Marina é a cabeleireira de ouvidos sempre abertos

Vale a pena ler de novo! História publicada em 26 de abril de 2017! 

 

Desabafos, confidências, troca de conselhos. Parece divã, mas é a cadeira onde Marina corta, penteia, pinta, escova, muda caras e cabelos.

Cada cliente, é uma história. E a cabeleireira está sempre disposta a ouvir. Há tempos descartou a quantidade. No divã da Marina, o importante é se sentir bem.

– Ser cabeleireira é uma mistura de tudo o que uma mulher pode ser: profissional, psicóloga, mãe, filha. Sou um pouco de tudo.

É assim que Marina Barbosa Alves de Oliveira vê a profissão que há 36 anos é parte do seu dia-a-dia.

– Eu amo o que eu faço!

Marina começou a trabalhar com 15 anos. Em casa, o conselho era um só:

– Minha mãe dizia que a gente tinha que ter uma profissão.

O pai tinha problemas com álcool não conseguia trabalhar. Era a mãe quem segurava as pontas do lar e dos cinco filhos, com três empregos em um dia só.

Aos 15 anos, então, Marina deixou a escola em busca da tal profissão. Escolheu o que seguir com base na brincadeira preferida.

– Eu cortava os cabelos das bonecas e, como não crescia, eu chorava.

Conseguiu trabalho em um salão de beleza. Enquanto varria o chão do local ia aprendendo a cortar cabelo.

– Eu prestava atenção em tudo que o cabeleireiro fazia.

Aos 16 anos, em outro salão, começou a pôr em prática. Aos 19, já dava aulas em uma escol077a no Centro de Ribeirão Preto. Nunca mais deixou o pente e a tesoura.


 

Marina abriu salão próprio aos 21 anos, no Jardim Independência. A filosofia do ouvir em primeiro lugar trouxe clientela fiel.

Quando ela mudou para Brasília, em 2004, deixou a mulherada chorando.

O marido recebeu uma proposta irrecusável e Marina foi cortas os cabelos das brasilienses.

Por lá, viveu uma das histórias mais engraçadas de toda trajetória. Uma americana foi ao salão. Nem Marina falava inglês e nem a cliente português.

– E agora? Eu dei uma olhada nela, nos dedos, nos anéis, nas roupas, nas tatuagens. Avaliei e captei. Cortei com a navalha, um cabelo todo desfiado. Quando ela se olhou no espelho só disse: ‘Oh, my!’.

Marina cai na gargalhada. Sempre que ia à Brasília, a americana procurava o corte de Marina. E também lamentou quando a cabeleireira, o marido e os dois filhos voltaram para Ribeirão, em 2010.

Marina não quis retomar o salão próprio. Divide espaço com um amigo no Centro de Ribeirão Preto. Atende, no máximo, 12 clientes por dia. E explica o porquê.

– Já trabalhei muito na vida. Hoje, não faço questão de ter quantidade. Eu sou a prioridade da minha vida. Além disso, não corto e pronto. Lido com pessoas.

O que mais encanta a cabeleireira é trabalhar com gente e todas as suas particularidades.

– Você mexe com a autoestima da pessoa da hora em que ela entra no salão até a hora em que vai embora.

Marina não é do tipo que procura não se envolver. Bem o contrário. Se envolve, em cada fio de cabelo.

– Muitas vezes tive que raspar o cabelo de mulheres em tratamento de câncer. Eu não deixo transparecer. Tento dar a ela um pouco de alegria. Mas por dentro fico acaba. Como não ficar?

Grande parte das mulheres, ela ressalta, vai ao salão para conversar. Os relacionamentos amorosos são problema da maioria da clientela de Marina, que tem  mais de 30 anos.

– Hoje em dia ninguém mais quer ouvir. Eu creio que pessoas precisam de pessoas. E ouvir faz mais bem para mim do que para elas.

Mas e Marina? Nunca fala? Vez ou outra, compartilha um conselho, conta o que passou na vida quando a cliente passa por algo parecido.

– Os meus problemas? Ah, eu resolvo de joelho, orando. Antes de entrar no salão, já orei por muita gente.

Marina tem astral bom, sorriso no rosto e deixa na gente aquela vontade de ficar um pouco mais.

– Se a pessoa não se identificar com você, ela não vai abrir o coração e aí nem o cabelo vai ficar bom.

Vai ver porque coloca o humano antes da tesoura. A pessoa antes da fatura.

– Se a gente não passar coisas boas para a pessoa, o que ela vai levar? Quero que ela leve de mim só coisas boas. Muita coisa boa!

Só tem uma tristeza na vida: ter deixado a escola. Mas não vê como decisão irremediável. O tempo que faz crescer o cabelo faz Marina conquistar o futuro.

– Eu vou fazer faculdade, imagina! Vou fazer Psicologia.

O objetivo, porém, não é trocar o divã do salão pelo do consultório.

Marina, essa ‘entendendora’ de gente, quer mesmo é se aperfeiçoar.

– Eu vou ser cabeleireira minha vida inteira. Vou estar velhinha com a tesoura na mão.

 

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