Os picadinhos de Regina

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Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 16 de março de 2017.

 

À primeira vista poderia ter sido: Regina vende verduras e legumes picados.

Poderia, se fosse só isso.

Pouco tempo de conversa e já se entende que é bem mais.

É a senhorinha com artrose que não consegue mais cortar cabotiá.

A menina que tem alergia à cenoura crua e não pode descascar o legume antes de cozinhar.

O casal de idosos que come brócolis e couve-flor em pequena quantidade.

A amiga que nunca encontrava salsa quando queria fazer um salpicão.

Tudo isso vem em bandejinhas coloridas vendidas na feira, em lojas e nos mercados de Ribeirão Preto.

– Cada bandejinha tem a história de um cliente. Foi feita pela necessidade de cada um.

É Regina Riroko Hatano Kogawa, 50 anos, quem diz. E comprova pelo carinho com que fala do trabalho, que é realização.

No discurso, os legumes e verduras ganham pronomes pessoais. São parte de Regina. Coisa animada.

– Uma alface pode ser só uma alface. Com o toque humano, com o carinho, ela ganha um encantamento.

A história começou por volta de 1975, quando o tio de Regina ajudou os pais dela a comprarem uma barraca na feira em Ribeirão. Com nove anos, a menina corria entre as barracas, prestando atenção no trabalho duro e ganhando uma e outra função.

– A gente ia aprendendo a ter responsabilidade.

Conheceu o marido na barraca vizinha, com 16 anos. Ele vendia verduras e Regina mal sabia como nascia um espinafre.

– Meu pai trabalhava só com tomates. Eu não tinha ideia!

Quando casaram, ela passou a cuidar da horta com o marido.

Mas sentia que não era ali que queria estar.

– Sabe quando você não se sente realizada?

Todo dia, era o mesmo ritual. Regina colhia a couve para a feira e, no caminho da horta até o tanque, ia apertando os brotinhos entre os dedos e pedindo uma ideia de mudança.

Não sabia, entretanto, que a couve seria, ela mesma, a forma de mudar.

Foi descobrir na banca do vizinho que vendia couve picada, tempo depois.

A couve foi o primeiro picadinho de Regina.

E levou meses até que ela também passasse a picar salsa.

Só fazia sob encomenda, para o cliente que pedia.

– Mas eu percebia que, sempre que sobrava, tinha venda.

E foi aumentando a oferta pouco a pouco: repolho, almeirão.

A ideia foi tomando forma.

– Os outros produtos foram conseqüência. A necessidade de uma pessoa acaba sendo a de muitas.

E, quando Regina se deu conta, um negócio estava criado.


 

Hoje, são duas lojas, feira livre, mercados e restaurantes que fazem dos picadinhos um negócio. Regina conta com 40 funcionários e não divulga a quantidade de legumes que vende.

– Senão, as pessoas passam a achar que é isso que importa. E não é só isso.

Boa parte do trabalho é feito à maquina.

Boa parte, não tudo.

Não é a máquina que escolhe as frutas e legumes do fornecedor.

– Muita gente acha que a gente coloca conservante. Não é! É a qualidade do produto. É a higienização na hora de fazer.

Também não é a máquina que monta as bandejinhas, com cores de encher os olhos.

– Parece que a bandeja fala com a gente pela cor. Primeiro, a pessoa vai olhar se a bandeja está bonita. Depois, ela vai ver o que tem dentro.

E, principalmente, não é máquina que coloca carinho no que faz. É a Regina.

– É uma missão. Minha missão é servir o outro da melhor forma possível. É isso que faz o cliente enxergar que está comprando vida. É o toque humano!

Quando a pergunta é se Regina chegou onde queria chegar, coloca o rosto entre as mãos e balança a cabeça de um lado ao outro, como se escutasse um disparate.

– Não, menina! A gente tem muito a melhorar! Muito que crescer!

Os planos são muitos. Mas a essência que vai nas bandejinhas não há de mudar.

Regina é quem – até hoje – atende os clientes na barraca da feira de terça e domingo. Acorda de madrugada, monta banca, como lá no começo. Faz questão também de passar nas lojas, conversar com fornecedores.

Não se classifica como empresária. Para a pergunta: “Qual é sua profissão” responde “feirante”, com a boca cheia de orgulho.

– É a satisfação de se fazer o que gosta. Transformar o inhame numa coisa branquinha é dar a ele o devido valor. É como se a gente estivesse agradecendo por enxergar o que Deus nos dá.

 

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