Salgaderia Piu Piu sobreviveu a incêndio e soma 21 anos de história

A quadras de distância, Ana Lúcia avistava a fumaça escura que encobria o céu. Minha nossa! O assunto era sério.

Poucas horas de ausência para buscar os filhos na escola e almoçar e todo o negócio da família estava no chão.

Até hoje, não se sabe a causa do incêndio. Começou no andar de cima da salgaderia, onde na época vivia um grupo de pessoas.

Quando os funcionários viram, não havia tempo para quase nada. O “quase”, porém, foi essencial. Um dos assistentes da cozinha conseguiu desligar os três botijões de gás, evitando tragédia maior.

– Não tinha um que não chorasse… Os funcionários, vizinhos, todo mundo. Quando você vê tudo transformado em escombros…

A salgaderia já tinha nove anos de história na administração de Ana Lúcia e Nelson, que na época era seu marido.

Em nenhum momento, no entanto, ela teve dúvidas de que o negócio iria continuar.

A essa altura, já estava apaixonada pelo ofício. E pensar que antes de assumir a salgaderia, em 1997, era professora e jamais havia trabalhado com alimentação!

– Essas coisas acontecem para testar a fé da gente. Quando a gente gosta do que faz, não tem jeito!

Salgaderia Piu Piu Ribeirão Preto História do Dia

Quando Ana Lúcia da Silva e o marido deixaram São Paulo para morar em Cravinhos, estavam em busca da tranquilidade que habita as cidades pequeninas.

Ela diz que foi por volta de 1996, sob as ameaças deixadas pelo plano Collor. Com o confisco da poupança no início de 90, as pessoas tinham medo de guardar dinheiro e, então, buscavam investir tudo o que tinham.

Ana e o marido decidiram, assim, investir na nova vida, com casa em Cravinhos, onde morava a família dele, e a abertura de um novo negócio.

Mudaram por volta de 1994. Mas a ideia da cidade pequenina durou pouco tempo.

– Escola, trabalho: era tudo mais difícil em Cravinhos.

Escolheram, então, Ribeirão Preto como morada.

A proposta no ramo de alimentação assustou um pouco. O então marido de Ana Lúcia trabalhava com contabilidade e ela havia feito magistério e há algum tempo cuidava da casa.

Decidiram analisar, porém. A ideia inicial era abrir algo no shopping. Mas um anúncio de classificados chamou a atenção.

– O lugar era totalmente diferente!

Visitaram o prédio, na esquina da rua Rodrigues Alves com a Martinico Prado, bem em frente à praça Coração de Maria, ponto central da Vila Tibério. E se encantaram.

Ana conta que o mesmo prédio já havia abrigado o armazém Casa do Governo, loja de colchões e casa de tintas.

Fazia dois anos, entretanto, que um homem começara o negócio de salgados, focado no público infantil. O nome já era Piu Piu, inclusive. E o dono do ponto tinha a tradição de organizar festas na praça, regadas a delícias para as crianças.

Decidiram tentar o novo negócio, apesar de todo estranhamento.

O local, ela diz, era pequenino. Menos da metade do que é hoje.

– Para mim, era tudo novidade. Sempre gostei de cozinhar, mas nunca havia trabalho com isso. Não sabia atender balcão, lidar com funcionários.

Estava, porém, decidida a aprender. E aprender em detalhes.

– A pior coisa é vender algo que você não sabe o que é, o que vai dentro. Eu quis aprender as receitas, a fritar, a fazer.

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Já familiarizada com o negócio, Ana diz que chegava a entregar 11 mil salgadinhos em um único dia de semana e 18 mil aos sábados.

Por quase uma década, toda a demanda era feita à mão, sem máquinas. A registradora de botões fazia o controle das vendas – e enlouquecia Ana com as travadas constantes.

Quando o incêndio aconteceu, por volta de 2006, a salgaderia ainda era manual. E o negócio enfrentava dificuldades financeiras.

Não fosse o seguro, que cobriu as despesas com as perdas, talvez eles não tivessem como continuar.

Levou por volta de um ano para a reforma de reconstrução ficar pronta.

O prédio, Ana explica, é tombado como patrimônio histórico, o que dá ainda mais charme para toda a história do local. Mas também atrasou as obras, que tinham que passar por aprovação e priorizar a estrutura antiga.

Foi nessa época que a estrutura da salgaderia foi ampliada.

– Já que íamos reformar, decidimos aumentar. E alugamos também a parte de cima.

Para manterem as contas, Ana e o marido alugaram um pequeno salão próximo ao prédio antigo. Usavam a própria casa para a produção dos salgados, transportavam no carro e vendiam no local improvisado.

– Foi um momento de união. Teve união dos funcionários, da família e de todo mundo que conhecia a gente!

Quando o prédio ficou pronto, a comemoração também foi em grupo.

Mas, poucas semanas depois de abrirem as portas, um novo susto.

Dessa vez, Ana estava a poucas quadras dali, no banco. E ouviu a explosão.

O pintor que finalizava as obras encostou o rolo de pintura em um fio de alta tensão.

– Os bombeiros não acreditam até hoje que ele não sofreu nada!

O mesmo agente dos bombeiros que atendeu ao incêndio voltou ao local. E o mais difícil foi aguentar a falação de quem torcia contra.

– As pessoas diziam: ‘Foi ali de novo?’. E falavam que a gente não conseguiria reabrir!

Reabriram e, passada a fase de azar, nunca mais tiveram incidentes.

– Foi uma fase! Graças a Deus, passou!

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Enquanto a entrevista acontece, em uma mesa da salgaderia, um homem se aproxima e avisa:

– Essa mulher eu conheço bem! É vencedora e corajosa! Pode escrever aí!

É um cliente antigo, com mais de 15 anos de casa, Ana diz.

Ali na salgaderia, ela criou seus dois filhos. Na segunda gravidez, aliás, trabalhou até às 12h da sexta e às 14h deu luz à sua menina.

– Meu filho é médico à base de coxinha!

Ela e o marido se separaram em 2010 e, por três anos, ele tocou sozinho o negócio.

Nesse período, ela abriu uma choperia.

O amor pelo que faz tornou os dois, mesmo separados, parceiros de trabalho. Em 2013, Ana voltou para os seus salgados.

Em 21 anos de salgaderia, ela conta que passaram de 30 opções de salgado para 70. A receita, porém, é a mesma desde sempre.

– A gente aprimora, mas quem comeu 10 anos atrás vai sentir o gosto da mesma receita.

A função de Ana é atender ao balcão. Mas, se precisar, ela reinventa os cargos.

– Trabalhar é vestir a camisa. Se precisar, eu lavo banheiro, frito salgadinho, atendo. Eu acho que a gente deve participar do que é nosso. Tudo o que eu tô fazendo de melhor aqui é para mim mesma. É para todos.

Os problemas ficam da porta para fora.

– Quanta gente entra aqui com a cara amarrada e é recebido com um bom dia! Problema todo mundo tem, mas o cliente não precisa saber. Se a pessoa está emburrada, eu faço minha parte!

Apaixonada – mesmo – pelo que faz, precisa se controlar para não comer as delícias que saem da cozinha. Os seus preferidos são também os salgados que mais saem. Pasteis e coxinhas: não precisa esforço para saber.

Ana conta que, em 21 anos no prédio, nunca precisaram de imobiliária para intermediar o aluguel. O dono, enquanto teve saúde, passava dali todos os dias e, em dia de pagamento, levava o talão de recibo, assinado à mão.

Ele morreu há cerca de um ano, mas o processo continua à base de confiança com sua família.

Nos últimos anos, com a crise econômica, as vendas diminuíram tal qual as festas.

Ela relata que tem sido mais difícil equilibrar as contas. Ao invés de reclamar, porém, cria estratégias.

Já pensa em distribuir salgadinhos congelados em mercados, padarias. Inovar nas formas de venda.

– A gente começou isso aqui. É uma história! Não podemos deixar acabar da noite para o dia!

Quem sobreviveu a um incêndio tira de letra qualquer aperto. O segredo do bom salgado Ana já sabe qual é.

– É o amor! Quando atende com carinho o cliente, da forma como a gente gosta de ser atendido, só pode dar certo.

 

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Todos os 5 comentários
  • Carina
    Responder

    Salgadinhos Piu Piu o melhor.

  • Cristiane Garcia
    Responder

    Linda história de superação e garra. Parabéns à família e funcionários da salgaderia Pio-piu

  • Irene Sanros
    Responder

    Quando lutamos pelos nossos ideais,enfrentamos todos os obstáculos! Parabéns a todos!

  • Anand Avikal
    Responder

    Parabéns ao Nelson e a Ana pela persistência!

  • Márcio Francisco da Siva
    Responder

    Eu conheço muito bem essa História, os dois são meus amigos (irmãos) minha filha trata-os como tios lembro quando o filho dela que hoje é médico nasceu, quem diria tô velho kkk
    mas os salgados bem como tudo que se come ali no piu-piu são de ótima qualidade.
    NELSON estudou comigo na 6ª série em 1976 e juntos praticamos hóquei sobre patins, Sertãozinho nem sequer sabia o que era esse esporte
    PARABÉNS MANO! DEUS ABENÇOE E VOCÊ ANA LUCIA TAMBÉM

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