Nayra viveu uma gestação de risco, venceu a depressão pós-parto e defende a ‘maternidade real’

Enquanto a mãe conta a história do seu nascimento, Lis desenha em papel sulfite. Presta atenção em cada detalhe, porém, complementando aqui e ali com o que sabe.

Na hora da foto, a menina abraça e beija Nayra, pula de um lado para o outro, esbanja saúde com seus oito anos.

O passado até se confunde: será essa a bebê que nasceu na 30ª semana de gestação, com 1,300 quilos e passou 28 dias no hospital brigando pela vida?

Lis, tão pequenina, já mostrava que tomara o exemplo de força da mãe. Aos 23 anos, recém-casada, Nayra viveu uma gravidez inesperada e cheia de intercorrências.

Vômito, conjuntivite, otite, sinusite, paralisia facial e a pressão alta, que exigiu o parto prematuro. A depressão fez morada depois de tanta turbulência. E foi preciso um caminho longo para superá-la.

– Minha gestação foi feita fora da barriga. Porque antes, foi tudo muito doloroso. Eu não vivi uma gestação comum, não fiz fotos de gestante, ensaio da Lis, nada disso. A maternidade foi uma construção.

Para Nayra Belem do Nascimento tornar-se mãe foi uma trajetória feita de passo em passo. Hoje, ela auxilia outras mães a registrarem e contarem suas histórias.

No caminho de redescobrir-se, se entendeu fotógrafa. E, depois de muito tempo tendo crises nervosas quando ouvia choro de bebê, se especializou em fotografia de família. Recém-nascidos, crianças de todas as idades, gestantes são registrados pelas suas lentes.

– Hoje eu trabalho para contar uma história que não foi a minha. E que tem todo meu amor. Eu quero que essas mães se sintam bonitas, que tenham o que eu não tive.

 História de Mãe Ribeirão Preto Nayra Belém

Nayra começa dizendo que faz questão de contar sua história de mãe.

– Eu prometi a Deus que eu iria compartilhar minha história o máximo que eu pudesse, para levar força a outras pessoas. Não é uma questão de religião, mas de intimidade com Deus. Hoje, nada me abala.

Ela conta que nunca sonhou em ser mãe. Em uma consulta de rotina, descobriu um cisto no ovário, começou o tratamento e dois meses depois estava grávida.

– Foi um susto!

Descobriu a gestação já com nove semanas. Os vômitos eram tão constantes que chegou a perder peso.

Na 21ª semana teve conjuntivite e na 22ª paralisia em todo lado esquerdo do rosto. As sessões de fisioterapia eram três vezes por semana, para que a melhora viesse depois de um mês.

Na 24ª semana, em consulta de retorno, foi diagnosticada com pressão alta e as internações passaram a ser constantes até a 31ª semana, quando o nascimento de Lis se fez necessário.

– Eu não podia comer nada ou ficar nervosa, que já voltava para o hospital.

As injeções de cortisona fizeram com que Lis já estivesse com o pulmão formado, mas, com pouco peso, ela precisou ficar no hospital. E a mãe também.

Nayra teve hemorragia após o parto. E só conseguiu conhecer sua pequena um dia depois do nascimento.

– Quando eu cheguei na UTI, foi assustador. Ela estava na incubadora, com respirador, não tinha cílios, sobrancelha, a unha dela era uma película. Eu passei mal.

A mãe passou por transfusão de sangue para conseguir alta, três dias depois. A ida para casa, porém, não teve comemoração.

– A sensação de ir para casa é a pior possível. Não é parte do processo de ser mãe, sair sem o bebê.

Foram 28 dias indo e voltando do hospital nos três horários de visita. Em cada turno, podia ficar só 15 minutos com a filha.

– Eu não faltei em um único dia de visita. Nem de manhã, nem a tarde e nem a noite.

Pôde pegar Lis no colo no quinto dia de vida. A alta veio quando ela completou 1,980 quilos. E uma nova fase de aprendizados começou.

 

– Eu não estava bem. Achava que era por tudo o que eu tinha passado… Eu só chorava, não conseguia dormir. Tinha vontade de sumir.

Nayra só conseguiu nomear o que sentia quando Lis já estava com um ano de vida. Com apoio psicológico, ela soube que estava com depressão pós-parto.

De 58 quilos chegou a 85 nesse período. Foram quatro anos de tratamento com terapia, medicações, altas e baixas.

– Eu via mulheres grávidas e chorava. Não conseguia ouvir choro de criança. Chegava a perder o sentido, ficar com a visão turva. Não conseguia contar minha história.

O processo de melhora também contou com a fé e o redescobrir-se.

– Eu acredito que tudo o que aconteceu comigo teve um propósito. Eu conheci Deus. E prometi a ele que quando eu conseguisse contar minha história sem sofrimento, Ele teria me curado. E eu iria contar para quantas pessoas fosse necessário.

Sem pressa, com muito apoio familiar, foi sentindo o coração feliz de novo. E construindo a maternidade. Para Nayra o amor de mãe não surgiu. Foi construído.

– Eu não sentia que a Lis era minha. Faz pouco tempo que eu me entendi mãe. Muitas mulheres têm vergonha de admitir isso. O amor foi gradual.  Hoje eu a amo mil vezes mais do que no primeiro dia.

Nayra diz que hoje a filha é sua amiga e companheira. Mas aprendeu a ser honesta com seus sentimentos.

– Eu passaria tudo de novo para ter a minha filha. Com o sofrimento, eu cresci muito. Mas a minha gestação foi fora da barriga. Ser mãe dói, dá trabalho, amamentar é difícil. A gente precisa falar sobre isso.

Fala do ser mãe com realidade visceral.

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A fotografia surgiu para Nayra cerca de quatro anos atrás.

Ela deixou o emprego em uma fábrica de uniforme quando Lis nasceu e, durante a depressão, trabalhou com o pai, que era representante comercial.

Quando estava melhor, montou uma loja de calçados. Mas não se sentia completa.

Ganhou sua primeira câmera de presente da mãe, prestes a saírem de viagem.

Foi nessa mesma época que o casamento com o pai de Lis chegou ao fim, com a ressalva:

– Mas nós continuamos uma família! Ele continua presente, como sempre foi.

E que a loja de sapatos fechou.

– Eu pensava: e agora? O que eu vou fazer?

Sua mãe deu todo o apoio para que ela começasse o curso de fotografia. E assim foi.

O encantamento foi imediato. E a especialização em fotos de família surgiu depois de um congresso em São Paulo, a convite de uma amiga.

– Eu saí de lá apaixonada. Entendi que era aquilo que eu queria fazer! Mas só consegui, porque eu já estava bem da depressão. Já estava fortalecida.

Se encontrar profissionalmente também foi força para deixar a depressão no passado.

– Toda vez que eu faço fotos é como se fosse para mim, com amor. Eu posso trabalhar com o que eu amo. Com arte!

Hoje, diz que se sente realizada.

– Meu pai sempre fala: ‘Olha de onde você veio e onde você está’. Sinto gratidão.

Lis, que o tempo todo esteve atenta, dá sua opinião sobre a mãe:

– Ela é linda. Mas às vezes, é meio leão, porque é brava.

Nayra tatuou no braço um leão envolto em flores. Sua história faz ver essa maternidade que é misto de delicadeza e força, coragem e amor. Registrado na pele, nas lentes, na memória.

 

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