Na cozinha da chefe Helen, o segredo é força de vontade

Helen é enfática:

– A vergonha só deve existir se você está fazendo algo de errado. Se está propondo alguma coisa, deve ser valorizado.

Ela bateu na porta de uma das maiores escolas de pizzaiolo do Brasil, recebeu “não” como resposta e procurou um atalho.

Foi a uma empresa de fornos de pizza em São Paulo e, sem conhecer ninguém, revelou que gostaria montar uma escola em Ribeirão Preto, não tinha dinheiro para o empreendimento, mas era feita de vontade. Conseguiu mais que um “sim”.

Conquistou os equipamentos para montar sua cozinha e o curso que antes lhe batera a porta nos sonhos. Hoje, afirma orgulhosa:

– Eu sou a primeira mulher no Brasil a comandar uma escola de formação de pizzaiolos!

Nas aulas de capacitação que ministra para quem quer seguir pelo caminho da gastronomia, usa sua história como exemplo. E altas doses de motivação:

– A primeira coisa que eu faço é dar uma injeção de ânimo nos alunos. Eu aviso que não adianta ficar esperando, não. Dinheiro só dá em árvore se você plantar um pé de limão e vender a fruta. Se não fizer a sua parte, nem o pé cresce!


 

Começou quando criança. Helen Ravagnoli levava chocolates para vender aos alunos da escola, passava de casa em casa oferecendo os broches do Menudo que o tio lhe presenteava e também fez a mãe confeccionar sachês de cheiro para que saísse a comercializar pela vizinhança.

– Eu queria vender alguma coisa!

Na adolescência, vendia lingerie e semi joia. E, já na faculdade, quando perdeu o emprego com o qual pagava a mensalidade, comercializou bombons, trufas e salgados que fazia em casa. O amor pela gastronomia já falava alto nessa época. Garante que as vendas eram um sucesso.

– Eu sempre dei um jeito de ganhar dinheiro.

Não pensava, porém, que o seu maior hobby seria seu grande empreendimento. Ainda adolescente, assistia a todos os programas de gastronomia da TV, fazia cursos gratuitos em um supermercado e virava panqueca como ninguém.

– Um dia meu pai entrou na cozinha e ficou surpreso de me ver virar panqueca daquele jeito. Nem minha mãe virava daquela forma. Eu respondi que fazia porque não tinha medo.

Por achar que não seria possível ganhar dinheiro cozinhando, fez o magistério e, na época de escolher um curso superior, optou por Biologia, para seguir dando aulas.

Passou em um concurso da prefeitura para atuar com recreação em uma casa de acolhimento a crianças e adolescentes. Um dia, a cozinheira da instituição faltou e ela se candidatou, mais que depressa, a ir para a cozinha.

– A coordenadora me falou: ‘Já que você gosta tanto de cozinhar por que não dá aulas de culinária para as crianças?’.

Começou de imediato. Mas as dificuldades em trabalhar com crianças em vulnerabilidade eram grandes.

– Eu interiorizava o sofrimento e a revolta que eles projetavam em mim. Comecei a ficar doente.

Não pensou duas vezes para mudar a rota.

– Eu era concursada, mas ficaria doente pelo resto da vida? Tive que mudar! O que adianta ter dinheiro e não ter saúde?

Quando a Prefeitura de Ribeirão Preto abriu um concurso para monitora de gastronomia em uma escola de profissionalização, teve certeza de que era a oportunidade que precisava. Em 2010, aos 31 anos, passou no concurso e percebeu que era, sim, possível ganhar dinheiro fazendo o que ama.

Mas não cogitou parar por ali.

– A gente não pode se acomodar. Tem que se transformar para sempre ser amanhã maior do que se é hoje.

Helen Ravagnoli Club dos Chefes

Criou o site Guia Gastronômico de RP e passou a fazer cursos e a frequentar feiras de gastronomia. Em uma delas, conheceu uma escola de pizzaiolos de São Paulo. E se encantou. De chefe renomado, o curso era caro. Mandou e-mail pedindo uma bolsa e não obteve respostas. Foi pessoalmente à escola e conta que ouviu “não”, com uma desculpa de argumento.

– Fiquei com aquilo na cabeça por alguns meses. Mas não desisti.

Conheceu uma marca de fornos de pizza, entrou no site da escola e viu que toda quarta-feira a empresa oferecia um curso gratuito para aspirantes a pizzaiolo. Voltou para São Paulo. No dia do curso, conta que, enquanto os outros participantes tinham projetos de montar pizzarias em seus bairros e cidades, ela só tinha uma ideia.

– Quando chegou minha vez de falar, eu fui sincera. Disse que não iria abrir pizzaria porque não tinha dinheiro, mas sonhava em abrir uma escola de pizzaiolo em Ribeirão Preto e representar aquela marca de fornos.

Sem saber, estava falando com o dono da instituição. E o cativou com sua determinação.

Conseguiu que a empresa custeasse o curso na escola de pizzaiolos que havia lhe recusado a bolsa e ainda ganhou todos os equipamentos para começar seu empreendimento.

Helen nasceu e cresceu no bairro Simioni, zona Norte de Ribeirão Preto.

Conta que seu pai tinha um bar, que só dava prejuízos. E, quando perdeu o emprego de vendedor, entrou em depressão. A mãe, então, tomou as rédeas da casa. Decidiu fechar o estabelecimento, passou a trabalhar como auxiliar de serviços em uma creche e, aos 50 anos, se formou em Pedagogia.

– Ela dá aulas até hoje. Tudo o que aconteceu de ruim, ela soube transformar em algo de bom.

Quando a oportunidade de ter sua própria pizzaria e escola surgiu, não procurou outro lugar. Reformou o antigo bar da família e se instalou no bairro que é sua casa.

– O Simioni merece um carinho especial. Eu coloquei uma pizza de qualidade em um lugar que não tinha. Uma pessoa me disse que eu estava colocando uma ‘Ferrari’ em um bairro ruim. E eu respondi que lá tem muita gente para andar de Ferrari.

Montou a pizzaria dellivery Club dos Chefes três anos atrás, porque entendeu que precisaria ter experiência na rotina de entregas. Abre de quinta à domingo.

Há cerca de um ano inaugurou sua escola e acredita que já formou 150 pizzaiolos.

Criou também um canal para aulas de culinária no Youtube e soma mais de 41,2 mil inscritos. Há dois anos lançou um projeto para capacitação de pessoas com síndrome de down em pizzaiolos.

Tudo isso sem deixar de ministrar aulas de gastronomia na escola municipal de profissionalização, o trabalho no site e o papel de mãe – que é em tempo integral.

– A força vem da necessidade de acreditar em uma mudança. Se não tivermos uma necessidade, a força de vontade não aparece.

Helen tem ainda uma lista enorme de planos para o futuro. O principal, deles, porém, está ligado a fazer o bem.

– Oferecer capacitação é um jeito de transformar as pessoas e fazê-las acreditar que são capazes. Enquanto elas não acreditarem que são capazes, não conseguirão mudar suas vidas. O meu prazer é vê-la crescendo. Nós crescemos juntos!

É do tipo que nunca está satisfeita. E não acha ruim.

– Os sonhos não tem limites. Sempre que eu consigo uma meta, quero outra.

Com o vídeo no Youtube diz que a intenção é compartilhar o aprendizado.

– Quero gravar todas as receitas que eu sei para deixar esse patrimônio quando eu não estiver mais aqui.

Cozinhar? Ela tem sua própria definição:

– Cozinhar para alguém é alimentar a alma, confortá-la. Eu nunca vi alguém triste comendo. Você já viu?

 

Crédito foto 1: arquivo pessoal

 

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Comentários
  • HELOISA PEDROSA
    Responder

    Adorei a história. A Chefe Helen é uma vitoriosa e nos ensina muito com sua força de vontade. Parabéns!!! #historiadodia #helen

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