No coração, Isaura é a eterna diretora da escola Fábio Barreto

Da janela do apartamento onde mora, Isaura avista a escola Fábio Barreto, centro de Ribeirão Preto. Quando entrava de férias, usava o mirante para checar se tudo corria bem.

Se a luz se apagasse antes da hora, não hesitava. Passava a mão no telefone e chamava: “O que está havendo? Por que estão fechando a escola?”.

Foram 40 anos de magistério, 22 deles na escola que tomou conta da maior parte do coração. Aos 77 anos, já soma 12 anos de aposentadadoria, mas relembra os detalhes do dia a dia como auxiliar de diretora e diretora da instituição.

Não só isso. Fala dos primeiros dias de aula, na zona rural de Pedregulho, 1966, como se fosse outro dia.

Comprou botinas e vermífugos para a sala toda, feita de crianças sem qualquer infraestrutura. Depois, quando o piolho se espalhou pelos cabelos da turma, levou remédios, amarrou fraldas na cabeça de cada um – inclusive na sua.

O educar ia além do abecedário para Isaura.

– Cada aluno era parte do meu eu. Eu tinha um compromisso com aquelas famílias.

Em um tempo de mulheres programadas para o casamento, Isaura Rodrigues Jorge escolheu firmar compromisso com a profissão que tanto ama. Decidiu ser politizada, estudar.

– Eu casei com meus alunos, com a escola. A mulher tem todo o direito de ocupar espaços. Namorei muito, fiz cursos de noiva, mas eu não tinha aquela mentalidade de mulher do lar.

Além do magistério na década de 60, fez Pedagogia, História e Geografia.

Para a entrevista, coloca o quadro que emoldura o título de cidadã ribeirão-pretana que recebeu em 2008 no sofá ao lado. Faz questão de tirar fotos segurando a honraria.

                – Eu acredito que a vida é socializar. Nós temos que socializar.

Isaura Rodrigues Jorge escola Fábio Barreto Ribeirão Preto

Isaura diz que sempre quis ser professora.

– Mas, naquela época, o magistério era só para a elite.

A mãe dela era costureira e, depois do divórcio, ficou sozinha para cuidar das duas filhas.

Além do preconceito – gritante, na época – as três tinham que se desdobrar para as contas.

Isaura começou a trabalhar aos 14 anos, em uma grande loja de Franca, onde vivia com a família. Trabalhava durante o dia e estudava a noite, o que inviabilizava o magistério, curso de período diurno.

Quando terminou o colegial, ingressou, então, no curso de contabilidade.

– Mas eu me via rodeada de crianças!

Terminou contabilidade em 1959 e em 1961 conseguiu uma bolsa de estudos para a tão sonhada área. Em 1966, formada, passou a atuar como professora na zona rural de Pedregulho, onde ficou por 12 anos.

Conta que, no primeiro ano, precisou morar nas imediações da escola, porque o transporte até ali era precário. Depois, fazendo amigos, conseguiu uma carona um tanto inusitada. Ia e voltava de trator.

Antes de chegar à escola Fábio Barreto, passou ainda por São Paulo e outras escolas dentro de Ribeirão Preto.

Conta que chegou a ser aprovada em concurso da Secretaria de Fazenda e do IBGE.

– Eu precisava decidir qual área seguir no mesmo dia. Rezava e me via rodeada de crianças.

Continuou atuando na educação.

O apartamento onde a mãe vivia já ficava na Amador Bueno antes de Isaura passar a integrar a equipe da Fábio Barreto, em 1984. Ganhou o mirante como brinde. Morava e trabalhava na mesma rua, do ladinho da escola.

Isaura Rodrigues Jorge escola Fábio Barreto Ribeirão Preto

– Eu nunca fui muito de engolir sapo!

As histórias que conta vão confirmando a constatação.

Ela relembra do dia em que brigou com o delegado de ensino, fazendo arregalar os olhos das outras funcionárias.

– Hoje ele está delegado, mas amanhã não está.

E do episódio em que deu suspensão para seis meninos de pais ricos e influentes.

– Naquela época, a Fábio Barreto era uma escola de elite.

O grupo atirou livros contra as lâmpadas da sala de aula, que se estilhaçaram no chão. E terminou com seis dias de suspensão, além de puxão de orelha nos pais.

Um deles não gostou. Chegou a falar com o delegado de ensino, pedindo a revisão da postura. Isaura teve uma só resposta:

– A lei foi feita para todos igualmente.

Relembra das festas que faziam parte da rotina escolar: juninas, primavera, sorvete. Tudo era motivo para celebrar!

Relata que, não raro, a escola carecia de funcionários. Ela e a zeladora ficavam responsáveis por todos os alunos do período noturno.

 – Não podia ter medo. Tinha que enfrentar. Mas nós éramos muito unidos.

Fala, orgulhosa, que seus alunos conseguiam aprovação no vestibular sem precisar de cursinho.

E diz que nunca se negou a conversar com uma família ou um estudante. A sua forma de educar era através do diálogo.

– Eu sempre busquei ser amiga dos alunos.

Deu tão certo que perdeu as contas das vezes em que foi madrinha de casamento de ex-aluno. Chegou a batizar o filho de um casal, na época de aulas na zona rural. Outro dia, foi fazer uma endoscopia e lá estava uma aluna lhe atendendo.

– Cada um deles deixou um pedaço em mim.

Isaura Rodrigues Jorge escola Fábio Barreto Ribeirão Preto

Em 2006, aos 65 anos, Isaura decidiu deixar a escola e viver a aposentadoria, que já havia saído anos antes.

A decisão teve seus motivos.

Na década de 90, quando o então governador Mário Covas reorganizou as escolas e retirou o ensino médio da Fábio Barreto, Isaura sentiu.

– Os alunos acamparam na frente da delegacia de ensino. Não queriam sair. Eu gostava das crianças também, mas sabia da luta dos adolescentes.

No final dos anos 90, quando a progressão continuada foi implantada nas escolas de São Paulo, ela diz que perdeu a vontade de continuar.

– O aluno de 4º série, muitas vezes, não está preparado para a 5ª série. É um mundo estranho. Não era do meu feitio passar o aluno sem que ele estivesse preparado.

A saudade da escola foi sendo superada aos pouquinhos, dia a dia.

Ainda hoje, confessa que sente falta do vai e vem de alunos, da rotina escolar.

– A educação mudou muito. Está deixada de lado. Faltam professores em todas as áreas, porque ninguém vai investir quatro anos na faculdade por um trabalho que não remunera bem.

A saudade, então, é de um outro tempo escolar. Um tempo que, hoje, ela guarda nas fotos e na memória cheia de detalhes.

– Me sinto realizada e sinto que valeu a pena. Fiz tudo o que quis.

Da sala do apartamento onde vive rodeada de carinho da irmã, do cunhado, da “neta de coração”, ela ainda avista a escola Fábio Barreto. Vez em quando, sente vontade de passar a mão no telefone e chamar: “Por que a escola fechou antes da hora?”.

 

 

Assine História do Dia por R$ 13 ao mês ou faça uma doação de qualquer valor AQUI!

Nos ajude a continuar contando histórias!

Todos os 12 comentários
  • Silvia Morais
    Responder

    Doce Isaura, ou a minha querida tia Nena. Fui aluna, meus filhos, cada um em sua época, e tive o prazer de trabalhar ao lado dela. Não conheço alguém que seja tão humana como ela. Obrigada Daniela Penha! Uma história dessa colore a nossa vida

  • paulo cesar sampaio
    Responder

    Dona Isaura..!! figuraça ..!!! Foi excelente diretora..!! muito alto astral..!!Estudei minha infância toda no Fábio Barreto…conheci muitos diretores,professores,inspetores de aluno, pessoal da limpeza,estudei com o sobrinho dela o Juliano.

  • Fabiana Tozi
    Responder

    Inesquecível e Maravilhosa Tia Nena, ela sempre foi e ainda é o coração da Escola Fábio Barreto… Sou feliz por ter obtido vários conselhos e aprendizados da doce Tia Nena… Tem uma história de muito orgulho, pois ela sempre fez tudo de coração e boa vontade… Parabéns Tia…

  • Isaura Rodrigues Jorge
    Responder

    Obrigada Daniela pela doçura e paciência ao ouvir “Minha História.
    Sucesso querida.

    Deixo aqui minha gratidão a amiga Silvia Morais que fez parte de minha história,
    colaborando com meu trabalho,sem interesse algum.

  • Isaura Rodrigues
    Responder

    Obrigada Daniela pela doçura e paciência ao ouvir “Minha História.
    Sucesso querida.

    Deixo aqui minha gratidão a amiga Silvia Morais que fez parte de minha história,
    colaborando com meu trabalho,sem interesse algum

  • Fernanda Restino
    Responder

    Minha eterna diretora, saudades desta época.

  • SONIA RODRIGUES JORGE DE SOUZA JORGE
    Responder

    Ah! Isaura à volta com seus aluninhos…
    É isso: a primeira lembrança é a Isaura com seus alunos na
    escola rural, onde levava o conhecimento, amor, dedicação, deixando
    lágrimas de saudade naquelas crianças tão carentes de tudo!
    Fez do magistério um sacerdócio.
    Na cidade grande , sua dedicação estendia-se também aos pais dos alunos
    com uma integração perfeita visando o bem estar daqueles que buscavam no
    Fábio Barreto caminhos para formação intelectual e crescimento como pessoas
    dignas e honradas.Dona Isaura contribuiu muito para aquela juventude, para que pudessem realizar seus sonhos. Minha querida irmã, que tanto dedicou ao ensino, é exemplo de coragem, dignidade e amor ao próximo.Parabéns por sua linda trajetória tão
    repleta de dedicação e seriedade naquilo que se propôs fazer:EDUCAR.

  • Elisângela Villa Machado
    Responder

    Dona Isaura , fui aluna na época dela e me lembro perfeitamente, uma diretora, firme mais muito nossa amiga, não me lembro de um problema é nem de reclamação sobre ela, a escola fluía sempre em paz na direção dela, lembro-me dos professores dona Claudete, Maria Helena, Zoila e dona Nilda q na época perdeu sua filha tão jovem e teve o apoio incondicional da dona Isaura e dos alunos, pq como ela disse éramos muito unidos, fiquei feliz em vê-la e saber q está bem, foi uma época inesquecível e hj com orgulho sempre mostro para os meus filhos a escola, qnd passamos perto, lembro-me também da inspetora Leila da época, tivemos a época da passeata contra o Collor onde dona Isaura foi firme e não nos deixou ir a rua, e queríamos ir se qualquer jeito, mais hj vejo sua postura totalmente correta pois não tínhamos idade pra isso… Um grande beijo com muitas saudades pra senhora dona Isaura… Obrigada por tudo ??

  • Rogerio Rodrigues da Costa
    Responder

    Dona Isaura, minha eterna diretora, quanto trabalho eu dei pra ela, Quando não ouvia meu vozeirão, dizia o Rogério não veio a aula hoje, uma época boa que jamais vamos esquecer, Obrigado Dona Isaura por brigar com nos para estudarmos e por hoje ser o que eu sou,um grande beijo no seu coração te desejo tudo de melhor na sua vida, SAUDADES!!!

  • Adriano Delfino
    Responder

    Minha queria tia nena, oque dizer de um ser tão iluminado, amo muito, mora em meu coração, uma pessoa que nasceu e vive pelo próximo, encantadora, educada, companheira, batalhadora… Enfim um ser sem maldade , nasceu simplesmente para fazer o bem e brilhar… Te amo tia nena Isaura Rodrigues Jorge. De seu sobrinho Adriano Delfino.

  • Sirlene Andre de Araujo
    Responder

    Parabéns Isaura você e merecedora de tudo e mas um pouco, uma mulher comprometida com os alunos, fazendo o possível e impossível p dar certo em tudo; me lembro que além de tudo citado , acompanhava o edital ou diario oficial como ela gostava de falar p saber de todos os detalhes, quantas vezes altas horas da madrugada vc lendo o diario e grifando cada publicação importante. Tbm lembro de quantas vezes ficou sem almoço para poder socorrer alguma criança passando mal, quantas gestantes ex alunas você fazia o enxoval, sem contar o quanto você incentivava todos sua volta a estudar eu sou uma prova que se hoje sou professora foi com grande ajuda sua, o meu agradecimento a você, que sempre terei como um espelho,de uma pessoa humilde e humana como profissional grande bjs e o meu muito obrigada por tudo!
    Parabéns Isaura Jorge por não ter nem um filho e ser mãe de vários! Minha gratidão a você (Nena) seu apelido carinhoso. Felicidades! Gostaria de agradecer Daniela pelo carinho e contribuição de todos.

  • Áurea gardênia Pereira dos Santos
    Responder

    Dona Isaura. Estudei no Fábio Barreto da primeira a oitava série. Foi um dos melhores períodos da minha vida. Eu amava e sempre amei aquele local, onde aprendi valores, aprendi sobre amizade, história, aprendi a ler e ser uma pessoa melhor para a vida e para o mundo. Me lembro de seu incentivo, de seu exemplo de mulher à frente de seu tempo e me orgulho demais em ter feito parte da sua vida. Hoje, aos 44 anos de idade eu sou uma mulher feliz, realizada, sou psicóloga, empresária e agradeço demais a formação que recebi de meus pais, dos amigos da escola e principalmente a sua excelente influência! E por 5 anos fui professora universitária, tamanho amor que tenho pela profissão de professor. Obrigada por tudo!

Deixe um comentário

Pesquisar