O legado solidário de Felipe Gui Rocha

No banho solidário que leva dignidade a quem vive na rua…

Na sala da ONG que atende crianças e adultos em vulnerabilidade…

No arrastão que arrecada alimentos…

Na passeata que conscientiza sobre o câncer infantil…

Na escola batizada com seu nome…

No coração de cada um que pôde conviver com o menino comunicativo que não passava desapercebido.

Felipe partiu cedo demais, não há como negar. Deixou, entretanto, legado solidário que não pode ser medido por meses e anos. Amor não se mede. O jovem foi embora aos 19 anos, mas deixou doses ilimitadas de amor por onde passou.

Na sala do avô, Francisco Fernando Rocha, as fotos do menino estão espalhadas por todo lado. As lembranças das viagens, os escritos, os títulos. Felipe está em cada canto. No armário de madeira, Francisco guarda os registros de uma vida toda do neto. Não pode deixar que se perca nada do que faz a memória de Felipe eterna.

A eternidade, no entanto, está na solidariedade que Felipe compartilhou.

Um dos últimos projetos, Banho Solidário, foi planejado com o avô. Os dois viram a iniciativa – realizada em outra cidade – pela televisão. O jovem colocou a ideia no papel, com estimativa de investimentos e tudo o que era preciso para começar. Não houve tempo.

Naquele 30 de julho de 2017, organizou uma surpresa de café da manhã pelo aniversário da mãe. Por volta das 12h, passou na casa do avô para deixar o carro e partiu com dois amigos, em um veículo alugado, para Belo Horizonte.

O motivo da viagem era a implantação de uma startup para agendamento de consultas. A ideia era facilitar e democratizar o acesso à saúde, e o jovem estava muito animado.

O avô alertou:

– Eu ainda falei para eles: ‘Por que vocês não vão de avião? Muito mais tranquilo! Vai pegar uma estrada dessas!’. Juro que falei!

Por volta das 16h30 a família foi avisada sobre o acidente, perto de Piumhi (MG). O carro onde os jovens estavam bateu de frente com outro veículo. Felipe e seu amigo Raulo, que criou a startup, morreram na hora.

Os projetos que Felipe tanto amava continuaram vivos, porém.

Foi preciso juntar cada pedacinho dos corações despedaçados da família e dos amigos. Mas a solidariedade alivia – ao menos um pouquinho – a dor abissal.

Felipe Gui Rocha Ribeirão Preto

Quem conta a história de Felipe é o avô Francisco, o tio Fernando e o pai Gustavo.

Gustavo entra e sai da sala, complementando com um relato, mostrando o vídeo que Felipe fez no Natal de 2016 pedindo doações de brinquedos para as crianças que escrevem cartinhas aos Correios.

Foi iniciativa própria. Soube que havia muitas cartinhas aguardando um doador e decidiu compartilhar um vídeo nas suas redes sociais. O registro está no celular de Felipe, amassado pelo acidente, que o pai carrega consigo.

– Todos os dias, eu olho o celular dele. Entro para ver as mensagens, as novidades.

Felipe, nas memórias da família, sempre foi um menino cheio de iniciativa e vontade de mudar o mundo.

Aos 12 anos, seguindo os passos do avô, que integra a maçonaria, ele entrou para a ordem demolay. Francisco guarda o questionário que o neto respondeu na sua admissão.

Qual é o conceito de religião? Era a pergunta. “Não concordo muito com religião. Acho que hoje, na maioria delas, há exploração moral e financeira através da palavra de Deus”.

O que é ser líder para você? Outra pergunta. “Líder é aquele que sabe trabalhar para o grupo, não para si mesmo”.

O avô lê o questionário em voz alta:

– Ele só tinha 12 anos! Olha as coisas que pensava!

Desde que entrou para ordem, Felipe coordenava e participava ativamente de projetos sociais: arrastões, eventos, campanhas.

Em 2015, quando o jovem foi mestre conselheiro, o arrastão arrecadou número recorde de doações para instituições sociais: 7.480 quilos de alimentos. O avô guarda o saldo impresso em homenagem.

Em 2014, Felipe conversou com Francisco sobre outro projeto que estava em mente. Queria que Ribeirão Preto entrasse no círculo da “Caminhada Passos que Salvam”, pela conscientização sobre a cura do câncer infantil.

Francisco abraçou a ideia mais do que rápido e organizaram a passeata, com arrecadação de mais de R$ 50 mil para o Hospital do Câncer de Barretos.

Felipe entrou na Universidade Federal do Triângulo Mineiro em 2016, curso de Engenheira de Produção, aos 18 anos. Morava em Uberaba, mas não passava muitos dias sem visitar a família em Ribeirão. Em terras mineiras, continuou criando.

– Ele tinha essa liderança natural. Era dele.

Começou a organizar um TEDx, depois que participou de um evento em São Paulo. Escreveu: “Mais do que trazer um evento do porte do TEDx para Uberaba, meu objetivo é transformar as pessoas daqui como fui transformado um dia”.

Escolheu como tema “Metamorfose”: “Nosso maior objetivo é inspirar pessoas a mudarem suas vidas, sua comunidade e o mundo”.

Ele morreu antes de ver o evento realizado. Os amigos decidiram que esse projeto também iria continuar vivo. Levaram sua memória para camisetas e homenagens.

Com suas palavras compartilhadas para centenas de jovens, Felipe continuou – e continua – cumprindo o papel de transformar o mundo em que tanto acreditava.

Felipe Gui Rocha Ribeirão Preto

Francisco não negava uma missão. Estava com neto em qualquer empreitada.

Conta das vezes em que Felipe ligou animado, com um novo projeto em mente, e o avô se deixou contagiar. Levava o jovem e seus amigos para eventos fora de Ribeirão, ajudava a arrecadar doações, cuidava dos projetos.

Quando Felipe ainda era criança, participava com o avô de uma missão natalina. Francisco foi por 13 anos Papai Noel de uma instituição filantrópica. Levava os netos como ajudantes na entrega dos presentes.

Relembra uma passagem que marcou. Foi com Felipe e os amigos entregar os alimentos arrecadados em um arrastão a um asilo e, depois, a uma creche.

– Eu expliquei para eles: nós chegamos ao final da vida. Agora, vamos ao começo.

Conta também do título – cheio de responsabilidade – que o neto lhe deu.

– Um dia ele me ligou, eu estava em São Vicente. Ele disse: ‘Vô, você vai ser oficial executivo!’ O oficial faz parte da ordem demolay e fica responsável por uma região. Eu falei: ‘Como assim, Felipe?’.

Ficou por dois anos no cargo, cuidando de seis municípios da região de Ribeirão. Pedido de nego, Francisco bem sabe, não dá para negar.

– Ser solidário é servir as pessoas, em qualquer tipo de necessidade. Você pode servir com um abraço, um carinho, uma palavra, uma doação. Amor ao próximo: eu acho que isso é a verdadeira solidariedade.

O legado do jovem veio como herança de família. A solidariedade de Felipe teve raízes feitas de barba branca e carinho de avô.

Tanto que foi para Francisco que ele deixou seus últimos projetos. Coube ao avô apoiar mais essa empreitada, com o mesmo amor de sempre.

Felipe Gui Rocha Ribeirão Preto

Francisco teve o apoio e a união de toda família e da maçonaria, há que se dizer. Conseguiram cerca de R$ 15 mil para construir a carreta e no dia 4 de novembro de 2017, quatro meses após o acidente, colocaram para funcionar o Banho Solidário que Felipe deixara em papel.

– Ele disse que esse projeto iria trazer dignidade aos moradores de rua.

O tio Fernando Rocha tem na ação uma prioridade.

– O meu lado solidário estava adormecido. Agora, está aí. O Felipe deixou a semente e a gente está aguando.

É dia de banho. A carreta para na praça e logo está rodeada de pessoas. São duas cabines com chuveiro quentinho. Os moradores em situação de rua recebem um kit com produtos de higiene e uma toalha que, após o uso, é devolvida.

Fernando mostra o vídeo do homem que estava vivendo na rua e, depois do banho, conta ter conseguido um emprego.

Desde que o projeto começou, até o dia 6 de abril deste ano – data da entrevista – já haviam distribuído cerca de 350 banhos. Além das ações na praça uma vez por mês, fazem parcerias com ONGs e instituições.

A ideia de Fernando é espalhar a iniciativa do Banho Solidário by Felipe Gui Rocha Brasil afora.

– A gente não tinha ideia da quantidade de pessoas que querem compartilhar o bem. Todo dia, bate alguém aqui na porta querendo fazer uma doação para o projeto.

Depois da morte de Felipe, a família também doou alguns móveis do jovem para ONG que atende crianças e adolescentes com deficiência.

Um processo na Câmara de São Paulo conseguiu que uma escola estadual no Parque Flamboyant, onde Felipe havia doado muitos livros, ganhe o nome do jovem. O batismo, no entanto, é só uma ponta de outro projeto que ele estava estruturando com o avô.

A ideia é incentivar os jovens da ordem demolay a cuidarem das escolas públicas, com apoio que vai desde reforço escolar aos alunos até manutenção do espaço.

Tudo isso, Francisco diz, está sendo colocado em prática.

-Tem muito mais por aí. Muita coisa que ele deixou e que precisa funcionar.

Conta que no armário de madeira onde guarda a trajetória de Felipe em recordações há uma lista com 11 projetos que vai colocar em prática pela memória do neto.

Ao longo da conversa, há muita emoção e choro. Francisco e Fernando se esforçam para secar rápido as lágrimas, no entanto.

– Nós sabemos que não podemos ficar nesse sofrimento porque queremos que ele esteja bem onde estiver. O Felipe deve estar cheio de projetos lá no céu.

É o tio Fernando quem diz.

Seu sobrinho partiu cedo demais, não há como negar. Mas deixou legado que não se mede em meses e anos. O amor não tem medidas. Felipe, em solidariedade, continua presente.

 

Crédito da foto da carreta “Banho Solidário”: Paula Abi Rached Fotografia.

 

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Todos os 5 comentários
  • Marina Berardo da Silva Passos
    Responder

    Como não se emocionar? …Parabéns, Daniela por divulgar este exemplo mais que edificante…as palavras são insuficientes para descrever este ser divino…que seu exemplo continue a frutificar e inspirar pessoas…

  • luiz cláudio novaes da silva
    Responder

    Fui professor do Felipe no ensino médio, uma super pessoa!
    Fiz esta poesia para homenageá-lo…

    Felipe…

    Convivi com
    o menino,
    com o jovem
    e com o homem…
    Sempre foi
    a educação em pessoa,
    o brilhantismo em pessoa,
    o cavalheirismo em pessoa…
    Mas acima de tudo
    a humildade em pessoa.
    Vai descansar menino – homem…
    Deus quis tornar-te exemplo
    ainda muito jovem,
    para todos que ficamos…
    uma lição de vida e
    um vazio que o tempo
    não vai preencher.
    Mas ficam as lembranças
    daqueles bons tempos
    em que todos nós
    brilhavamos no mesmo lugar.
    Vai garoto, continua daí de cima
    iluminando a gente…
    Não adianta buscar explicação…
    É que Deus mal podia esperar pela ajuda
    do melhor dos engenheiros de produção.

    Luiz Novaes

  • BeneditoAlves Mendonca
    Responder

    Felipe, pelo fato de morar em cidade diferente a minha convivência com você foi muito pequena. Eu sabia que você era “diferente”…. Eu me lembro que pude participar da sua vinda para o primeiroTEDx aqui em São Paulo. Não calculava o benefício que lhe proporcionou….Posso dizer que dei uma mãozinha neste processo e disto me orgulho…
    Neste Planeta tão complicado você deixou uma semeadura e do lado em que se encontra inspire nos no trabalho do bem..
    Seu tio avô
    Mendonça ou simplesmente Bê…

  • Patrícia Penha Mendonça
    Responder

    Felipe é um primo querido, que tem uma alma linda demais. Sua historia continua deixando marcas na nossa sociedade e precisa de fato ser compartilhada para nos inspirar e nos fazer acreditar que sempre podemos mais.

  • Nara Lemos
    Responder

    Que exemplo de família guerreira que através da perda irreparável perpetuam o legado desse jovem incrível que hoje intercede pelos projetos sociais lá de cima. O legado solidario será eterno, em tão pouco tempo de vida causou uma revolução em sua família e no meio de convivência. Parabéns por todas essas concretizações???

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