Mirella e seus irmãos são os jornalistas mirins de Ribeirão Preto

Na rua que é mais buraco do que rua, Mirella, Pablo, Peterson e Marjorie deixam a imaginação voar. Em uma tarde são cantores de rap, na outra jogam futebol tropeçando nas pedras que saem do asfalto deteriorado.

Há dias em que a diversão é soltar pipa. E outros em que arrumam um jeito de desenhar uma amarelinha.

Quando chove, porém, toda brincadeira vai para debaixo d´água. O brincar, que já é improvisado, fica interditado de vez.

Foi em uma dessas tardes que a ideia do vídeo surgiu. Sugestão da mãe, o quarteto conta. Pegaram o microfone que a tia deu e dividiram as funções.

Mirella, 11 anos, é a repórter. Peterson, 8, já foi ciclista caindo da bicicleta, mas agora decidiu ser câmera. Marjorie, 6, e Pablo, 8, são os entrevistados inconformados com a “pouca vergonha”.

Estava feito o vídeo da rua onde moram, no Parque Avelino, zona Norte de Ribeirão Preto, toda inundada de água.

Dias depois, filmaram novamente, mostrando os buracos da rua já seca.

Primeiro, a mãe postou no grupo da família. “Não tia! Precisa colocar isso no Facebook!”, e acabou atendendo ao pedido da sobrinha.

Não imaginava, porém, até onde a brincadeira iria chegar.

Um vídeo levou à EPTV, o próximo foi compartilhado por uma página de Mulheres Jornalistas e, quando se deu conta, os quatro pequenos estavam ganhando os holofotes nacionais e internacionais. UOL, Fantástico, CNN de Londres, Paris!

Um dos vídeos já teve mais de 4 milhões de visualizações! O encantamento pela repórter mirim Mirella Archangelo é de arrancar suspiros. Até da jornalista Glória Maria, que veio a Ribeirão Preto conhecer pessoalmente sua fã.

A mãe, Amanda, criou uma página no Facebook para compartilhar outros vídeos que os filhos fazem, apontando os tantos problemas que o bairro tem. Mirella Archangelo no Jornal Mirim tem quase 2,3 mil curtidas em menos de três meses.

Na rua que é mais buraco que rua, quatro irmãos conquistam o mundo pela vontade de fazer cidadania.

Mirella Archangelo Jornal Mirim Ribeirão Preto

É nessa rua, tão famosa na internet, que o quarteto pega o ônibus para a escola, reúne a criançada da vizinhança, passa as férias deste janeiro.

– Com o vídeo, todo mundo acha que a gente ficou famoso. Mas ninguém pergunta como é nosso dia-a-dia!

É o pai, Júlio, quem diz, quase em tom de desabafo. Desde que o vídeo dos irmãos jornalistas ganhou o mundo, as crianças viraram foco de atenção. E o bairro todo ficou alvoraçado.

– Tem gente que acha que a gente ficou rico! Que estamos ganhando pelas entrevistas! Quando respondemos que não, acham que estamos escondendo!

A fama que vem da internet é arrebatadora.

– Eu percebi que o vídeo tinha viralisado quando saí com meu tio e uma mulher veio correndo na minha direção. Eu fiquei com medo! Mas ela queria me abraçar!

Mirella, a pequena estrela, fala da fama que está lá fora.

Por dentro, entretanto, a vida da família continua como sempre foi.

Mirella Archangelo Jornal Mirim Ribeirão Preto

Amanda e Júlio são os pais do quarteto jornalista. Cresceram no Parque Avelino e começaram a namorar quando ela tinha 13 anos e ele 20. Já somam 18 anos juntos.

Na rua que virou vídeo fica a casa simples onde criam os filhos e o estúdio de tatuagem, que é o ganha pão da família.

Marjorie, Mirella, Pablo e Peter contam não tem briga nem mesmo dividindo o mesmo quarto. Cada um sabe seu lugar: tem treliche e tem colchão no chão, para ninguém ficar sem aconchego.

Amanda terminou o Ensino Médio trabalhando como secretária e sonhava em fazer uma faculdade. Engravidou de Mirella, que já “chegou chegando”, nas palavras da mãe.

Com uma cardiopatia congênita, foram 37 dias internada, 27 deles na UTI. A mãe decidiu deixar o trabalho e os planos de futuro para cuidar da pequena.

Dois anos depois, mais uma surpresa. A gravidez veio em dose dupla, com os gêmeos Pablo e Peterson. E Marjorie veio para “encerrar a fábrica”, na brincadeira dos pais.

Foi quando a caçula chegou que os pais sentiram necessidade de mudar a vida. Júlio também parou os estudos quando terminou o Ensino Médio, porque trabalhar era a necessidade urgente. Trabalhou de tudo quanto foi coisa, em fábricas e empresas.

Quando ficou desempregado, há seis anos, com três crianças e uma bebê recém-nascida, decidiu que era hora de apostar em uma paixão antiga.

Júlio é tatuador e abrir o próprio estúdio foi mais que realizar um sonho.

– O nosso bairro é complicado. Tem crianças da idade deles que já não vão para a escola. Como a gente ia sair para trabalhar e deixar os quatro em casa?

Trabalhando “em casa” os pais voltam toda a atenção para os filhos.

A família não tem carro. E, então, Amanda e Júlio se revezam para levar a turma para a escola de ônibus.

Até tinha uma escola mais próxima, mas os pais – na conduta de não medir esforços – perceberam que o estudo na outra, que também é pública, tinha mais qualidade.

As meninas vão para a escola de manhã e os meninos à tarde. Duas vezes por semana, o pai ou a mãe – depende da agenda no estúdio – pegam dois ônibus para levar Peter e Pablo à Cava do Bosque, onde praticam esportes. E outros dois ônibus para voltar.

Pablo faz judô e Peter atletismo.

– A gente é igual até para ganhar e perder. Quando eu ganho medalha, ele ganha a luta!

É Peter quem diz, arrancando risos de toda a turma.

As meninas têm mais facilidade para aprender e, então, para sanar as dificuldades dos pequenos, toda noite improvisam uma escolinha em casa, com Mirella de professora.

– O pai é o diretor. Se fizer bagunça, vai falar com ele!

As contas da casa são sempre apertadas, o que faz os passeios serem poucos – até pela dificuldade do transporte.

Ninguém reclama, porém. Os sorrisões que os quatro exibem ocupam todo o rosto.

– Eles estão em uma fase de questionar por que a gente não tem carro ou faz passeios. A gente explica que poderíamos ter um carro, mas não ficaríamos juntos, porque eu e o pai iríamos sair para trabalhar o dia todo.

É Amanda quem diz, colhendo respostas segundos depois, nas palavras da Marjorie.

– A gente prefere andar de pé e ter carinho de mãe e pai.

Na rua que é mais buraco do que rua, a família divide os desafios com união.

– Qual palavra resume essa família?

É a minha pergunta.

– Felicidade!

Mirella responde primeiro.

– Muita, muita felicidade.

Pablo faz coro.

Mirella Archangelo Jornal Mirim Ribeirão Preto

Se essa rua fosse da Mirella, teria asfalto lisinho. Se fosse do Pablo, não voariam pedras quando os carros passassem. A Marjorie iria consertar o alagamento que se forma na chuva e o Peterson iria andar de bicicleta sem medo de cair.

Se esse bairro fosse da Mirella, teria uma biblioteca comunitária cheinha de livros. Se fosse do Pablo, uma academia ao ar livre faria todo mundo se movimentar.

A Marjorie colocaria praças bonitas para a criançada brincar de boneca. E o Peterson iria construir campinhos para os jogos de futebol e também para soltar pipa.

É por isso que, depois do sucesso do vídeo, os quatro decidiram criar a página Mirella Archangelo no Jornal Mirim.

A frase da pequena jornalista que encantou e tirou risos – “Será que eu vou ter que largar o sonho de jornalismo para virar prefeita?” – passou a ecoar pelo bairro.

Dia-sim, dia-não tem vizinho batendo no portão dos pais para levar um problema – o que não falta no bairro.

Vazamentos, terrenos cheios de entulhos, mais e mais buracos.

São os pequenos que escolhem se querem ou não filmar, a mãe explica.

– A gente espera eles decidirem, para ver o que toca neles. Eles já passam pela rua e percebem se tem água limpa vazando, se tem algo para denunciar.

E, a cada vídeo, um novo aprendizado.

– A gente fez um vídeo do terreno que estava sujo, mas não adianta a prefeitura limpar, se a população continua a jogar lixo.

É Mirella quem diz.

O que entristece a família toda é ver que, dois meses depois da rua estampar as telas até fora do país, os buracos continuam iguais – ou até maiores. A prefeitura não mudou uma pedra sequer.

– É muito triste, porque a gente pensou que iriam arrumar.

Nas palavras de Pablo.

Estão tendo que aprender, então, a não desistir.

Filmar já virou a brincadeira preferida, em um bairro que nada tem a oferecer de lazer para gente miúda.

E da brincadeira, vem os sonhos. Mirella, a menina apaixonada por livros, decidiu que quer ser jornalista. Internacional. E, por agora, pensa em escrever um livro sobre os bastidores do Jornal Mirim.

– Eu quero morar em Paris!

Peterson quer fazer parte da equipe, como cinegrafista.

Pablo e Marjorie continuam com os sonhos de antes “da fama”. Ela quer ser médica e ele construir robôs.

– A gente nunca diz que eles não vão conseguir. A gente diz que eles precisam estudar muito e, estudando, chegam lá.

Júlio e Amanda compartilham os sonhos dos filhos.

– O que a gente quer para eles é estudo. Que eles possam estudar, fazer uma faculdade, para ter uma vida mais fácil.

Mirella ganhou de presente um livro que conta a história de 50 brasileiras incríveis. Ainda não começou a ler, mas já está ansiosa.

– Vão ser 51! Porque um dia ela vai estar lá.

O pai é quem diz.

Não há buraco que impeça essa criançada de sonhar.

 

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Todos os 3 comentários
  • Amanda Sales
    Responder

    Amamos, Incrível, Parabéns, o nosso Muito Obrigado. E todo sucesso do mundo a você. E não deixe de contar Histórias..

  • Carol
    Responder

    Se essa rua fosse minha…não, melhor q fosse de Mirella e sua família! E é! Parabéns

  • Marilia (Desde El Caribe)
    Responder

    Parabéns aos pais dessas crianças talentosas, obrigada aos meios que idealizaram divulgar essa história. Muito linda. Emociona até às lágrimas. Mirella, que realize seus belos sonhos!

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