Maria José Dupré. Ela tinha 16 anos e já estava fora da escola havia cinco.

O pai dizia que menina não tinha que estudar, porque usava o estudo “para escrever cartas para o namorado”.

Era a mãe quem fazia mais que o possível para manter os filhos na escola.

Maria conta que a mãe criava e vendia galinhas – além de todo o trabalho em casa e na roça – para comprar os materiais escolares dos sete filhos.

Nesse momento da entrevista, ela se emociona. E precisa interromper um pouquinho a história para retomar o fôlego.

Eu já havia me emocionado bem antes.

Maria de Fátima Bernardes começou a ajudar na roça aos seis anos, perdeu a mãe aos 13, trabalhou em “casa de família”, como diz, e chorava porque os adolescentes podiam ir para a escola e ela não.

Engravidou aos 20 anos, do primeiro namorado. Foi expulsa de casa pelo pai. Viveu com esse homem por 14 anos. Tiveram mais dois filhos e foi também por eles que ela decidiu arrumar as roupas e deixar a casa escondida, para nunca mais voltar.

– Deixei um bilhete em cima da mesa.

Deu um basta aos 14 anos de violência. E veio para Ribeirão Preto, viver com a irmã e buscar um futuro de paz para os seus meninos.

Nem nos piores momentos, desde aquela leitura da ilha que se perde, ela deixou de ler. Para driblar as contas muito apertadas, pegava livros emprestados.

Já morando em Ribeirão, depois de 27 anos longe da escola, voltou a estudar e completou o Ensino Médio no supletivo.

Hoje, trabalha como auxiliar de limpeza em uma clínica veterinária. E comemora a ida e volta de ônibus para o trabalho, porque é nesse tempo que consegue ler. Na volta, chega a escolher o ônibus mais demorado, para ter mais que os 20 minutos da ida para devorar as obras.

Diz, orgulhosa: no ano passado, depois que a amiga que lhe dava caronas diárias saiu do trabalho e o trajeto passou a ser de ônibus, leu 10 livros em 12 meses!

Agora, aos 59 anos, prestes a se aposentar, não tem dúvidas do que vai fazer com as horas vagas:

– Vou ter mais tempo para ler! Com um livro, a gente está sempre acompanhado!

Feira Nacional do Livro Ribeirão Preto História do Dia

Maria de Fátima me contou toda essa história na Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto nesta quarta-feira, sendo paciente com as interrupções das pessoas que paravam para conhecer o projeto História do Dia.

Ela chegou à mesa onde tenho colhido histórias e disse que estava ali para comprar o livro “História do Dia”, porque havia escutado uma matéria na rádio e se interessou em conhecer a vida das pessoas.

Só com isso, meu dia já estava ganho.

Mas Maria se sentou e foi trocando a timidez pela narração de sua história.

– Eu leio muito! Trabalho como auxiliar de limpeza em uma clínica veterinária. E lá, sou quem mais lê.

Ela nasceu na fazenda, na região de Dracena. Começou a trabalhar aos seis anos, ajudando os pais e os irmãos na lavoura de café e amendoim.

Quando tinha 11 anos e a mãe estava grávida do filho caçula, o sétimo irmão, a família se mudou para o Paraná, com uma promessa melhor de emprego na colheita de algodão.

– Nós fomos enganados. Não tinha nem casa para a gente dormir!

Pai, mãe grávida e seis filhos tiveram que dormir na tulha, onde era armazenado o café, até vagar uma casa na fazenda.

Em dois anos no Paraná, Maria lembra que a família se mudou cinco vezes. Chegaram a trabalhar em uma fazenda sem ganhar um tostão.

A mãe estava doente. Mas só foram descobrir o diagnóstico de câncer quando já estavam em São Paulo.

– Vendemos tudo o que tínhamos, arrumamos as coisas e viemos embora.

Em terras paulistanas, Maria e os irmãos – o mais novo com dois anos – perderam a mãe.

– Graças a minha mãe eu sei ler e escrever. Às vezes, quando eu estou lendo, fico pensando: se não fosse por ela, eu não teria aprendido o que aprendi.

O pai ficou com a responsabilidade de criar os filhos. E o fez com as ideias que acreditava.

Maria terminou a quarta série e não pôde mais voltar para a escola.

– Terminar a quarta série era muito importante naquela época. Era como o Ensino Médio hoje.

Mas ela, tão menina, já queria mais. Sonhava em estudar. Aos 16 anos, trabalhava e morava em uma casa que ficava em frente a uma escola, e chorava ao ver os adolescentes entrarem para a aula.

– A patroa não me deixava estudar.

Conheceu o marido aos 20 anos. Maria tocava violão e lembra com ternura da música que cantou para o homem, sem saber o que o futuro guardava.

– Nossa canção, do Roberto Carlos.

Engravidou meses depois e, expulsa de casa, foi morar com o primeiro namorado.

A decisão de deixá-lo 14 anos depois não foi fácil. Diz que ficou um ano ensaiando.

– Ele bebia, era violento. Me agredia psicologicamente, fazia ameaças. Às vezes, é pior que uma surra. Minha filha mais velha falou que se eu não viesse morar com minha irmã em Ribeirão, ela viria sem mim. E eu decidi que precisava mudar de vida.

Em 1994, partiu com os três filhos, que na época tinham 8, 13 e 14 anos.

Conta que, por aqui, conquistou a casa própria, terminou os estudos e criou seus meninos, trabalhando na limpeza. Ficou 15 anos no mesmo salão de beleza e, desde 2013, quando o estabelecimento fechou, trabalha na clínica veterinária.

– Eu me sinto realizada, completamente feliz.

Feira Nacional do Livro Ribeirão Preto História do Dia

Maria de Fátima não sabe quantos livros já leu em toda vida – pelo grande volume de obras!

Algumas histórias, como aquela que relatava a tragédia dos Andes da coletânea Seleções que a patroa recebia em casa, estão entre as preferidas.

Ela também tem um carinho especial por biografias. A última que leu foi o diário de Carolina Maria de Jesus, mulher negra que cresceu em uma favela de São Paulo e se tornou escritora.

“Olhai os lírios do campo” também está na lista. E, outro dia, quis saber o que tanto encantava a filha no livro Poliana.

Ela tem uma forma especial de ler. Quase sempre repete a obra mais de uma vez. No momento da entrevista, carregava na mochila o livro Olga, de Fernando Veríssimo, em releitura. Diz que, para tudo na vida, tem um ritmo lento. E explica que é porque gosta de “caprichar”, estar atenta aos detalhes e subentendidos.

– Quando a gente lê uma vez, entende de um jeito. Na segunda, entende melhor. Vê coisas que não tinha visto da primeira.

Diz também que, quando está lendo, escuta a história se reverberando na cabeça.

– Parece que uma vozinha está lá dentro da cabeça, lendo a história. É a voz dos personagens!

E, então, a gente entende porque ela nunca se sente sozinha com um livro.

Maria se orgulha em dizer que seus três filhos gostam de ler. E se espanta com quem não segue esse caminho:

– Eu fico horrorizada de ver as pessoas que não leem, os pais que não leem, as crianças que não sabem o que é um livro!

A aposentadoria está para sair. Ela conta que os chefes lá na clínica até pediram que continuasse trabalhando. Passou a vida, porém, a esperar o dia em que a leitura ficasse mais que o tempo de ônibus para ir e voltar do trabalho, o intervalo na jornada intensa.

– Eu estava lembrando que a Carolina de Jesus dizia que queria ter muito tempo para ler todos os livros que existissem no mundo. É isso…

Maria venceu a dureza da vida com leitura. Encontrou nas palavras abraço para seguir sempre em frente! E continua seguindo.

 

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