Pelo filho, Tânia redobrou as forças na luta por educação inclusiva

O pai era radiologista com consultório montado e a mãe enfermeira. Tânia tinha tudo para seguir carreira na área de saúde. Escolheu cedo, porém, que queria ser professora.

A formação em colégio de freiras, com engajamento social forte, foi uma das razões para a escolha. Anos depois, entretanto, ela foi perceber que havia mais.

Na vida, não há ponto sem nó, novelo, história completa.

Em 1980, aos 26 anos, Tânia teve seu primeiro filho. João nasceu com síndrome de Down em uma época de poucas informações e muito preconceito.

A mãe, que já atuava como professora priorizando cada aluno como indivíduo singular, se especializou em educação inclusiva.

– Eu procurei algumas instituições, mas as opções que me ofereciam para o João eram tão rasteiras… eu pensava: como ele vai aprender com esse sistema? Meu incentivo para continuar professora foi maior ainda.

Tânia Regina Levada fez mestrado e doutorado em Educação Especial, foi coordenadora de educação especial na Prefeitura de Ribeirão Preto, professora universitária e desde 2003 atua na Federação nacional das APAEs, viajando Brasil afora com o objetivo de levar autonomia para pessoas com deficiência.

Em quase todas as viagens, está acompanhada. O filho João, além de estar junto, participa de palestras, compartilha depoimentos, conta a história que escreve junto com a mãe.

Em casa, a parceria continua. Os dois vão juntos até nos barzinhos de domingo.

– A linha que separa a inclusão da exclusão é tão tênue que flutuamos nela. O primeiro passo foi dado, mas há um longo caminho pela frente. O preconceito continua nosso maior desafio.

A história de Tânia é inclusão por inteiro.

Tânia Regina Levada educação inclusiva

A casa de Tânia é do tipo que fala por si. Livros, quadros, fotos, gatos: há vida e história espalhada por todos os lados.

Ela cresceu em São Paulo, onde decidiu que seria professora e, aos 18 anos, começou a dar aulas. Passou no concurso da prefeitura aos 19 e atuou na cidade por 12.

Começou a ampliar seu olhar sobre a educação já no começo.

Conta que foi escalada para dar aulas em uma escola de periferia, para alunos com dificuldade de aprendizagem.

Nessa época, trabalhava com alfabetização e, questionando os métodos tradicionais, conheceu o trabalho da psicolinguista argentina Emilia Ferreiro, conhecida por revolucionar a educação com a ideia de que as crianças constroem o próprio conhecimento, participando ativamente do processo de aprendizagem.

– Eu não acreditava naquela forma mecânica de alfabetizar. As crianças repetiam de ano porque não conseguiam aprender. Meninos de 12, 13 anos repetiam ano a ano as mesmas coisas.

Ao final de um período aplicando os novos métodos em uma sala de 25 alunos, ela concluiu que a educação é, de fato, um processo que deve priorizar o humano.

– Dos 25, tivemos dois alunos que não conseguiram. Mas eram crianças com lesão cerebral muito severa. Continuei, então, na mesma linha.

Em 1980, quando João nasceu, Tânia terminava a segunda faculdade que escolheu cursar. Se formou em Direto e, apesar de nunca ter atuado como advogada, utilizou os conhecimentos para determinar sua linha de pesquisa na educação especial.

Decidida a abrir caminhos para o filho e para as outras tantas crianças que têm direito à inclusão, ela pesquisou a autoadvocacia de pessoas com deficiência intelectual e paralisia cerebral e atuou junto às famílias.

– A ideia é fazer o indivíduo falar por ele mesmo, ter condições de fazer escolhas, buscar os caminhos para que ele mostre as necessidades que tem. O que a gente acha nem sempre é o que ele quer.

Nessa linha, Tânia atuou na Secretaria de Educação de Ribeirão Preto – para onde veio em 1987 com o marido, João e o filho caçula. E desenvolveu trabalho com a Federação Nacional das APAEs, viajando pelas cidades do Brasil para atuar diretamente com jovens.

Ela relembra a história do menino com síndrome de Down que abriu a própria loja de sucos em uma praia de Guarapari, Espírito Santo, e viajou sozinho para São Paulo comprar adornos para enfeitar seus drinks.

Do outro que conseguiu emprego em uma empresa que custou a entender que há, sim, possibilidades de trabalho para pessoas com deficiência.

– A barreira do preconceito não foi rompida porque ainda há muita falta de conhecimento. O paradigma histórico é muito forte. Um cego é uma pessoa perfeitamente capaz, mas a gente ainda muda o comportamento quando fala com um cego.

Tânia Regina Levada educação inclusiva

Com João, Tânia tenta aplicar o conhecimento que compartilha Brasil afora.

Ela conta que, quando soube do diagnóstico do bebê, se trancou por duas horas no quarto e chorou tudo o que pôde chorar.

– Depois, eu sequei o choro, decidi que não iria chorar mais uma lágrima e fui à luta.

Com 15 dias de vida, João já passava por terapias. Com um ano e meio, ele já andava.

Hoje, aos 37 anos, ele me conta das namoradas que teve, dos trabalhos, do tempo em que tocou na fanfarra, das aulas de natação e dos planos de futuro, além do sonho de conhecer a Sandy.

– Eu quero ficar velho e morar com a minha mãe o resto da vida. E quando não tiver mais minha mãe, vou ficar aqui em casa mesmo!

Tânia, que vê a educação progredir a tanto custo e em passos tão curtos, diz que sente vontade de desistir vez que outra.

– Mas eu não posso. Pelo João também. O grande defeito do professor é ser otimista. A gente tem ‘a estranha mania de ter fé na vida’.

Os exemplos de como a educação inclusiva ainda não é praticada são muitos.

Tânia tem uma lista de histórias de professores que não sabem como lidar com alunos com deficiência. O problema, ela aponta, está exatamente aí: o professor não recebe a capacitação necessária para fazer cumprir o que é lei.

– Falta apoio para o professor. Eu sou completamente favorável a que se oriente o professor sobre quem são as pessoas com quem ele está lidando. Incluir na escola não é matricular.

Educar, para Tânia, tem pouco a ver com protocolos.

– O maior desafio é formar pessoas integrais. A parte humana ficou relegada. Há muito conteúdo e pouca formação. A educação inclusiva não é educação para pessoas com deficiência. É educação para todos.

Otimista que é, continuar a acreditar.

– Eu tenho muita fé de que as coisas vão melhorar.

Sabe, porém, que é preciso bem mais que esperança.

– Muitos problemas seriam resolvidos se a gente tivesse a educação como prioridade do governo, com incentivos e recursos.

Como educadora e mãe do João, segue fazendo a sua parte. A inclusão para Tânia, mais que profissional, é assunto do coração.

 

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Comentários
  • Marina Berardo da Silva Passos
    Responder

    Parabéns, por mais uma história de vida tão edificante! É muito positivo propagar bons exemplos e ainda escrevendo com clareza e arte!

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