Severino ‘do suco’ é mestre de Kung Fu

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 22 de março de 2017.

 

Das 6h30 às 18h, Severino é o “moço da vitamina e do suco”, o brincalhão, o homem que há 27 anos trabalha na tradicional lanchonete do Mercadão de Ribeirão Preto.

Quando esse expediente acaba, veste a roupa preta e, então, é mestre Severino Rocha, de Li Tchuó Pa Kung-Fu.

O homem sério, que se dedica à arte marcial chinesa há 32 anos, é integrante da associação nacional da modalidade e já perdeu as contas das competições das quais participou.

É na academia de Li Tchuó Pa Kung-Fu que Severino está em casa. É a história de mestre que contrariou previsões médicas que ele tanto gosta de contar.

– Li Tchuó Pa Kung-Fu para mim é vida, é saúde, é tudo. Me deu a possibilidade de adquirir conhecimentos e grandes amigos.

Severino nasceu em Pernambuco e partiu para Ribeirão Preto com 13 anos, ajudar o tio em uma banca de frutas.

Desde as terras pernambucanas, escutava o primo contar as histórias daqui, encantado pelas academias que ensinavam luta. Jurou, desde aí, que quando viesse iria aprender.

Logo que chegou, porém, veio o diagnóstico. Por motivos incertos, o menino Severino teve um desgaste entre o fêmur e a bacia. Precisou passar por duas cirurgias e os médicos diziam que ele não poderia fazer qualquer tipo de atividade física.

Entrou por uma orelha e saiu pela outra (ainda bem!).

Severino continuou a andar de bicicleta para fazer as entregas do trabalho e todos os dias passava em frente a academia que ensinava Kung-Fu. Era o esporte da época, ele relembra.

– Quem não assistia os filmes do Bruce Lee? Do David Carradine?

O preço da matrícula, porém, era mais alto que as dores que ainda sentia nas pernas.

Passou seis meses juntando o dinheiro. Diz que precisou de 15 mil cruzeiros. Quando conseguiu, já nem se lembrava mais do que havia previsto a Medicina.

Severino estudava, trabalhava e treinava, num esforço imenso para pagar a mensalidade. Tão imenso que tocou o mestre e, percebendo o potencial do menino, trocou o pagamento por ajuda.

Desde então, Severino não mais deixou a arte marcial.

No caminho de lutas, precisou do trabalho na lanchonete do Mercadão para pagar as contas. E desde 2009, além do “moço do suco”, é dono da sua própria academia, no Centro de Ribeirão.

Severino – sempre lutador – acorda às 5h30, pega o ônibus e trabalha na lanchonete até às 18h30. Vai para a academia, onde dá aulas até às 20h30, volta para casa. Duas vezes por semana treina 80 crianças como voluntário de um projeto na Vila Virgínia.

Quem procura o seu treino e não tem condições de pagar, encontra as portas da academia abertas.

– Eu sei o quanto foi difícil para mim… por isso trabalho como voluntário, por isso aqui ninguém fica sem treinar. Retribuo o que meu mestre fez por mim.

Entre os tatames, troféus e medalhas vai somando conquistas.

Deixou de competir em 93, para se dedicar à competição dos alunos. Além das 80 crianças, tem mais 25 alunos de todas as idades na academia. Para este ano estão previstos cinco campeonatos.

– Às vezes eles me perguntam: ‘Como o senhor aguenta?’. Eu não sei nem explicar. É porque eu gosto mesmo.

“Senhor” é só mesmo no documento de identidade. Severino esconde os 49 anos no rosto hora sorridente e hora concentração.

– Eu não bebo, não fumo e pratico Kung-Fu.

Revela seu segredo. E finaliza com a lição que quer passar à frente:

– Kung-Fu é disciplina, é concentração, é responsabilidade. E é principalmente respeitar o próximo. Amar o próximo como a ti mesmo.

 

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