Skate são as pernas de Ruan Felipe

O skate chegou por necessidade. Uma amiga sugeriu que, talvez, a prancha sob quatro rodas pudesse ajudar Ruan a ir de um lugar a outro.

Era preciso, afinal. Aos sete anos, o menino se arrastava para chegar à sala de aula que ficava no primeiro andar da escola, depois de muitos degraus.

Todo o mais, era feito com cadeira de rodas. Mas Ruan Felipe nunca se adaptou bem a esse tipo de veículo. Preferia, então, ficar em casa.

O motivo não era só a cadeira. Até descobrir no skate o companheiro, ele tinha um misto de receio e vergonha de sair de casa.

A história que lhe contaram é que um remédio aplicado pelos médicos para conter uma febre alta lhe causou uma forte alergia. Ele tinha três ou quatro anos na época e diz que nunca quis ir a fundo na história.

Por isso, sabe meio por cima: ficou semanas no hospital, passou um período entubado, teve paradas respiratórias e foi perdendo partes do corpo.

As pernas foram amputadas e há cicatrizes no corpo todo: rosto, braços, peito, costas. Os movimentos dos braços foram comprometidos.

– Minha avó conta que os médicos disseram que era isso ou a morte. Ela respondeu que era melhor assim do que me perder.

Foi a avó quem cuidou do menino. Ela é a responsável pela cabeça sempre erguida de Ruan quando anda nas ruas de Ribeirão Preto, onde mora, ou de qualquer lugar por onde passa.

– Minha avó nunca me tratou como coitado. Ela me levava para os lugares, me mostrava as coisas, me incentivava.

Quando a ideia do skate veio, a avó abraçou. Não imaginava, porém, onde o neto iria chegar.

Hoje, Ruan viaja o Brasil competindo em cima do skate com patrocínio de cinco empresas diferentes. Até meses atrás, competia com atletas sem deficiência. Agora, ajuda a estruturar uma equipe de paraskate no Brasil.

– O preconceito está na cabeça de quem escuta. Eu vou entender aquilo do jeito que eu quiser. E eu escolhi não me importar.

Para Ruan Felipe, 24 anos, as asas vieram em forma de rodinhas sob prancha. O skate é sua forma de interagir com mundo.

Ruan Felipe Skatista Ribeirão Preto

Ruan diz que cursou a pré-escola sem grandes problemas. O local era acessível e ele podia ir à aula. Por volta dos sete, oito anos, no primeiro do fundamental, foi transferido para um prédio cheio de escadas.

Para chegar à sala de aula era necessário subir um lance extenso de degraus. E a diretora parecia não ter qualquer vontade de colaborar.

– Ela não queria que eu fosse para a escola. Não queria me aceitar como aluno.

As dificuldades eram tantas que Ruan acabou desistindo. Ficou um ano sem ir as aulas.

Só voltou porque a avó procurou a imprensa, para relatar o que estava ocorrendo. A escola matriculou o aluno, mas a acessibilidade continuou zero.

Ele, então, ia até o pátio de cadeira de rodas, deixava a cadeira embaixo da escada e se arrastava pelos degraus e corredores até a sala de aula.

– Muitas vezes, eu não saía da sala nem para o intervalo.

A amiga da avó sugeriu o skate. Quem sabe Ruan conseguisse chegar até a sala com mais facilidade? A diretora, porém, não estava mesmo para conversa.

– Ela não me deixava entrar na sala com o skate. Me fazia deixar o skate junto com a cadeira.

Ruan respeitou a regra por uns dias. Mas, depois, decidiu que iria, sim, se locomover da forma que pudesse. E começou a usar o skate.

Dias depois da decisão, ele diz, o skate foi furtado dentro da própria escola. Conta que a diretora avisou que lhe compraria outro, mas, em troca, queria que o menino desse uma entrevista à imprensa, para tirar a “impressão ruim” que havia ficado com a questão da matrícula.

– Eu respondi que preferia continuar me arrastando.

Foram mais três meses para que ele ganhasse outro skate. A avó e a amiga se uniram e compraram um modelo mais em conta, que cabia nas contas apertadas.

Ruan Felipe Skatista Ribeirão Preto

Ruan diz que até os 10 anos o skate foi meio de transporte. Passou a ir para todo lado sob a prancha: por si só, uma grande função.

Via, entretanto, que para os meninos do bairro o instrumento também era diversão.

– Eu infernizei até minha avó me deixar ir ver os meninos andarem na rua. Quando vi que dava para pular, saltar, que não era só locomoção, comecei a me adaptar de outra forma. A me esforçar mais.

Locomoção e diversão: foram as funções do skate até os 13 anos de Ruan, quando uma grande marca fez uma demonstração na escola do bairro.

Um dos seus amigos correu em casa lhe chamar. “Você tem que vir!”

Quando Ruan chegou na escola, entendeu a ansiedade do amigo.

– O Og de Souza estava na escola. Quando cheguei e vi ele pulando, voando, eu pensei: se ele consegue, eu também consigo.

Por uma poliomielite na infância, Og perdeu as pernas e, assim, como Ruan, encontrou no skate uma forma de conexão.

O skate de Ruan ganhou ali mais uma função. Iria voar por aí, como o do Og.

O menino foi até presenteado com um skate, autografado e tudo. Mais uma vez, porém, o skate foi furtado do quintal de casa no mesmo dia. Não deu nem tempo de mostrar para os amigos da escola.

Dessa vez, Ruan tinha um plano B. O dono de uma loja, que também conheceu na escola, havia lhe oferecido um skate e o menino não teve receio de ir buscar.

A primeira competição foi planejada pelo mesmo amigo que, ansioso, foi lhe buscar em casa para apresentar ao Og.

Ruan já estava com 16 anos. O amigo insistia que ele competisse, mas a resposta era sempre negativa.

Foram juntos assistir a uma competição no Sesc, quando o locutor anunciou os nomes dos competidores: “Ruan Felipe”.

– Meu amigo começou a rir e eu sem entender nada. Ele tinha feito minha inscrição!

Foi o começo de um caminho que Ruan ainda está a trilhar.

– Comecei a competir, gostei e não parei mais.

Hoje, ele tem cinco patrocinadores e perdeu as contas dos lugares que conheceu competindo.

Mais que isso. É inspiração para muita molecada que esbarra nos degraus da escola e precisa de um caminho alternativo para continuar.

Ruan Felipe Skatista Ribeirão Preto

Ruan é cheio de planos para o futuro. Quer se tornar um skatista profissional, ter um shape (prancha) personalizado com seu nome, continuar a ganhar o mundo com suas manobras.

A lista de cursos que tem no currículo é extensa: quatro ou cinco modalidades de informática, elaboração de jogos, animação, marketing, design. Nada, porém, se compara ao esporte.

– O skate é minha vida.

Sonha a dois e, então, o sonho é mais forte. Há quatro anos, tem a namorada Ligia como companheira de viagens e competições. Dentro e fora da pista.

A jovem de 21 anos não tem deficiência. Os dois são, então, constantemente, vigiados por olhos tortos.

– As pessoas pensam que nós somos amigos, irmãos, nunca namorados.

É ela quem diz.

Conta que se apaixonou por Ruan logo no começo e teve, sim, medo quando ele lhe pediu em namoro.

– Eu nunca tinha namorado. Não sabia se conseguiria dar apoio para ele. Como seria.

Até morar juntos os dois já moraram. Vão juntos para todo lado e, nas fotos, exibem sorrisões largos e apaixonados.

Ruan, aos 24 anos, ainda não aprendeu a se conformar com o olhar do preconceito. Com a falta de informação. Diz que, não raro, as pessoas lhe oferecem dinheiro na rua. Chegam a lhe jogar moedas.

– Eu fico pensando: o que essa gente sente? O que essa gente pensa? Eu não preciso disso. Não peço nada para ninguém. E não me conformo com pessoas que aproveitam da deficiência para fazer os outros sentirem dó.

Faz questão de responder, tentar abrir os olhos de quem parece viver no escuro. Com o skate aprendeu que se machucar é regra. Mas levantar também.

– O skate ensina que você vai cair, mas tem que levantar e tentar de novo. E se você conseguir, mas não sair do jeito que você quer, você tenta de novo. Até que saia.

Os ralados são constantes. Mas a vontade de continuar não cessa.

– O simples fato de conseguir acertar a manobra, filmar e postar nas redes sociais vale a pena. Para a gente, que é amador, o retorno que as pessoas dão é gratificante!

Ruan sobe no skate e vai embora, Calçadão afora. A namorada está ao lado. Em março, o destino foi o Rio de Janeiro. Em junho, tem competição em Belo Horizonte.

– Meu meio de inclusão social é andar de skate.

Não há limites para quem aprendeu a voar.

 

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