Professor Vander: preso e torturado pela Ditadura Militar

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 3 de abril de 2017. 

 

– Não queira imaginar o dano que a tortura faz na sua cabeça. Quem passou por tortura nunca fica tranquilo. É o que existe de pior.

Aos 74 anos, Vanderlei Ferreira Fontelas, o professor Vander, tem medo de expressar certas opiniões, relembra o passado com receio e logo avisa:

– Certas coisas eu prefiro nem falar. A gente não sabe o que vem por aí. Estou muito cético em relação a evolução social e ao cenário político. Não vejo possibilidade de mudança.

Aos 27 anos, foi torturado pela ditadura militar. Passou cinco meses no presídio de Tiradentes, junto a outros presos políticos.

A tortura, ele conta, foi no período do inquérito, quando morava em Franca e participava de movimentos políticos por lá.

Os agentes o colocaram num carro, levaram a um local e começaram os questionamentos.

– Um colocou uma arma no meu ouvido e o outro gritava: ‘Acaba logo com isso’.

Vander nunca mais andou na rua sem se apavorar com barulho de carro se aproximando.

Nunca mais conseguiu se expressar publicamente sem medir bem as palavras.

Em sala de aula, como professor de História, demorou a se sentir seguro de novo.

– Até a década de 80, eu só ensinava o factual. Nada de ficar interpretando a história. Depois de 80 é que eu voltei a orientar os alunos para o senso crítico. E só depois de 90 eu falei sobre a tortura que vivi.

Vander conheceu o senso crítico em casa. O pai, ele conta, tinha engajamento político, participava de movimentos, defendia o comunismo como um ideal de igualdade.

Não demorou para o filho seguir o mesmo caminho.

O menino, que nasceu no dia do professor, decidiu seguir a profissão ainda adolescente. Fez o magistério em Franca, onde estudava, e ali começou seu engajamento político.

Participava do Centro Popular de Cultura e defendia a liberdade. Bastou para a prisão.

Vander relembra que dividiu cela com outros 16 homens: todos presos por defender um ideal político. Dois jornalistas, dois médicos, seis padres dominicanos, um professor de física, um marinheiro, alguns estudantes e Wanderley Caixe, o ribeirão-pretano que também lutou contra o regime militar.

Todo dia, um dos presos fazia uma palestra. Ensinava aos outros um pouco do que sabia.

O contrabando existia dentro das celas. Mas, ao invés de celular e arma, os presos políticos contrabandeavam livros de leitura proibida.

 – A censura proibia livros pelo simples fato de terem a palavra “vermelho” na capa.

As notícias das mortes da ditadura não paravam de chegar. O medo era constante.

Vander deixou a cela no dia 9 de novembro de 1970. Lembra a data exata da prisão e da soltura. Mudou para o interior de São Paulo, voltou a dar aula – mas sem críticas – e tentou reconstruir a vida. Em 78, mudou para Ribeirão Preto.

Não casou e nem teve filhos. Diz que escolheu assim.

Deixou a sala de aula em 2001, aos 59 anos.

O carinho dos ex-alunos continua ainda hoje. O “professor Wandão” recebe convites para churrascos, almoços, barzinhos – e tenta comparecer em tudo!

Resultado de anos pautando suas aulas na liberdade.

– A minha aula era livre, leve, descontraída, mas sempre com muita informação.

Aderiu à tecnologia para matar a saudade dos alunos. Está conectado ao Whatsapp e Facebook. Mas gosta mesmo é da conversa olho no olho.

Quase todos os dias, vai a rodoviária, senta por ali e bate papo com quem passa e com quem fica. Lê jornais, assiste as notícias pela TV, para estar ciente do que se passa ao redor.

– Mas não faço a leitura que a mídia quer que eu faça. Faço a minha leitura das coisas.

Assiste filmes e tem uma lista extensa de indicações. Diz que é “do tempo da Bossa Nova” e retoma os versos de “Como nossos pais”.

– “Nossos ídolos ainda são os mesmos”. É incrível, não é?

As aspirações de ontem foram substituídas por sonhos que Vander não confia ver realizados.

– Aos 74 anos, não aspiro muito. Acredito que já tenho mais passado do que futuro. Mas minha vontade é de que o ser humano possa encontrar um caminho melhor. Essa desigualdade tão grande é incompatível com o ser humano. Minha tônica é justiça social.

As coisas não saíram como ele previu, lá na década de 60, começando a dar aulas e cheio de ideologias. A ditadura foi veneno na plantação de tantos sonhos.

“O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou?”, cantou a mesma Elis Regina de “Como nossos pais”. A tortura foi sombra na vida do professor.

Mas ele aprendeu a semear mesmo sem muito sol.

– Se sou realizado? Profissionalmente sim. Porque tenho a convicção de que cumpri com a minha missão. Tem gente que leva a vida infeliz pelo sonho de ficar rico. Esse sonho eu nunca tive. Eu acredito na promoção do ser humano. É o que tem de mais importante aqui.

Vanderlei nasceu no dia do professor. Aos 74 anos, não dá mais aulas. Mas continua a ensinar.

 

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Comentários
  • Denise
    Responder

    Quem conheceu este mestre da vida, das histórias e estórias, pode se considerar privilegiado.
    Culto, inteligente, sensível, carismático é um ser humano ímpar!!

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