Para Thales, todo amor do mundo

– Tem que ser o quê, Thales?

O menino tem na ponta da língua a resposta para a pergunta da mãe:

– Feliz!

Diz, sem pestanejar.

É assim que Amanda tem ensinado o pequeno a pensar. É assim que ela pensa.

Quando soube que o filho tem síndrome de Down, depois do nascimento, decidiu que o único objetivo seria lutar para que Thales seja o melhor que pode ser.

Amanda deixou o emprego como farmacêutica para estar com o filho e, como voluntária, passou a confeccionar e vender camisetas para ajudar a instituição que atende seu pequeno desde o 28º dia de vida.

Já vendeu mais de 1,5 mil camisetas, em três anos de voluntariado.

Agora que Thales completou cinco anos, está indo na escola e sobraram algumas horas do dia, ela aprendeu a fazer pães de queijo e vende as delícias em pacotinhos.

– Quem fez esse pão de queijo?

Sou eu que pergunto a Thales, que devora com gosto um pãozinho.

– A mamãe!

Ele me diz, também com a resposta na ponta da língua.

Síndrome de Down - Ribeirão Preto - História do Dia

Thales, primeiro filho, foi planejado por Amanda Roma e Daniel Regassi. A gestação seguiu tranquila, o bebê nasceu na 35º semana, com o diagnóstico da síndrome de Down.

Amanda diz que sua única preocupação ao receber a notícia era saber se o filho teria problemas graves. Nada: quatro meses de exames mostraram que Thales não precisaria de cirurgias, não tinha comprometimento nos órgãos, estava bem.

Com 28 dias daquela nova vida, Amanda decidiu que já era hora de começar os estímulos.

A família mora em Guariba, que não tem instituições especializadas. Encontraram as portas da ABCD Down abertas em Jaboticabal. A mãe, de licença maternidade, levava o pequeno à instituição quase todos os dias.

Quando Thales completou seis meses e a licença venceu, Amanda decidiu deixar o emprego de farmacêutica, mesmo com os recursos da família diminuindo pela metade.

– Eu gostava do meu trabalho e o salário fazia diferença na nossa vida. Mas era o momento dele. Um dia, eu volto.

Daniel, que é despachante, apoiou a ideia e buscou, então, dobrar os serviços.

– Se não fosse a Amanda com ele todos os dias, ele não iria se desenvolver tanto.

A ideia das camisetas voluntárias surgiu logo aí.

Amanda queria encontrar uma forma de retribuir toda a atenção que Thales recebia – e ainda recebe – na ABC Down, mas não tinha condições de ajudar financeiramente.

A instituição não tem fins lucrativos e atua de forma beneficente.

Amanda havia ganhado uma camiseta com mensagens sobre Down de um parente. Bateu e olho e pronto: tinha um projeto!

Estampar camisetas seria um caminho para combater o preconceito, divulgar a instituição e, de quebra, levantar fundos.

Começou o trabalho em 2014 e já vendeu mais de 1,5 mil camisetas, arrecadando, em média, R$ 6 mil ao ano, que doa na íntegra para a instituição.

– Eu nunca pensei que iria crescer tanto quanto cresceu!

Diz que só não vende mais porque não tem estrutura para produzir em tão larga escala. Já chegou até a mandar peças por correio para lugares do Brasil.

Nas camisetas, a mesma frase faz refletir: “Quer saber de ‘cromossomos’ ou de ‘como somos’? Ter Down pode ser up!”.

 – O objetivo principal é colocar o mundo para pensar através da nossa mensagem. A síndrome de Down, para nós, não teve lado ruim. O Thales só trouxe alegria.

Síndrome de Down - Ribeirão Preto - História do Dia

No mês passado, Thales completou cinco anos.

Falante e esperto, durante a entrevista no parque não parou um minuto de brincar e fazer perguntas!

– Tem galinha? E gorila? Vamos passear?

No ano passado, ele começou a ir para a escola e a rotina da Amanda ganhou umas horinhas livres.

Pensou em abrir uma loja, repensou. Pensou em um tantão de coisas e, na internet, viu uma receita de pão de queijo recheado que, em Guariba, era novidade.

Diz que nunca cozinhou profissionalmente, mas, há dois meses, decidiu arriscar. Criou o “Amigos – Pão de queijo artesanal” e, só no primeiro mês, vendeu mais de mil pãezinhos.

Thales continua indo na ABC Down três vezes por semana, no horário contrário à aula. A rotina de Amanda, então, se desdobra em mãe, motorista, dona de casa, criadora e vendedora de camisetas e, agora, de pães de queijo.

– Vale a pena!

A mãe conta, toda-toda, que Thales já escreve seu nome, sabe as letras do alfabeto e até em inglês já tagarela por aí.

– A gente sempre comemorou cada conquista dele: sentar, andar, falar! Fazíamos fotos, mandávamos para a família toda. Tudo é uma festa!

É de pequenas grandes conquistas que Amanda espera o futuro.

– Eu busco independência. Não penso em carreira, faculdade, dinheiro. Quero que ele seja independente. Que possa ir sozinho ao mercado, comprar uma roupa.

Vai continuar fazendo camisetas, pães de queijo e tudo o mais que seu pequeno precisar. Tem que ser o que?

Amanda sabe bem a resposta, que Thales diz sem pestanejar. Tem que ser feliz! Vai criando os caminhos dessa tal felicidade.

 

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Síndrome de Down - Ribeirão Preto - História do Dia

Comentários
  • Valéria Ribeiro
    Responder

    Que história linda que conheço do primeiros dias dias de vida do Thales . Que amamos como um filho .Thales tia Valéria e tio Lu te ama meu amor

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