Menos internet e mais natureza: é o que Raquel busca para as filhas

Inês decide que quer tirar o Papai Noel pendurado no teto. A mãe diz que, naquele momento, não pode lhe ajudar.

A pequena, então, pergunta se pode tentar sozinha.

A mãe observa tudo atenta. Mas não interfere.

Inês pede a ajuda de Olga para empurrar a escada três vezes seu tamanho, sobe os degraus devagar e tenta retirar o brinquedo.

– Com uma mão, você segura a escada.

A mãe orienta.

Depois de algumas tentativas, a pequena percebe que não é possível retirar sozinha. Avisa a mãe que vai esperar sua ajuda e desce as escadas.

É a vez de Olga, que, incentivada pela irmã, decide tentar retirar outro enfeite, mais adiante. Novamente, as duas movem a escada. Olga sobe e, já de primeira, consegue alcançar o brinquedo.

Desce, toda feliz.

– Consegui, mãe!

Meu coração, já na primeira subida, estava na boca. Raquel, porém, parecia tranquila. Não tirou os olhos das suas meninas. Mas deixou que as duas tentassem mais aquela conquista.

– Nós procuramos ensinar o que elas não vão aprender na escola. Eu não sabia trocar uma lâmpada. Elas já sabem subir na escada, regar as plantas, ajudar a fazer café.

Raquel Meirelle Sítio de pano Ribeirão Preto História do Dia

Desde que as meninas nasceram, quatro anos atrás, Raquel Meirelles, 28, se reinventa. Escolheu morar no sítio, trabalhar em casa e limitar o uso de tecnologia na rotina das meninas.

Elas não têm tablete e não sabem mexer no celular. Televisão tem horário certo: um pouquinho depois do almoço e outro antes de dormir.

O restante do dia é preenchido com criatividade.

Pela manhã, as duas vão para a escola. À tarde, inventam possibilidades entre as plantas, cinco cachorros, uma coelha, araras, jabutis, periquitos, gansos, galinhas e peixes.

Cozinham biscoitos e bolos com a mãe, desenham, plantam, brincam no balanço e na terra. No Carnaval, o plano era acampar no quintal.

– É fora do padrão. Mas eu me questiono: qual é o padrão?

Em tempos de tecnologia desenfreada, Raquel aposta no contato, nos pés descalços, no simples, no que é natural.

– Eu quero que elas conheçam as coisas. Que saibam da onde vem o ovo, o leite, as plantas. Se vamos a um restaurante, quero que elas apreciem o local, a comida. E não fiquem fora da realidade com um tablete.

Tem dado tão certo que, há três meses, a mãe decidiu compartilhar.

Criou oficinas para crianças e suas famílias. O objetivo é interagir com o sítio, as plantas, o meio ambiente. E aproximar.

– A ideia é trazer as crianças para perto. E os pais se divertem ainda mais, porque revivem a infância.

Raquel Meirelle Sítio de pano Ribeirão Preto História do Dia

Raquel conta que, mais do que qualquer coisa, sempre sonhou em ser mãe.

– Era muito natural para mim. Minhas amigas brincam que eu sou mãe de todo mundo.

Conheceu o marido em uma festa, casaram e os dois já viviam no sítio, que era do avô dela, antes da gravidez. Raquel e os pais foram morar no local, há cerca de 25 minutos do Centro de Ribeirão, quando ela tinha 15 anos.

Depois de casada, porém, pensava em se mudar para área urbana da cidade. Quando as meninas vieram, reverteu os planos.

– Nós decidimos ficar por elas. Elas têm uma vida que eu não tive. Contato com a natureza, com as coisas.

O projeto era terminar a faculdade de agronomia e, então, pensar em filhos. Mas as pequenas foram mais rápidas.

Gemêas? O susto foi passando aos poucos. Na colocação de grau da mãe, elas estão na foto, já aos seis meses de vida.

Raquel decidiu, então, que não iria exercer a profissão por um tempo.

– Não fazia sentido morar aqui e deixar as meninas o dia todo na escola. Eu quis estar em casa para aproveitar essa primeira infância delas.

A forma diferente de criar não foi planejada. Aos poucos, ela foi criando o seu próprio jeito de ser mãe.

– Elas têm liberdade para ir onde querem aqui no sítio. E elas sabem das coisas. Sabem que não podem tirar a flor porque não nasce o fruto, sabem cuidar da plantinha.

Diferente do que se imagina, Raquel não acha que gêmeas representam trabalho em dobro. Inês é mais espoleta e Olga mais reservada. Para a mãe, a medida certa.

– Uma complementa a outra. Elas aprendem juntas. E fazem companhia uma para a outra.

Conta que sua criação não foi como a que dá para as meninas. Seus pais trabalharam fora – e muito. A avó era quem a levava para cozinha fazer um bolo, um biscoito.

Quando se tornou, mãe, porém, foi descobrindo algo dentro de si.

– Foi acontecendo e foi me trazendo autoconhecimento. No ano passado, eu me questionei muito se estava sendo uma boa mãe. Eu estou bem, estou feliz e as meninas também estão.

A resposta veio das filhas: saudáveis, sem medos, com energia de sobra.

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Foi então que Raquel sentiu vontade de compartilhar o seu dia a dia com outras mães.

Como decidiu trabalhar em casa, precisava encontrar algo que gostasse de fazer. Começou com artesanatos. Daí, o batismo do “Sítio de Pano” para o lugar verde onde moram.

– Mas eu sentia que não era isso. Além do mais, para ganhar com artesanato é preciso fazer muitas encomendas. E, fazendo muitas encomendas, eu não podia ficar com as meninas.

As oficinas surgiram – como tudo ali – de forma natural.

– A gente já fazia isso. Sempre que recebemos alguém, passeamos no pomar, conversamos.

A primeira oficina foi em janeiro. Depois dela, já vieram três turmas e há outras várias programadas. Cada turma tem, em  média, seis crianças e suas famílias.

A ideia é passar o dia no sítio, conhecendo e provando as frutas do pomar, aprendendo a plantar, brincando, tomando um café da tarde todo produzido ali.

– Quando as crianças colocam a mão na terra é incrível. Algumas fazem cara de ‘não vou colocar’. Outras, parecem estar provando um sorvete muito gostoso!

Raquel, o marido e as filhas são os monitores da oficina. Olga é responsável pelo momento de “subir na árvore” e Inês cuida da degustação da menta.

Quando disse que nunca havia provado menta in natura, ela foi até o pomar e me trouxe uma folha fresquinha.

– É chiclete de mentirinha!

E eu descobri o gosto incrível da erva fresca.

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Raquel diz que, com as oficinas, atou as pontas que faltavam na realização pessoal.

– Eu me encontrei porque uni agronomia à maternidade. O conhecimento teórico da faculdade e a prática dos últimos quatro anos.

O propósito de todas as escolhas é o mesmo.

– Todo mundo quer ser feliz e cada um tem que encontrar o seu jeito, sem pensar muito nos outros.

Olga diz que quer banana. A mãe mostra onde está o cacho, que foi colhido no quintal.

A pequena descasca a fruta, pega um pote, amassa a banana, coloca canela e come tudo. Enquanto isso, Inês brinca com um cavalinho de madeira, desses que a criança coloca no meio das pernas e sai pelo seu mundo a cavalgar.

Tudo está na mais perfeita ordem. A ordem de viver.

 

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