O ‘Jornal da Vila’ de Fernando Braga

Vale a pena ler de novo! Essa história foi publicada pela primeira vez em 5 de junho de 2017 e também faz parte do livro “História do Dia”. Para adquirir um exemplar por R$ 29,90 e nos ajudar a continuar contando histórias clique AQUI

 

São 137 edições. Desde que começou a imprimir o sonho, 12 anos atrás, Fernando não falhou um único mês.

Faz o Jornal da Vila na redação de um jornalista só, contando com um apoio aqui e ali, multiplicando o tempo.

Como é que dá certo?

Ele fala das senhoras centenárias que tiveram ali, nas páginas do jornal, suas memórias eternizadas, da moradora de rua que conseguiu assistência, da mãe que adotou seu menino, das crianças que enviam cartas todo mês, do médico com mais de meio século de atuação.

– Junto ao resgate do bairro, o jornal faz o resgate das pessoas.

Fernando Braga nasceu na Vila Tibério que faz virar jornal mensal.

Acredita na vila, nas pessoas, no que faz.

– Quando eu comecei, muitos colegas disseram que eu estava ao contrário. Que deveria fazer um jornal na zona Sul, para ganhar dinheiro. Não daria certo. Porque eu não tenho ligação com os bairros da zona Sul e porque só para ganhar dinheiro eu não teria essa disposição.

O jornal é da vila de Fernando. É da Vila Tibério. É feito com amor.

Jornal da Vila Tibério Fernando Braga

A paixão pelo impresso começou cedo para o Fernando menino. Ele conta que a “maior diversão” quando criança era visitar a antiga livraria São Paulo, em Ribeirão Preto, que tinha nome de livraria, mas era mais uma revistaria.

– Todas as novidades chegavam por lá. Eu conhecia os jornais alternativos, lia o Pasquim. O jornal sempre fez parte do meu interesse.

Em 1975, aos 23 anos, começou, então, a fazer os jornais que já tanto amava.

A primeira redação foi O Diário.

– Esse jornal fez uma revolução na época. Uma revolução no espírito do jornalista e nas formas de fazer jornalismo.

Passou pelo Diário da Manhã, Diário de Notícias, Jornal de Ribeirão, Verdade: foram 30 anos como funcionário em jornal impresso.

Começou na fotografia, passou para a diagramação e no Verdade passou a escrever textos. O encantamento – que já era grande – ficou ainda maior. E fez surgir a ideia do Jornal da Vila. Seu próprio jornal.

Nasceu na Vila Tibério, cresceu por ali: Fernando não via lugar melhor para colocar o sonho em páginas.

Havia o medo, porém.

– O grande medo era a parte comercial. Será que vai vender?

Vendeu! Faz 12 anos que, todo mês, o Jornal da Vila vende.

Em tempos de crise, com grandes redações encerrando as atividades, o Jornal da Vila não paga as contas de Fernando, mas também não dá prejuízo.

Hoje, são entre 70 e 80 anunciantes, que ajudam a manter o projeto vivo. O Jornal da Vila tem tiragem de 10 mil exemplares, chegando a bairros de toda Ribeirão.

– É porque eu conto as histórias das pessoas. A Vila é um bairro histórico. São histórias de solidariedade.

Para pagar as contas que faltam, Fernando faz freelas em editoração, multiplica o tempo entre o fechamento do jornal mensal e os outros trabalhos e, por fazer o que ama, não reclama.

Só agradece.

– Os jornais e revistas de nicho vão continuar!

Jornal da Vila Tibério Fernando Braga

Em 12 anos de jornal, Fernando ampliou o conhecimento que já tinha sobre a sua vila.

– Quando eu decidi fazer o jornal, já conhecia muita coisa. Mas não conhecia a história de cada coisa.

Hoje, ele é, por si só, memória do bairro. Conta da formação da vila ao redor da ferrovia, que chegou em 1885. Fala da chegada da fábrica da Antártica definindo de vez a Vila como um bairro operário.

– Você sabia que a Vila Tibério teve dois cinemas?

Relembra, cheio de orgulho, da vida cultural própria do bairro, com cinemas, teatro, lazer.

– Hoje, para se divertir o morador tem que sair do bairro.

Fernando diz que, quando a ideia do jornal surgiu, a Vila estava triste.

– A auto estima do bairro estava tão baixa que as pessoas não queriam mais ficar aqui. Queriam mudar para outros lugares.

E abre um sorriso para falar do leitor que, após alguns meses de publicação, escreveu para dizer que o Jornal da Vila “resgatou a alma da Vila Tibério”.

– As pessoas não sabiam da nossa história e do que tem no bairro. A gente valoriza essa história.

E, valorizando, vai unindo vizinhos.

Fernando  diz que implantaram o Bloco da Vila, colocaram um busto na Praça Sagrado Coração de Maria, como homenagem ao fundador do bairro, Tibério Augusto, fizeram o monumento aos trabalhadores do café no início da Avenida do Café.

História valorizada, povo feliz.

Jornal da Vila Tibério Fernando Braga

Na redação improvisada em um cômodo da sua casa, Fernando guarda livros sobre a história de Ribeirão e os encartes do Jornal da Vila.

– Estamos no ano 12!

Mais de uma década de jornal e não há qualquer intenção de parar.

Para cativar novos leitores, faz parceria com as escolas do bairro. Todo mês, as crianças mandam cartas com suas opiniões de leitoras ao Jornal da Vila. Vez que outra, teimam em conhecer o jornalista que escreve.

Teimosia que só faz bem.

Fernando abre um sorrisão quando conta que, quando esse convite vem, visita as escolas ou traz as crianças até a redação improvisada.

No seu quintal, uma placa talhada em madeira avisa que ali é mais que residência:  é o Jornal da Vila.

Já teve convites para implantar o projeto em outros bairros e recusou. Adivinhe por que?

– Não é a minha vila…

Fazendo um jornalismo que dá certo, ele opina sobre o jornalismo tradicional.

– Falta ir até o entrevistado. Muito repórter nunca viu o entrevistado pessoalmente.

Fazendo um jornalismo que ama, não pensa em parar de contar histórias.

– Eu espero continuar até o fim. Não consigo me ver sem estar fazendo um jornal.

Na Vila Tibério, a história dos moradores é manchete. Não há assunto mais importante!

 

Assine História do Dia por R$ 13 ao mês ou faça uma doação de qualquer valor AQUI! 

Nos ajude a continuar contando histórias! 

Deixe um comentário

Pesquisar