Maris voltou a estudar aos 31 anos e trocou a profissão de faxineira pela de professora

História publicada pela primeira vez em 4 de agosto de 2017. Vale a pena ler de novo! 

 

– A palavra da minha vida é transformação.

Maris, vez em quando, se surpreende com o reflexo do espelho. A mulher de 31 anos ficou no passado, quando entrou pela porta da escola determinada a voltar a aprender.

Era outra por fora e por dentro.

– Eu pesava 20 quilos a mais, nunca tinha usado uma roupa social, trabalhava como diarista, tinha depressão. Com os estudos, ganhei uma nova vida.

A força para mudar não veio de um lado só, mas de muitas direções. O médico que incentivou os estudos como remédio para a tristeza, os vizinhos que ouviam Maris ler os textos que escrevia, a professora que pagou mensalidades atrasadas da faculdade, a Casa do Poeta e Escritor de Ribeirão Preto, que foi palco aberto para os sonhos da diarista.

Quando Maris decidiu voltar a estudar, não sabia onde os livros a iam levar.

Neste ano, foi homenageada na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto com documentário contando sua história e auditório aplaudindo de pé a professora que leva cultura e abre caminhos.

– Eu só me dou conta quando começo a contar e lembro de tudo o que eu passei…  A grande chama da minha vida foi escrever.

Professora Maris Ester: da faxina para a sala de aula

Maris fala rápido, emendando uma frase na outra e um novo assunto no que acaba de terminar. É tanto a relembrar…. Quer que nada fique de fora.

Começa dizendo que encontrou na mãe o exemplo a seguir.

– Minha mãe era muito delicada, educada. A vida me deu várias oportunidades de escolher caminhos errados. Pude dizer não pela educação que ela me deu.

Quando Maris tinha quatro anos, o pai morreu de tuberculose. Venderam tudo o que tinham para arcar com o tratamento, mas a cura não veio.

Anos depois, a mãe se casou de novo e a família cresceu. Juntando os filhos que os dois tinham em cada casamento com os que tiveram juntos, eram em 21 irmãos.

Para não faltar comida na mesma, o trabalho começava ainda criança. Maris trabalhou em “casa de família”, como diz, vendeu livros e outras tantas coisas, até que aos 14 anos parou com os estudos para ser diarista.

Aos 19, teve o primeiro de seus três filhos, aos 23 se casou e não via outra forma de sustento que não fosse essa.

– Teve um dia que a gente não tinha arroz para o almoço. Eu sai, bati numa casa e ofereci uma faxina. Voltei com o dinheiro para colocar comida em casa.

Diz que sempre foi “muito querida” pelas patroas. Foi uma delas que a incentivou a voltar aos estudos quando soube da vontade de aprender sufocada na adolescência.

Já haviam se passado 17 anos desde que Maris deixara a sala de aula.

O alto astral sempre presente tinha dado lugar a uma tristeza no peito.

Chegou a procurar um médico.

– Ele me disse que até um raio tem que ter um lugar para descarregar. E falou que eu deveria voltar aos estudos.

Fez a matrícula no supletivo em 1996 e, de cara, encontrou nas aulas de Língua Portuguesa aquele tal lugar para “descarregar” que o médico falara.

Começou a escrever, escrever e, nesse mesmo ano, procurou a Casa do Escritor e do Poeta. Foi recebida de braços – e livros – abertos.

Professora Maris Ester: da faxina para a sala de aula

Quando Maris lançou seu livro de crônicas, em junho de 2001, ainda trabalhava como diarista.

Diz que sua história foi contada nos jornais de toda Ribeirão Preto e, na noite de lançamento, vendeu mais de 100 exemplares.

Na obra “Nua para o criador…Vestida para a humanidade” ela falava sobre seus sentimentos.

– A publicação do livro foi uma união de forças. Cada amigo ajudou com uma coisa e saiu.

Sentiu que poderia ir além e decidiu, então, fazer faculdade de Letras.

Fez a matrícula e se desdobrava para pagar as mensalidades e ajudar no sustento da casa com o que ganhava fazendo as faxinas.

Depois de um ano de cursos, precisou parar porque o dinheiro não era suficiente.

Uma professora amiga ficou sabendo e decidiu que Maris não iria interromper o caminho.

Pagou os atrasados, insistiu para que a diarista voltasse para as aulas e ajudou na busca por um emprego com remuneração melhor.

Maris passou, então, a trabalhar em uma biblioteca. Em 2003, deixou de fazer faxina. Em 2005, já no penúltimo ano da faculdade, foi para a sala de aula pela primeira vez.

Trabalhava na biblioteca das 8h às 12h e das 13h às 17h como professora em uma penitenciária feminina.

– Quando eu me formei, em 2006, já tinha meu próprio talão de cheques.

Talão de cheques e uma vontade imensa de dar aulas. Logo, estava atuando como professora da rede estadual, com projetos culturais.

Professora Maris Ester: da faxina para a sala de aula

Poesia, teatro, música, cinema: Maris quer que seus alunos criem asas, como ela mesma pôde criar.

– O mais lindo é ver esses alunos semeando um pouquinho do que você planta. Quero que eles tenham a mesma oportunidade que eu tive. Com a cultura, eu posso fazê-los acreditar que têm potencial.

Hoje, aos 52 anos, é realização que salta pelos olhos brilhantes e pela fala apressada de tanto a contar.

– Eu encontrei amor em terras estranhas. À medida que eu fui escrevendo, fui abrindo portas.

É professora na Escola Estadual Jardim Orestes Lopes de Camargo, zona norte de Ribeirão Preto, presidente da Casa do Poeta e Escritor de Ribeirão Preto, membro da Academia de Letras do Brasil (ALB) de Araraquara, coordenadora de projetos culturais.

Pensa em relançar o primeiro – e único – livro que escreveu lá em 2001 e escrever outras duas obras com os tantos textos que tem guardados.

Quer, acima de tudo, continuar ensinando o que aprendeu.

 – Eu vivo pelos meus alunos, pelo que eu faço. Eu faço com amor.

Termina contando que nasceu em 18 de abril, aniversário de Monteiro Lobato e, então, data escolhida como Dia Nacional do Livro Infantil.

– Hoje, eu trabalho na sala de leitura Monteiro Lobato! Olha como é a vida…

Maris ainda se surpreende com o reflexo do espelho.

Mas, a cada vez que olha para si, enche o peito de felicidade. E gratidão.

– A vida é luz. Eu me sinto assim: luz. Tenho procurado viver…

 

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